Logo O POVO+
Trem de tormentas vem morrer na Península Ibérica
Comentar
Foto de Ariadne Araújo
clique para exibir bio do colunista

Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Trem de tormentas vem morrer na Península Ibérica

Kristin bateu, Leonardo derrubou, Marta fecha a surra de chuvas. Não têm culpas as tempestades, tenham os nomes que tenham. Nem rios e barragens que transbordam em Portugal, Espanha e Marrocos. Somos nós, os humanos, que construímos onde não devíamos e impermeabilizamos o mundo
Comentar

Ciclones-bombas e rios atmosféricos de mil quilômetros, em três depressões de enfiada. Porque depois de Kristin e Leonardo, a Marta já deu as caras. Três tempestades seguidas, que viajaram baixinho, bebendo pelo caminho as águas caribenhas, para virem morrer aqui, na Península Ibérica.

A esponja está cheia de água. A chuva despenca sobre o que já está empapado — solos encharcados, desestabilizados ou impermeabilizados. Tormentas, o nome diz tudo. Atormentados, nos perguntamos, quando isso vai parar?

A Espanha abriu as barragens, para vazar a pressão perigosa. E a água desceu pelo Tejo e pelo Douro, inundando ainda mais Portugal, já alagado. Em Porto e Gaia, a população ribeirinha foi retirada.

Os galegos, na fronteira com Portugal, tão acostumados a estas borrascas na Galícia, assustaram-se com a subida da água. Surpresa maior dos andaluzes — estes, sim, não conhecem aguaceiros, mais afeitos a invernos de poucas chuvas — também lá, inundações.

Recordes, desde dezembro. Próximos dias, ainda mais difíceis, dizem os jornais. Se piorar, como é que fica? O barco vira, não-vira, balança. Alguns municípios já decidiram adiar as eleições para Presidente, marcadas para domingo, dia 08, por absoluta falta de condição de se transitar pelas ruas.

Uma mulher morreu, ao jogar-se no rio para salvar da correnteza o cãozinho amigo, em Málaga. Um homem só saiu de casa quando levou junto o cabritinho, que ele aquecia do frio com uma manta e abraços. Trancados no andar de cima da casa, muitos preferem ficar — enquanto no rés-de-chão o nível da água sobe.

Réstia de abertura, no céu? O trem de chuva ainda não passou. Certo, subirão ainda mais as águas, com as cheias vindas das barragens espanholas e com a queda de Marta. Portanto, antes de melhorar, as coisas ainda vão piorar.

De desgraça a desgraça, vivemos cada estação. Não sendo secas e incêndios mortais, são as chuvaradas, que desalojam e destroem. Não sendo uma ou outra, haverá sempre algo. O elevador da Bica que despenca ou um bondinho elétrico que descarrilha. E os portugueses fecham-se, nas suas tristezas e revoltas.

Esta nova dor vai influenciar ou não o resultado da eleição, no domingo? Não se sabe. Com raiva e desespero, vota-se mal. Precisamos de botas impermeáveis e anti deslizantes, para não derraparmos para a calçada da extrema-direita — esta sim, uma desgraça que, quando se instala, não passa assim fácil.

As chuvas atropelam-se, mas fazem parte de uma anomalia maior — Cuba viu com espanto a temperatura cair para zero graus; em Flórida, as iguanas caíram entorpecidas das árvores, com temperaturas próximas a zero.

Entramos, assim, em tempos de mudanças climáticas no Planeta, que nos obrigará a fazer ajustes e contas. E como não há decisão política para se dar a volta, vamos em alta velocidade, a bordo deste trem.

Foto do Ariadne Araújo

A soma da Literatura, das histórias cotidianas e a paixão pela escrita. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?