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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Já pensou em tudo o que cabe em um ‘muito obrigado’?

A gente anda por aí correndo, no nosso cotidiano atribulado, distribuindo automáticos "obrigado por isso" e "obrigado por aquilo". Nem realiza quanta coisa cabe nesta simples palavrinha de agradecimento, que oleia as juntas da nossa convivência com os outros
Tipo Crônica
Delicadezas na natureza: filhotes de socozinho, no Parque Estadual do Cocó, em Fortaleza-Ceará (Foto: DEMITRI TÚLIO)
Foto: DEMITRI TÚLIO Delicadezas na natureza: filhotes de socozinho, no Parque Estadual do Cocó, em Fortaleza-Ceará

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Obrigado, dito assim no seco. Muito obrigado, para os mais formais ou realmente gratos. Obrigadíssimo para os realmente satisfeitos. Obrigadinho para os mais carinhosos. É a palavrinha mágica que a gente aprende ainda criança, no processo civilizatório que empreendem nossos pais e mestres. A gente diz o quê? E o menino, já correndo com o doce na boca, volta a cabeça para trás e diz, sem saber o que disse: “obrigado”. Pronto, o adulto está contente. O mundo volta à ordem. O miúdo há de ser alguém na vida.

Até os estrangeiros acham uma graça enrolar a língua e tentar articular a palavra salvadora, que nos livra todos dos vexames da ignorância, de falta de empatia e acusações de ingratidões. Quatro sílabas. Vai bem com um “por favor”, um “com licença”, um “desculpe”. Eu gosto de dizer e de ouvir. Mesmo se hoje andamos tão econômicos em gentilezas.

Numa viagem ao Porto, Norte de Portugal, o assunto caiu bem na minha xícara de café. Isso por conta de um bando de pássaros em revoada, destes que viajam em grupos, arrastam malas e olham guias turísticos. Austríacos, no caso. Mas, podiam ser de qualquer outra nacionalidade. Chegaram em três ou quatro viagens de elevadores e encheram a pequena sala do café-da-manhã do hotel. Em minutos, esvaziaram-se bandejas de queijos, fiambre, pães e bolos.

A máquina de café engasgou, na insistência dos apertões. Para socorrer os hóspedes, correu expresso um invisível pelotão de funcionários, na azáfama de desentupir máquinas, repor comida e limpar o buffet. Já os turistas, barrigas cheias, partiram satisfeitos para a Galícia, na Espanha. E, no silêncio que se seguiu, não reverberou sequer um danke schön (ao pé da letra, “lindo obrigado”). Olha, Santiago (de Compostela), vão aí ter consigo uns mal-agradecidos.

Do meu canto, eu entalei com a broa de milho. A gente diz o quê? A gente diz o quê? Diante do meu olhar perplexo com a eficiência de robôs que se instalou na sala, o companheiro de mesa resolveu adoçar o café com uma colherada de cultura inútil. A pensar nas várias formas de agradecer, no mundo. Já reparou que nas línguas anglo-saxônicas e germânicas o equivalente da palavra obrigado é sempre bem curtinha? Como coice de mula, diria um compadre meu.

Ora, vejamos a explicação da ideia. Em alemão, danke. Em holandês, danku. Em inglês, thanks ou thank you. E, nas línguas escandinavas, a coisa fica ainda pior. Quer dizer, em norueguês é takk. Em sueco é tack. E em dinamarquês, tak. Três letrinhas e, pronto, problema resolvido. Já nas línguas neolatinas, temos o merci para o francês, o gracias para o espanhol e o grazie para o italiano.

 

"...neste jogo de agradecer, resta um paradoxo. O vínculo moral dura o tempo da fala. Depois se perde no tempo, sem garantias, sem memória. ... Mas, o que não dá para esquecer é que sem os outros não dá para viver"



Tudo isso, claro, seja em que língua for, pode ainda ser floreado, melhorado e intensificado com a inclusão de outras palavrinhas adicionais, como “muito”, “cordialmente” e “mil vezes”. No dinamarquês, ao invés do sucinto “tak”, dizer, por exemplo, o “mange tak”. Já outra coisa, não é? Dá até tempo do agradecido olhar nos olhos do benfeitor.

Os japoneses é que agradecem com uma pitadinha de filosofia, pelo que tirei dessa conversa de hotel. Pois, arigatô, na sua origem, significa algo parecido com “a vida é dura” ou “é difícil existir”. E, já que “a vida é dura”, eu exprimo a minha gratidão e apreciação pela sua bondade. Não é lindo? O café tinha já esfriado na xícara quando a gente chegou outra vez ao princípio, no caso do obrigado, na língua de Camões e Patativa do Assaré.

Anos atrás, um dos grandes especialistas mundiais na área da Educação, o professor português António Nóvoa, disse algo sobre o assunto. E eu nunca mais esqueci. Durante um evento em Brasília, cujo registro me chegou em vídeo, ele resume o “Tratado da Gratidão”, de São Tomás de Aquino. Nele, os três níveis da prática do reconhecimento.

No primeiro, o plano mais superficial, que é o cerebral ou intelectual. É o caso do danke ou thanks, com a ideia de reconhecer alguém no pensamento. O segundo, o nível intermediário, traz a ideia da mercê, de dar uma graça a alguém, como o gracias e o grazie. Já o terceiro, que é o mais profundo, só o português tem, segundo o professor. É o nível do vínculo. “Fico-vos obrigado perante vós. Comprometido. Vinculado”.

E eu acrescento um grão à fala do mestre – cria-se aí uma espécie de laço moral. Fico ligada moralmente a você. Em dívida. Veja quantas coisas cabem num simples obrigado. Aliás, no agradecer em português, outra novidade. O sujeito que fez o favor recebe o “obrigado” e, do seu lado, pode responder “de nada”, liberando o outro da dívida. Ou, pode dizer também “obrigado, eu”. Assim, vinculados e enlaçados os dois.

A gente até tem vontade de insistir: “não, obrigada, eu”! Dar mais uma volta no novelo da gentileza. Por isso, fui dar uma palavrinha às meninas do hotel. Meu obrigada sincero. Mesmo se, neste jogo de agradecer, resta um paradoxo. O vínculo moral dura o tempo da fala. Depois se perde no tempo, sem garantias, sem memória. Esqueço eu. Esquecem elas. Os austríacos esquecem também. Mas, o que não dá para esquecer é que sem os outros não dá para viver. A vida é dura, lembram os japoneses. E um obrigado salva até, e inclusive, um simples café-da-manhã.


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