Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Já foi repórter de Política, editor-adjunto da área, editor-executivo de Cotidiano, editor-executivo do O POVO Online e coordenador de conteúdo digital. Atualmente é editor-chefe de Política e colunista
Foto: Reprodução / X / Roberto Cláudio
IZOLDA ao cumprimentar Roberto Cláudio após ele ser escolhido candidato do PDT a governador, em julho de 2022
O podcast Jogo Político, aqui do O POVO, chegou nesta segunda-feira aos 500 episódios. Começou na metade de 2018, com uma edição semanal. Atualmente são duas, às segundas e sextas-feiras. Na eleição de 2024, teve episódio de segunda a sexta. No episódio especial, ao lado dos colegas GGs — Guálter George e Guilherme Gonsalves — escolhemos personagens destes 500 programas no Ceará, no Brasil e também o fato que mais movimentou o podcast.
No Estado, ganhou como personagem o ministro da Educação, Camilo Santana (PT). Quando o Jogo Político começou, ele já era governador. Mas, desde então, foi reeleito com votação recorde e se elegeu senador também com recorde. Hoje é ministro e figura de relevo no Governo Federal, à frente de articulações do PT no Nordeste. Principalmente, ele se tornou protagonista na política cearense e no próprio grupo. Em 2018, ele era o apadrinhado de Cid Gomes (PSB). Atualmente, ele é mais forte politicamente que o senador que o projetou.
Assista ao Jogo Político:
No Brasil, o escolhido foi Jair Bolsonaro (PL). De 2018 para cá, ele provocou alguns terremotos na política. A forma como ela é feita se transformou — a qualidade da mudança, bem disse Guálter, é outra questão. No período de existência do Jogo Político, Bolsonaro foi eleito, barbarizou no governo, tentou um golpe — assim entendeu o Supremo Tribunal Federal (STF) — e agora está preso. Se fosse contar toda a trajetória, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é personagem de maior relevo — acho que qualquer pessoa sem envolvimento com um lado ou outro haverá de concordar, mas, no período, ninguém movimentou tanto quanto Bolsonaro. A quantidade de horas de podcast consumidas para tratar dele não é brincadeira.
Sobre o fato, houve bom debate, mas o escolhido foi o rompimento no PDT em 2022. Bem, o primeiro ponto: nenhum assunto consumiu tanto tempo do podcast de lá para cá. O racha determinou o resultado daquela eleição, marcou 2024 e está sendo também fundamental em 2026.
Ele é tão determinante para o Ceará hoje quanto, em 1984, foi o rompimento entre Gonzaga Mota e os coronéis, que abriu espaço para o então governador lançar Tasso Jereissati. O desenho que a política estadual tem atualmente foi definido a partir de 2022. A configuração está em transformação e terá em 2026 o momento de consolidação ou reviravolta.
Para começar, o problema de 2022 foi político. Falas dramáticas sobre punhaladas, traições remetem à leitura de que houve algo muito grave. Do meu ponto de vista, tudo foi normal. O PDT escolheuRoberto Cláudio e não Izolda Cela como candidata. Ela estava no cargo, mas é uma decisão que já foi tomada outras vezes — o PT o fez em 2002 no Rio Grande do Sul. Tratava-se da primeira mulher governadora. Pode-se discutir a decisão, mas não me parece que tenha havido nada de criminoso ou inaceitável.
Ao mesmo tempo, o PT defendia Izolda e decidiu não apoiar Roberto. Também me parece normal. Ciro Gomes (PSDB) mesmo, diante da ameaça petista de “seguir outro caminho”, desdenhou: “Seja muito feliz”. São dois partidos que divergiram e tomaram suas decisões. Não sei, francamente, por que virou uma celeuma tão grande.
Quem errou, o PDT por escolher Roberto ou o PT por não aceitá-lo? Acho que foram escolhas normais e até previsíveis. Ainda em 2021, ouvi do deputado Elmano de Freitas que o PT não aceitaria RC. Roberto se ressente por achar que não houve lealdade com ele. É possível. As versões sobre as tratativas internas são repletas de variáveis. De tudo que já ouvi, concluo que as conversas não foram absolutamente claras e recados não foram captados.
Parece-me claro que houve erro de condução. Cid Gomes, quando governador, usava o tempo como ferramenta. “Eu aprendi que o correto, para quem está no governo, é deixar tudo para a última hora. Precipitar o debate eleitoral só acirra os ânimos e o governo precisa de um ambiente mais tranquilo no Congresso, para aprovar os seus projetos”, definia.
Em 2022, para não confrontar Ciro, Cid se afastou da campanha. Camilo tentou assumir o processo, mas foi cauteloso sobre o PDT. A própria Izolda demorou a dizer que queria ser candidata. Ciro estava à frente no próprio partido à época, ao lado de Roberto Cláudio, e não conseguiu fazer uma composição.
RC errou? Bem, não me parece que ele tenha feito nada de particularmente errado, embora seja para mim evidente que ele estaria muito mais bem colocado se tivesse aceitado concorrer a vice-governador ou mesmo deputado federal. Seria figura proeminente num provável governo Izolda, no qual ela não poderia buscar reeleição.
Mas também é fato que Roberto não seria candidato se não fosse pelo apoio de Ciro. E a coisa toda teria sido diferente se Cid entrasse nas negociações. Ou se Camilo tivesse conseguido manter o controle da própria sucessão. Talvez se as coisas não tivessem sido tão adiadas, como Cid costumava fazer.
A realidade é que uma crise do tamanho da instaurada em 2022 não tem um culpado isolado nem de um lado só. O rompimento teve participação de todos os líderes daquele processo. Cada um deles poderia ter feito algo diferente para mudar o resultado.
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