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Nascido na aldeia Idumbe, RD Congo, é Filósofo, Teólogo e doutor em Sociologia, Terapeuta da Espiritualidade Africana, ativista dos direitos do Ubuntu-Maat-Kalunga e diretor internacional da Comunidade Madinatu Munawara. É docente de graduação nos cursos das Relações Internacionais, Ciências sociais, Mestrado Interdisciplinar em Humanidades (MIH) do Instituto de Humanidades e Letras (IHL) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), docente colaborador no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais e Cidadania (PPPSC) da Universidade Católica de Salvador (UCSAL), coordenador do Grupo de Pesquisa África-Brasil: Produção de conhecimentos, sociedade civil, desenvolvimento e cidadania global, pesquisador associado do Centro dos Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN-UNESP); da Rede para o Constitucionalismo Democrático Latino-Americano, Pesquisador e membro do Comitê Internacional da Cadeira da Unesco Educação Transformadora, Democracia e Cidadania Mundial, da UQO, Canadá e expert da plataforma Harmony With Nature/ONU

Comunidade Noun-Nzambi-Orixás-Bakulu nas Cosmopercepções Africanas

Os povos africanos foram os primeiros seres humanos a ter pensado o princípio da Divinização-Imortalidade e Ancestralidade
Tipo Análise

Começo essa minha conversação com você, trazendo um texto sagrado do Egito faraônico-negro, que data de três mil anos antes de Cristo, intitulado por Théophile Obenga de Economia da natureza ou grande hino ao Aton (La philosophie africaine de la période pharaonique, 2780-330 avant notre ère. Paris: L´Harmattan, 1990, p. 77). Aproveite da sua estética poética e da sua profundeza espiritual para se sentir mais segura ou seguro na leitura desse meu texto.

Aparece, belo, no horizonte do céu
Disco solar vivo, que inauguraste a vida
Assim que te levantaste no horizonte oriental
Que encheste cada país de tua beleza
Tu és belo, tu és grande, tu iluminas, alto acima de todo o universo.
Teus raios abraçam os países até suas extremidades de tudo o que tu criaste.
Sendo o sol, tu chegaste até suas extremidades,
E tu os liga ao teu filho que tu amas.
Tu estás longe, (mas) teus raios estão na terra.
Tu estás em seus rostos (dos homens), (mas) o teu caminhar não é visível.
(OBENGA, 1990, p. 84-85; Tradução do autor)

O hino acima foi aproveitado na produção desse meu texto “O significado da Comunidade-Orum-Aiyé ou Comunidade-Universo-Natureza na Filosofia africana do Ntu-Axé” (Communitas, [S. l.], v. 5, n. 10, p. 182–200, 2021) que será útil, acredito, para quem quiser se aprofundar. Pretendo tratar, nesta segunda coluna, do que chamava até então no meu pensamento filosófico de Comunidade-Sagrado-Ancestral.

Doravante, a chamarei de Comunidade-Divindade-Ancestral, pois o termo Sagrado carrega nas línguas ocidentais a ideia generificada do masculino. Ancestral além de ser um adjetivo, não somente esteticamente traduz o poder do que pretendo dizer, mas igualmente, e sobretudo, me permite manter a ideia do gênero flexível que aceita a complementaridade do masculino e feminino nas lógicas difusas de culturas africanas.

Em diálogo com a minha companheira sobre esse texto, falei para ela que prefiro usar os substantivos Divindade e Ancestralidade para ficar mais próximos das ideias veiculadas pelas cosmopercepções africanas sobre o tema em pauta: a ideia de matripotência (Oyewumi, Oyoroke. Matripotência: ìyá nos conceitos filosóficos e instituições sociopolíticas [iorubás]. In: Philosophical concepts and sociopolitical institutions. What Gender is Motherhood? Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2016, capítulo 3, p. 57-92) e movimentação presentes na Ontologia africana.

