Professora em MBAs de Marketing do IBMEC Business School e da Unifor. Consultora na Gal Kury Marketing & Branding.
Professora em MBAs de Marketing do IBMEC Business School e da Unifor. Consultora na Gal Kury Marketing & Branding.
Domingo, 6 horas da manhã. Acordo sobressaltada com uma música alta e alguém falando ao microfone. Era a chegada de uma corrida na Beira Mar que ainda ocuparia o espaço por cerca de duas horas com decibéis muito acima do tolerável. Em um dia de descanso, naquele horário e local, a pergunta é inevitável: precisa realmente dessa altura toda?
Essa invasão sonora não é um fato isolado, mas o sintoma de uma época que parece ter pavor do vazio. O comportamento multitarefa, fones de ouvido durante uma aula, áudios de WhatsApp acelerados enquanto se assiste a uma série, conversas paralelas em volumes estridentes, traz uma questão incômoda à tona: simplesmente não conseguimos mais escutar o silêncio. Criamos uma espécie de "anestesia sonora" para não lidar com a própria companhia.
O barulho tornou-se uma imposição de uma existência sobre as outras, aniquilando a possibilidade do simples estar. Raramente, em um restaurante ou bar, temos o prazer de conversar em tom baixo, ouvindo a voz de nossas companhias sem a interferência de uma trilha sonora invasiva ou de vizinhos de mesa que parecem competir por quem grita mais alto. Nas praias, o cenário se repete com os "paredões" ou caixas portáteis que transformam o som do mar em mero figurante de uma guerra de frequências.
Parece que confundimos animação com decibéis e presença com volume. O som alto virou uma demarcação de território: "eu faço barulho, logo existo". Mas o que essa poluição constante esconde é a nossa incapacidade de lidar com o que o silêncio revela. O silêncio nos obriga ao encontro com nossos pensamentos, e parece que, como sociedade, estamos em fuga desesperada desse diálogo interno.
Quando o ambiente nos impede de ouvir o outro, a conexão humana se fragiliza e se torna superficial. Talvez o verdadeiro luxo da atualidade não seja o acesso ilimitado à informação, mas a audácia de silenciar o mundo exterior para conseguir, finalmente, escutar a própria essência. Se não conseguimos mais suportar a ausência de som, como pretendemos ouvir o que realmente importa?
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