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Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

Entre a Eurocopa e os clubes brasileiros, não se posicionar é assumir lugar de opressor

Caso da Uefa, que proibia a Prefeitura de Munique de iluminar o estádio nas cores da bandeira LGBTQIA+ e do Ceará, que se recusa a se posicionar em prol da diversidade sexual mostram o longo caminho pela frente no futebol
Tipo Opinião
Uefa rejeita iluminação com as cores do arco-íris em estádio de Munique para Alemanha x Hungria (Foto: Andreas Gebert / Pool / AFP)
Foto: Andreas Gebert / Pool / AFP Uefa rejeita iluminação com as cores do arco-íris em estádio de Munique para Alemanha x Hungria

 

Semana passada, prometi falar sobre Hungria, Alemanha e o contexto que fez a Uefa barrar o protesto da cidade de Munique contra a legislação LGBTfóbica do governo húngaro do ultraconservador Viktor Orbán. Cumprirei, mesmo que, mais uma vez, outro assunto se imponha. Segunda-feira foi Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ e 18 dos 20 clubes da elite do futebol nacional se posicionaram, nas redes sociais. Para surpresa de poucos, o Ceará Sporting Club foi, ao lado do Athletico-PR, um dos ausentes, sob a genérica justificativa de "não opinar sobre questões políticas ou de gênero" — seja lá o que isso significa.

São, portanto, dois temas parecidos. É um desamparo institucional. E a coluna será por tópicos.

A conveniente "não política" da Fifa

A Fifa é muito objetiva ao barrar "política" nos jogos. E convenientemente pouco objetiva ao definir o que é uma manifestação política. Por exemplo, a Copa do Mundo passada e a atual foram/serão sediadas em países governados por líderes autoritários. Seria o evento uma ferramenta populista? Claro, mas nesse ponto, a entidade faz vista grossa.

Anunciadas as sedes da Euro, Baku, no Azerbaijão, e Budapeste, na Hungria, foram escolhidas. Tanto o ditador Ilham Aliyev, quanto o autocrata Viktor Orbán usam abertamente o esporte como ferramenta de controle. Ainda assim, parece que tudo bem dar mais ferramentas para que eles oprimam opositores.

Em fevereiro, o goleiro húngaro Péter Gulásci, do alemão RB Leipzig, resumiu o que é a bolha conservadora na Hungria de Orbán. "Eu vivo fora há mais de 14 anos. Quanto mais tempo uma pessoa passa fora do país ou entre pessoas diferentes, mais ela vai se dar conta que nem todo mundo é igual, o mundo vai ficar mais colorido e que o amor, a aceitação e a tolerância com os outros são o mais importante". Ou seja, não existe espaço para minorias no país dele. 

A Alemanha, de tradição liberal (progressista nos costumes), resolveu usar a Allianz Arena como plataforma de protesto a uma lei aprovada pelo Parlamento de Orbán, que, resumidamente, bane conteúdo que retrate pessoas LGBTQIA+ para quem tem menos de 18 anos. Ou seja, expande-se a conformidade heteronormativa. Intui-se que ser LGBT é errado.

A Uefa barrou o protesto, mas mais que isso. Ela indicou que Munique podia colorir o estádio em algum outro jogo. Assim, a "política" do futebol é proteger quem negocia com a Uefa/Fifa, no caso, Orbán; e não proteger minorias sem vozes.

A Hungria foi eliminada por gol do volante Leon Goretzka, uma das vozes mais progressistas do futebol alemão, que comemorou mandando um coração para o grupo de "ultras" húngaros nas arquibancadas. Eu, neto de sobrevivente do Holocausto, comemorei. 

O Time do Povo (não minoritário)

A campanha mais bonita do Ceará nos últimos anos nem foi os belos resultados em campo. Foi resgatar a tradição do clube como "Time do Povo". Isso é lindo. É quebrar um pensamento pequeno burguês e ter orgulho da própria origem.

Mas o Ceará, ao que parece, não se orgulha de todos os seus torcedores. A ideia do clube, ao que tudo indica, é ficar em cima do muro. Mas se você não se posiciona contra a opressão, você é cúmplice. 

Ao não se posicionar, o Ceará — que até tem uma torcida LGBTQIA+, a Vozão Pride — agride parte dos próprios torcedores. E são adeptos acostumados a ouvir absurdos homofóbicos em estádios e ainda assim persistem fiéis. Ao ficar em cima do muro, o Alvinegro diz que é ok usar gírias para pessoas LGBTs como xingamento. Que essas minorias são menos importantes do que os outros.

É triste. Um post em rede social é marketing. É quase inócuo. Não precisa nem levantar bandeira, basta dizer que ama todos os torcedores de forma igual. A mensagem é importante para quem quer se sentir aceito. Outras oportunidades para o Ceará se posicionar virão e acredito que um dia a diretoria do clube (seja esta, seja a próxima) se dobre à sociedade.

Em suma, é aquilo sobre a política de se ausentar. Quem cala não se isenta. Quem cala se compromete.

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