Mesmo optando pelos termos femininos em línguas ocidentais, Divindade e Ancestral (substantivos) devem ser sempre entendidas como Realidades e Entidades não generificadas, mas andrógenas e marcadas pela ideia da complementaridade do feminino com o masculino. De verdade, olhando pelas tradições teológico-filosóficas que têm orientado meu pensamento, negro-egípcia, congolesa e yoruba, nomearia essa comunidade com palavras de línguas africanas, desse jeito: Comunidade-Noun-Nzambi-Orixás-Bakulu.

Argumentei, no texto passado, que em termos genealógicos, a Comunidade-Divindade-Ancestral é, em parte, a primeira a vir à Existência “dentro”, “com” e “na” formação da Comunidade-Ntu, Comunidade-Vida-Plena (O POVO, 30/07/2021). Ou seja, outras duas comunidades particulares que, juntas com a Comunidade-Divindade-Ancestral formam a Comunidade-Ntu, são, em termos genealógicos, a Comunidade-Orun-Aiyé ou Comunidade-Universo-Natureza e a Comunidade-Bantu ou a Comunidade-de-Seres-Humanos. Tratarei dessas duas comunidades nos próximos textos para fechar a trilogia que pretendo escrever, e logo dar continuidade a outros temas existenciais africanos.

Em outras palavras, os textos filosóficos e teológicos africanos de várias tradições nos informam que na gênese de todas as realidades que existem, conforme a tradição africana do Egito antigo, o Noun: Divindade Mais-Velha que existia antes do Universo Atual, tratado como objeto de investigação da Astronomia e Astrofísica modernas. Concebo o Universo como uma pessoa, um ser-vivente “com” e “de” direitos e deveres.

O universo como Ser vivente 

Seguindo o raciocínio de Obenga, para os egípcios antigos, antes do universo atual existia o “L´Avant Cosmique”, que eu traduzo como “O Pré-cósmico”. Esse era identificado como Noun, a matéria Primordial, Água Abissal, da qual vieram à existência todos os seres que existem. No tempo-espaço pré-cósmico, só Aton ou Râ coexistia com Noun. O céu, a terra, os homens, os deuses, as deusas, a morte que conhecemos hoje não existiam ainda e não foram ainda gerados. Quem é Aton ou Râ? Deixo Obenga nos responder:

Eu sou Aton, quando eu sou o único a existir
Sendo o único no Noun, e eu sou Râ quando ele aparece na sua glória, quando ele comanda e governa tudo o que ele criou.
Quem é esse Râ?
Eu sou o grande deus que veio à existência por si mesmo, sou a água, sou Noun, o pai dos deuses
(OBENGA, 1990, p. 38; Tradução do autor)

Aton ou Râ é a Divindade egípcia, representada pelo Disco solar, pelo Sol. É a força masculina, que residia no céu superior/de cima. A divindade que a completa, em outros textos, é a Lua ou a Terra, que representa a força feminina, o Céu inferior/de baixo. O mesmo mito afirma que Râ é o próprio Aton e Noun. É o Ser Não-Criado por ninguém e Ele próprio gestou-se.

Partindo, ainda da tradição negro-egípcia, ponderei no texto passado que, Noun, conforme Obenga, é da “ordem do ser das coisas”, e a Ontologia africana, em todas as tradições, é do Ser-em-Moviment-Ação, Ser-em-Movimento. Por isso, o filosofo congolês Tshamalenga Ntumba prefere centrar a construção da sua filosofia africana na categoria Realidade para destacar a dinamicidade da sua metafisica do que na categoria do Ser, que ele julga problemático por se pautar numa metafísica fixa e fixada (Ntumba, T. Le réel comme procès multiforme: Pour une philosophie du Nous processuel, englobant et plural. Paris: Edilivre-Aparis, 2014).

Mesmo usando a categoria Ser, o filosofo sul-africano Mogobe Ramose acrescenta o termo “Sendo” (tempo gerunditivo) para explicar uma das principais marcas da Ontologia (Noun) e Ética africanas (Maat), dentro dos territórios da África central e austral, a partir da categoria Ubu-Ntu, que ele traduz por Ser-Sendo (Ramose, Mogobe. (A ética do ubuntu. Tradução para uso didático de Ramose, Mogobe B. The ethics of ubuntu. In: COETZEE, Peter H.; ROUX, Abraham P.J. (eds). The African Philosophy Reader. New York: Routledge, 2002, p. 324-330.).

