Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.
Acabou-se 2025, passou Natal, as Festas da virada de ano. Foram sete pulos nas ondas do mar e entramos de pés e corpo em 2026. E, no entanto, o Ano Novo parece já velho, decrépito, uma estrada já visitada
Foto: FÁBIO LIMA
Queima de fogos na Praia de Iracema
Tudo é passado, escreveu no Público o escritor e jornalista português, Miguel Esteves Cardoso. E ele tem certa razão. Cada palavra escrita e lida desta crônica, fica para trás, no tempo — estamos no presente e o agora já passou. Para o jornalista, o presente é aquele poleiro com rodas que o vento empurra para cada vez mais longe. Para onde? Quem sabe. Nem ele, nem eu.
O caso é que sonhamos, a cada fim de ano, que o vento leve nosso poleiro para um lugar diferente, um horizonte esperançoso, um nascer de sol idílico, um paraíso na Terra. E, não — o trabalho, casamento, filhos, contas para pagar.
Mastigamos as nozes do bolo de reis, avançamos para a Páscoa, oolho no Carnaval, numa casa de praia, as férias do meio do ano. Logo mais teremos de novo um Pai Noel pendurado na janela.
No meio do ano, e já doidos para que 2026 termine logo — sopra vento, sopra no meu poleiro. Empoleirados e sem direção, nos refugiamos no passado: antes era melhor, naquele tempo era tão bom, aquele 2026 foi divino. Tudo passa a ser bom, depois que passa. Saudades do tempo em que não me dei conta de que era bom.
Uma coisa é a memória, outra é lembrar, diz-nos o Nobel de Literatura (2021), Abdulrazak Gurnah, de passagem por Portugal para o lançamento do livro Gente da Casa.
A memória tem um lado involuntário, enquanto lembrar nasce de uma intenção, precisa o escritor. Queremos lembrar de algo, de um tempo, e a memória pode nos deixar pendurados. E ficamos em desespero, na nossa intenção de lembrar.
Certo, o ano de 2026 começou levando o poleiro geopolítico para um lado bem perigoso. O gosto do bolo de Reis amargou, a fantasia de Carnaval desbotou. O vento veloz dos acontecimentos sopra também à noite, enquanto tentamos conciliar o sono. E de manhã cedo, o que ainda não sabíamos, já é passado. Fato consumado. E vamos nós de novo, ao sabor dos ventos fortes, que nos empurram para longe.
Esquinas, ruas estreitas, boulevards, outro país, outro Carnaval. Com sorte, e se a memória deixar, em 2027 vamos nos lembrar de 2026 — o ano que abriu a caixa de Pandora, onde todas as possibilidades de futuro ficaram em suspensão, e escapamos de uma queda vertiginosa do nosso poleiro do tempo.
Entre esperança, lembrança e receio, entramos em 2026, achando melhor o passado, com medo do futuro. Ainda há luzes de Natal esquecidas, por aí. Ontem, numa loja, ouvi o Jingle Bell. Os filmes de Natal ainda passam na tevê, enquanto Janeiro voa. Cinco feriados cairão num sábado e domingo. Ainda bem, o próximo Natal cairá numa sexta-feira.
O futuro puxado para o presente e o presente de olho no passado. Invasões, intervenções, supremacia. Já não se viu isso antes? O primeiro golpe na esperança, em pleno janeiro. Da trégua de Natal, ficamos na saudade.
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