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Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

Tom Daley é um modelo perfeito. Mas para quem?

Astro assumidamente gay, o saltador é galã internacional, ganhou medalha de ouro inédita para a Grã-Bretanha e viralizou tricotando. Mas o comportamento dele não precisa ser a regra
Tipo Opinião
Tom Daley (à esquerda) conquistou o ouro nos saltos sincronizados (plataforma de 10m) em conjunto com Matty Lee (Foto: Oli SCARFF / AFP)
Foto: Oli SCARFF / AFP Tom Daley (à esquerda) conquistou o ouro nos saltos sincronizados (plataforma de 10m) em conjunto com Matty Lee

É quase impossível discutir a presença LGBTQIA+ em Olimpíadas sem citar alguns nomes fixos. E, no contexto recente, o saltador britânico Tom Daley é celebridade.

Em Londres-2012, ele surgiu como jovem galã. Queridinho dos donos da casa, ganhou uma então inédita medalha de bronze na plataforma de 10 metros dos saltos ornamentais, enquanto arrancava suspiros e levantava boatos sobre sexualidade.

Pouco mais de um ano depois, no canal dele no Youtube, Tom anunciou que estava em um relacionamento com um homem. A nomenclatura com que ele se identifica variou. À época, ainda falava sobre atração por mulheres, mas que vivia algo mais intenso. Também chegou a se dizer “queer”, uma espécie de termo guarda-chuva para identificar orientações sexuais fora da conformidade da heterossexualidade compulsória. A tradução seria algo como “bicha” — em inglês, “queer” vem de “estranho”, enquanto “gay” vem de “alegre”. É um termo originalmente pejorativo, mas que foi incorporado como bandeira política.

Na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, Tom ganhou nova medalha para a Grã-Bretanha, desta vez no salto sincronizado, ao lado de Daniel Goodfellow. Acumula ainda três ouros em mundiais, entre 2009 e 2017.

O ano de 2017 também marcou o casamento de Tom Daley com o roteirista Dustin Lance Black, com quem namorava desde 2013. Os dois têm um filho. E, agora, o casal tem um herdeiro, um Oscar — de Black, pela cinebiografia “Milk”, de 2008 — e um ouro olímpico, conquistado por Daley na dupla do salto sincronizado com Matty Lee.

Em coletiva em Tóquio, Tom Daley se disse "imensamente orgulhoso de ser gay e um campeão olímpico”, nesta ordem.

Foi uma grande e pública jornada a do britânico bonito e que compete com o abdômen definido à mostra. Daley é vendável, é um modelo praticamente perfeito. Cresceu sob holofotes da mídia e sabe dar exatamente o que se espera dele. Ele até tricota. Que mãe não ia querer esse genro? Ele é o “Will & Grace” dos atletas olímpicos LGBTs.

 
 
 
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Esse texto nem de longe é uma crítica a Tom Daley, que carrega há anos o fardo de ser um dos mais famosos atletas LGBTs do mundo. Seria até hipócrita, já que eu também me dobro à normatividade. Mas nem todos corpos dissonantes precisam seguir o caminho dele, que é semelhante ao que os heterossexuais esperam (ou impõem) de gays.

Porque essa mesma sociedade que parece aceitar também pode rejeitar na primeira rachadura na imagem perfeita que criam para alguém.

Dono de quatro ouros olímpicos, o norte-americano Greg Louganis, em 1995, foi de ídolo dos saltos ornamentais a vilão olímpico em dois tempos. Ali, ele foi uma das primeira celebridades a anunciar que era HIV positivo. O diagnóstico dele remontava a 1988, mesmo ano da Olimpíada de Seul, quando, em famoso acidente, ele bateu a cabeça no trampolim e sangrou na piscina — algo que não trouxe qualquer risco de infecção aos demais competidores.

O pecado de Louganis foi ser sincero. Ser HIV positivo também implica em sexo — e por ser gay, significava que era com outro homem —, modalidade sexual que a normatividade prefere fingir que não existe, como se a maioria das pessoas não transasse. Mesmo antes de se assumir, em 1994, Greg sempre teve poucos patrocinadores por conta dos boatos sobre a sexualidade.

Daley é corajoso, dá a cara a tapa, mas ninguém é perfeito. Ele não merece ser apedrejado caso algo não case com a imagem que a sociedade pintou dele.

Porque cada pessoa é um só. Ser "mais normativo" só significa que ele é mais vendável, é mais aceito. Pessoas não binárias na competição, Alana Smith (do skate) e Quinn (do futebol), também são válidas. Mulheres trans como Laurel Hubbard merecem aceitação. Homens “pintosos” como Douglas Souza (vôlei) tem direito aos milhões de seguidores dele.

A única pessoa que tem algo a ver com a sexualidade do outro é quem quer transar com ele.

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