Dito em outras palavras, Noun no Egito Antigo, Nzambi na África Central e Olodumaré entre os Yoruba de Nigéria são Princípios do Ntu, Vida-Plena ou da Matéria-Energia Primordial a partir da qual veio à Existência-Vida Tudo-o-que-Existe: a Realidade. E insisto: a Realidade africana é processual, dinâmica, global, total e multiforme (Ntumba, 2014). Essa Energia-Matéria Primordial, chamada de Noun-Keper (Egito Antigo), Axé (Yoruba) (SODRÉ, Muniz. Pensar nagô. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.), Moyo-Kalunga (Lingala, Kikongo) é que coloca o Ntu em MovimentAção: Ubuntu, Ser-Sendo.

A Matéria-Energia-Primordial-Africana é considerada Sagrada ou Divina, no sentido da Realidade que merece a reverência, dignidade, respeito, reconhecimento absolutos, por ser a Entidade-Realidade-Mais-Velha, e aqui a noção da senioridade, para se compreender as cosmopercepções africanas, como nos alerta Oyewumi (2016), é de suma importância. Dito em outras palavras, Noun-Nzambi-Olodumaré é a Ntu-Axé-Mais-Velha entre as Mais Velhas, ou seja, a Matéria-Energia a Mais-Antiga.

Além disso, Noun-Nzambi-Olodumaré, como Força-Ntu Primordial, é reverenciada porque nos trouxe, enquanto Comunidade-Ntu, à Existência. Vejo aqui a potência criadora africana presente nas forças femininas e masculinas. Os textos teológico-filosóficos africanos nos informam que o primeiro movimento que a sua Divindade-Sagrado fez, no tempo-espaço primordial, foi a Autogestação, Autocriação não de forma ex-nihilo, mas emergente da Matéria-Energia Primordial.

O segundo movimento foi a sua expansão (Big bang da Astrofísica) processual que traz à Existência Todos Seres Viventes. O terceiro movimento é que Todos os Seres Viventes, quando finalizam o seu ciclo vital na Comunidade-Universo-Natureza e na Comunidade-Bantu, voltam para a Comunidade-Divindade-Ancestral. Essa volta marca o princípio da Imortalidade na Ontologia africana que nada menos é que o processo da Ancestralização-Divinização de cada Ser-Vivente, Humanos e Não Humanos.

Esses dois movimentos de se voltar por dentro e se abrir para fora para criar nos levam a compreender a dimensão materialista-e-imaterial e dialética da Ontologia-Ética africana. Acontece que o termo Comunidade-Divindade-Ancestral precisa ser compreendido em seus três momentos processuais que nos permitem recuperar igualmente as noções de Pluriversalidade, Participação-Solidária, Interdependência, da Imortalidade-Ancestralidade-Divinização da Ontologia africana. O ciclo vital africano é marcado por três momentos cuja soma marca a Imortalidade. Esquematicamente seriam: Nascer + Viver + Morrer = (Re)Viver. Parafraseando o filósofo, historiador e teólogo camaronês Engelbert Mveng (L´art d´Afrique noire: liturgie cosmique et langage religieux. Yaoundé: Clé, 1974), digo que o pensamento teológico-filosófico africano expressa a vitória da Vida sobre a Morte.

 

O princípio da Justiça-Verdade

Quando falo de Comunidade-Divindade-Ancestral estou me referindo à essa Realidade-Energia da qual as duas outras Comunidades, a Comunidade-Universo-Natureza e Comunidade-Bantu, emanam. São partes Dela e com Ela formam a Comunidade-Ntu, Ubu-Ntu, Ser-Sendo, o Nós-Cósmico. Além disso,tTodos os Seres Viventes que vivem dessas duas Comunidades, depois de cumprir o seu ciclo vital acabam voltando de forma processual para a Comunidade-Divindade-Ancestral. Para se tornar Ancestral é preciso praticar a ética do cuidado para com os Seres Viventes das três Comunidade-Ntu. É preciso praticar a Maat, conforme Obenga (1990), essa é a ordem do dever-ser, da ética cujo princípio é Justiça-Verdade.

