Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo
política
Opinião

Aonde Bolsonaro quer chegar?

Mais que a cloroquina ou as críticas ao lockdown, o porquê de o presidente criticar máscaras é para mim um mistério
Bolsonaro briga com as máscaras
Bolsonaro briga com as máscaras

Quando Jair Bolsonaro combate o isolamento social como meio de prevenir a Covid-19, ele confronta todos os estudiosos sérios do planeta sobre algo que o presidente não entende. Mas, com toda discordância do planeta, sou capaz de saber o objetivo que ele quer atingir. Compreendo que ele quer evitar que a economia sofra perdas significativas. Acho sórdida a escala de prioridades, mas entendo o que ele pretende.

Quando Bolsonaro defende medicamentos sem comprovação científica e coloca dinheiro nisso, contra farta evidência científica de ineficácia, o presidente volta a tratar de algo sobre o qual não sabe nada, mas entendo que o recado é de que a pandemia não é tão séria, não precisa de tantas restrições. Novamente, a economia.

Agora, quando pede para as pessoas não usarem máscara, aonde Bolsonaro quer chegar? Francamente, não sei. O que custa usar máscara? O que se ganha ao não usar?

Não entendo isso e, para quem diz querer manter a economia aberta, entendo menos ainda o descaso de tanto tempo para comprar vacina.

A política e quem não gosta de futebol

O Supremo Tribunal Federal (STF) deu aval e a Copa América no Brasil vai começar. Escrevi ontem sobre futebol e política, das pessoas que não gostam quando se fala das relações que existem entre uma coisa e outra. Pode-se não gostar que fale, mas as relações existem e estão lá. Hoje, quero comentar outra faceta dessa questão: a perspectiva política muitas vezes adotadas sobre o assunto por quem não gosta de futebol.

Ninguém é obrigado, claro, a gostar de coisa nenhuma, muito menos futebol. Tem o direito de achar ruim, reclamar, de entender que se dá muita atenção, incomodar-se pela energia dedicada. Porém, há quem espere que, por causa da política, as outras pessoas deixem de gostar de futebol. Também é um direito.

Mas, deixa eu dizer duas coisas: 1) o esforço é em vão. Não vai acontecer. Segue sendo um direito a pessoa desejar. Tem tanta coisa que a gente queria e não acontece, não é? 2) Creio haver aí, de alguns setores, sobretudo de parte dos intelectuais, dificuldade de entender e se aproximar de uma parcela muito grande do povo, de seus sentimentos, paixões e entretenimento. Não falo obviamente de todos. Todacia, alguns podem querer, mas têm dificuldade de entender e dialogar com o povo. Isso é perceptível inclusive em políticos e partidos que defendem bandeiras populares e em favor de uma parcela da população que não vota neles.

Não ache que isso é ofensa. Inclusive, esses intelectuais estão muito bem acompanhados. O pioneiro talvez tenha sido Lima Barreto, que escrevia há mais de um século: “O futebol não pega.” Ok, naquela época ainda se tratava do aristocrático esporte trazido da Inglaterra e tremendamente racista.

Tem quem questione, diante das críticas à Copa América, se as pessoas ainda assim vão ver os jogos. Daí se vê a falta de afinidade com o futebol. Pois, embora o torneio continental de seleções tenha lá sua audiência, está longe de ser algo que o torcedor faça questão de ver. Muita gente assiste porque é o que está passando na TV. Mas, não comove ninguém.

Copa do Mundo é diferente. Aulas são suspensas, empresas fecham mais cedo. Ali é uma comoção. É isso que, inclusive, não entendeu muita gente que acompanhou os enormes protestos de 2013, na Copa das Confederações, e esperava que fossem ainda maiores na Copa de 2014 — o que não aconteceu.

O futebol é um traço cultural importante no Brasil e quem pretende entender e dialogar com quaisquer das parcelas mais numerosas da população não deveria ignorá-lo. Essa discussão é antiga e a briga é perdida. Desde a Copa de 1970, quando até quem era preso político conta que torcia contra a seleção no Brasil da ditadura, até o gol de Rivelino na estreia.

Não que seja impossível, mas acho improvável interpretar adequadamente o Brasil sem compreender a paixão pelo futebol. Que efetivamente reproduz e até amplifica diversas mazelas sociais. Mas carrega também raro potencial transformador.

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