Ana Márcia Diogénes é jornalista, professora e consultora. Mestre em Políticas Públicas, especialista em Responsabilidade Social e Psicologia Positiva. Foi diretora de Redação do O POVO, coordenadora do Unicef, secretária adjunta da Cultura e assessora Institucional do Cuca. É autora do livro De esfulepante a felicitante, uma questão de gentileza
O melhor a se fazer é criar nossas próprias faíscas, nossas próprias fogueiras de informações em torno do que acreditamos, e deixar que as cinzas se formem nas redes sociais alheias
Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE
Urna eletrônica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Na recepção de uma clínica de radiologia aconteceu uma cena que, neste ano eleitoral, pode se repetir com frequência nos mais distintos ambientes e circunstâncias. Um senhor, com cerca de 75 anos, puxava conversa com um estrangeiro, em torno de palavrões em cada idioma. Do nada, ele soltou uma gracinha: aqui no Brasil, Lula é nome muito feio.
Na mesma hora, uma senhora que estava preenchendo ficha no balcão comentou: depende do ponto de vista de cada um. Por que o nome do presidente seria palavrão? Do ponto de vista dos juristas, ele respondeu. No que ela retrucou: nome feio devia ser o daquele que está preso por tentativa de golpe.
Os atendentes ficaram em silêncio, talvez assustados com o que a discussão poderia suscitar. O estrangeiro, que esperava a companheira sair de um exame, deixou o local. Os dois brasileiros ficaram envolvidos com seus celulares, nas pontas opostas do sofá da recepção, evitando que os olhares se cruzassem e as ideias também.
Quando eu soube deste acontecido, lembrei de dois fatos. Um da infância, quando a gente queria acender uma nova fogueira de São João com a madeira incandescente de outra fogueira.
E outro que vi nas redes sociais já neste ano, de que não se deve interagir respondendo a provocações nos perfis opostos ao que se pensa, porque isso alimenta o algoritmo e a mensagem é enviada a mais pessoas.
Ou seja, entrar na provocação de pessoas e partidos dos quais divergimos é o mesmo que trabalhar para o inimigo, pois estamos dizendo ao algoritmo que ali tem algo que merece ser visto por mais pessoas.
Em outras palavras, colocamos nossa faísca de interação para iluminar o terreiro do outro e desperdiçamos tempo em não cuidar de acender a fogueira para o que acreditamos.
Neste ano de disputa eleitoral para os governos federal e estaduais, em que o País ainda vive uma queda de braço escorregadia com o legislativo, é preciso muita atenção para não se permitir ceder à tentação da resposta que amplia o espaço de influência do outro.
O melhor a se fazer é criar nossas próprias faíscas, nossas próprias fogueiras de informações em torno do que acreditamos, e deixar que as cinzas se formem nas redes sociais alheias. Caso contrário, podemos nos queimar no fogo amigo, aquele em que acabamos por atingir o próprio time.
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