Apoiando-me nos autores africanos presentes nesse texto, afirmo que a prática da Maat, que traduzo por Ética Cósmica-do-Ntu-Axé-Kalunga, traz a Harmonia, o Equilíbrio. Ela se manifesta, no meu entendimento, levando em conta os três movimentos de criação: voltar-se a si mesmo, para a Comunidade-Pessoal, seu Corpo-Orí-Mutema, o cuidado-de-si. Voltar-se para a Comunidade-Externa, isto é, Outros Seres Viventes com os quais estamos ligados pela Energia-Primordial que se manifesta de forma pluriversal, isto é, tendo pontos comuns e diferenças. Quando essas duas voltas/giras são bem-feitas, Todo Ser Vivente (Ntu-em-potência) estará em condições de realizar o último movimento do ciclo vital, a volta para a Casa, a Grande-Comunidade-Cósmica, que denomino de Comunidade-Divindade-Ancestral. Assim sendo, será cumprido o processo/julgamento da Divinização-Ancestralidade-Imortalidade.

Estamos até aqui em condições de diferenciar os Seres Viventes que formam a Comunidade-Divindade-Ancestral. Os textos em nossa disposição nos informam, seguindo a lógica da pluriversalidade, que dentro da hierarquia-flexíveis e não absolutista africana - pois há coisas que são realmente relativas conforme os textos e contextos -, existe uma Força-Ancestral Primordial que todos os povos africanos nomearam: Noun, Nzambi-Kalunga, Olodumare. É a Divindade Ancestral-Primordial.

Por isso, falo da Comunidade-Divindade. É uma Realidade Incriada, Auto-Criada, Andrógena, que carrega por si as energias positivas e negativas, masculinas e femininas. Ocidentalmente falando seria um-a Deus-Deusa. Trata-se de uma Divindade Uma-e-Múltipla (pluriversalidade) que se auto-criou e auto-cria multiplicando-se em várias formas e dimensões (Ntumba, 2014). O seu mundo é conhecido como Orun, que é denomino de Comunidade-Orun ou Boka ya Bakoko ou Bakulu (em linga e kikongo, RDCongo) ou ainda Okun-Orun (em yoruba) (Abimbola, Wande. A concepção iorubá da personalidade humana. Centre Nationale de la Recharche Scientifique, Edition n. 544, Paris, 1981), que significam Aldeias de Ancestrais. Manifesta-se através e cohabita com outras Divindades, Orixás, Ancestrais Primordiais. A Comunidade-Divindade-Ancestral manifesta-se também na Comunidade-Universo-Natureza e na Comunidade-Bantu.

Essas duas Comunidades formam a Comunidade-Aiyé. Os Seres viventes que formam essas duas Comunidades depois de cumprir o seu ciclo vital voltam para a Comunidade-Orun. Retornam às suas Divindades-Orixás-Bakulu-Ancestrais que Eles e Elas são manifestações na Comunidade-Aiyé.

Abimbola nos instrui que: “O Cosmo iorubá é baseado numa ordem hierárquica. No topo está Olódumàrè, que é assistido pelos Òrìsà, e em seguida estão os ancestrais. Crê-se que todos eles estão no òrun” (1981, p. 4). Para ele, os Orixás são Divindades que representam Olodumaré e os e as Ancestrais no Aiyé. Além disso, todo ser humano com boa conduta moral pode se tornar um ou uma Ancestral e Orixá.

