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Tempestade-bomba devasta de Norte a Sul, em Portuga
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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Tempestade-bomba devasta de Norte a Sul, em Portuga

Rodas gigantes tombadas, casas sem telhados, árvores arrancadas pela raiz, galhos furando tetos, cidades inundadas. Até agora, cinco mortos e duzentos feridos, além de dezenas de desabrigados, com a tempestade Kristin
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Aos 87 anos, Dona Violina mora sozinha, em Leiria, e não sossega há dias, ocupada com o trabalho de aparar com baldes a água do telhado aberto, em vários pontos da sala e quarto. Entrou pelo teto da casa dela, o tronco de enorme árvore, derrubado pela força do vento da tempestade Kristin.

Já são cinco os mortos, duzentos feridos e muita gente desabrigada. Inclusive, um milhão de pessoas sem luz e outras tantas sem água. Dona Violina teve a sorte de não ser atingida fisicamente. Outras pessoas foram levantadas pelo vento, empurradas, derrubadas.

Postes, carros destruídos, aviões pela metade, telhados arrebentados. Grandes árvores arrancadas pela raiz, envoltas em pedaços da calçada. No centro histórico de Sintra, 25 árvores foram arrancadas de uma rajada.

Em alguns pontos, a velocidade do vento alcançou 200 quilômetros por hora. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, Kristin recebeu a força de um ciclone-bomba e de um fenômeno chamado “sting jet”. Leiria e Coimbra foram de longe as áreas mais afetadas.

E pensar que tudo começou com uma onda de frio que cobriu de uma neve branquinha e fofa as serras, também lugares mais baixos — há décadas não se via isso. A beleza da neve deu lugar à tempestade, a ondas altíssimas no mar e rios fora dos leitos.

O solo encharcado não sustenta mais nada — assim, postes e mais árvores caem — e isto tende a piorar, com mais chuvas. Comparam os aguaceiros e os ventos com o vivido durante o furação Leslie. As pausas são de pouca dura, como se diz por aqui.

Numa trégua de Kristin, corremos para o supermercado e encontramos lá um mundo de gente, comprando comida para suportar mais dias em casa. Também a ida a uma consulta médica mostrou pelo caminho a visão de carros sob árvores. Superar tudo isso, leva meses, diz o governo. Até porque Kristin não quer ir-se embora.

Há dez dias da eleição para presidente da República — próximo dia oito —, o candidato de extrema-direita aproveita-se da força de Kristin para ganhar audiência. Afinal, a revolta e a tristeza são boas brechas para se infiltrar ódios. Para o partido do Chega, quanto pior, melhor para inflamar, em comícios, em zonas afetadas.

Até a véspera da eleição, veremos os efeitos políticos do temporal. Se teremos mais tempestades ou uma necessária bonança, saberemos com os votos nas urnas. E com as contas dos estragos.

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