A volta/gira para a Comunidade-Orun é o processo da Restauração da Maat, ou seja, o fechamento do Ciclo da Vida-Ntu. É o tempo-espaço de se tornar Mukulu (singular), Ancestral do bem, Bakulu (plural) Ancestrais do bem: “[...] Uma pessoa que cresce está no processo de fazer história e entra na categoria dos ancestrais - aquelas pessoas bem inclinadas que cresceram antes dela. Ao contrário, uma pessoa que não cresce, aquela que se desvia e não é bem inclinada, não está no processo de fazer história; ela entra na categoria dos [n’kuyu] ancestrais ruins - enquanto vivos, os desviadores, os ancestrais regressivos e “atrofiados” (SANTOS, Tiganá Santana Neves. A cosmologia dos bantu-bakongo por Bunseki Fu-Kiaiu, tradução negra, reflexões e diálogos a partir do Brasil. Tese de doutorado. Departamento de Letras modernas; área de concentração: tradução. São Paulo: USP/FFLCH, 2019, p. 28).
Para pertencer à Comunidade-Bakulu é preciso ter tido a capacidade de se comportar no sentido de “telama lwîmba- ngânga”, uma liderança pessoal e comunitária que levou a sério a sua zona de Ntu, Vida-Plena, Ankh, isto é, ter expandido como esperava a Comunidade-Ntu a zona de poder, criatividade, invenções, e mestria, em todos os aspectos da vida com lucidez.

Na cosmoperceção Bakongo: “É o plano da horizontalidade [lufulu lwabwa/lufulu lwa kilukôngolo] que amarra todas as relações entre os membros da comunidade: sua verdadeira religião [lukangudulu]. Quando tais relações são enfraquecidas ou rompidas, a liderança da comunidade convoca uma reunião de reconciliação [mu kangulula] para ligar de novo, para re-ligare; as relações rompidas são restabelecidas e a comunidade está equilibrada [kinenga]. Uma vez que as relações rompidas são restabelecidas e a “corda” bio-espiritual é fortalecida, toda a comunidade irá erguer-se no- vamente, lwîmba-ngânga, no plano vertical [kintombayulu], entre a terra e os céus, e entre o mundo superior e inferior, para comunicar-se tanto com kalunga - a completamente completa energia viva mais elevada [Nzâmbi], quanto com os ancestrais [Bakulu]” (SANTOS, 2019, p. 33).

A morte, para os povos africanos, é somente uma passagem de Seres Viventes-Mortos da Comunidade-Aiyé para a Comunidade-Orun onde passam, quando justificados, a gozar da Imortalidade, isto é, Divinização-Ancestral. Na minha interpretação é a volta para à Comunidade-Noun-Orixás-Nzambi-Kalunga-Bakulu. Alguns ensinamentos escatológicos africanos nos informam que a travessia de Kalunga (Águas-Oceanos) nos leva de volta para o Sol (Râ), Noun (Água Abissal), para Terra (Ntonto, Aiyé).

A morte rendeu a alma
A luz do clareado indica o caminho do céu
O espírito saiu e vigia o corpo com vigilância
O ser humano mudou de vida
O espírito em entra em quatro direções do universo buscando seu lugar
O espírito chega em frente à mesa do julgamento
O espírito chegou no dia dos mortos
“Eu sou inocente”, firma o morto.
O espírito desloca-se doravante segundo a sua vontade
O Sol todo poderoso chega e nos permite de renascer na luz do dia. (Obenga, 1990, p. 195)

Para Obenga (1990), o texto da iniciação Bwiti (Camarões), que se encontra acima, é perfeitamente do Egito faraônico, no seu fundo e forma. Revela como o Ba da filosofia faraônica que é precisamente o “espírito”, a “alma”, o “dobro” que “sai” do corpo do falecido. Mostra o processo de transformação de vida. Depois do julgamento final, feito pelo Osíris com 42 assessores divinos, o ser humano justificado, torna-se Akh, Akhou, “Morto-poderoso”, “Bem-aventurado”, uma Divindade-Ancestral. O que quero transmitir aqui é que os povos africanos foram os primeiros seres humanos a ter pensado o princípio da Divinização-Imortalidade e Ancestralidade da forma como acabei de apresentar. Lembre-se que você é uma Divindade-Ancestral.

 

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