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Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).

O detalhe da Covid na disputa das ruas

O clima das manifestações realizadas ontem, que tiveram como novidade o fator corrupção, serve de elemento concreto para levar a sério o debate sobre interrupção de mandato presidencial
Tipo Análise
0407gualter (Foto: 0407gualter)
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Preparemo-nos para viver dias ainda mais difíceis no Brasil à medida em que o tempo avance. A quantidade de gente que compareceu ontem aos protestos contra o presidente Jair Bolsonaro em várias cidades brasileiras para, num tom eloquente, pedir o seu impeachment, indica que há "rua", e barulhenta, hoje respaldando o movimento. Este é um elemento concreto que a política costuma exigir para levar a sério articulações infelizmente frequentes no País para que se coloque na agenda do Congresso uma proposta de interrupção de mandato presidencial, tratando-se, no caso, de um governo que se atrapalhou todo no combate à pandemia.

O clima dos eventos realizados ontem já apresentava-se diferente pelo aspecto em que o fator corrupção surgiu como novidade da pauta em relação aos protestos anteriores. Dê-se à CPI do Senado o crédito devido já que foi ali no seu ambiente, sempre tenso e às vezes caótico, que as investigações sobre omissões, decisões equivocadas, em geral pouco científicas e ideologizadas, ganharam um tom novo nas últimas semanas e dias, passando-se a apurar denúncias e indícios muito fortes de que um balcão de negócios foi instalado no Ministério da Saúde para se tirar proveito pessoal do agitado mercado de vacinas. Mais uma evidência de que o governo, a partir do comportamento de quem o comanda, brincou com a vida das pessoas enquanto o vírus e a Covid-19 se espalhava entre nós.

É evidente que há uma contradição na opção dos anti-Bolsonaro de organizarem tais atos, juntando milhares em várias cidades, para serem ouvidos no seu grito de "basta!". Afinal, uma das críticas fortes contra Bolsonaro sempre residiu, exatamente, no fato de ele promover aglomerações nas manifestações de apoio que organizou em torno de si, dando as costas às recomendações de especialistas, até de dentro de sua equipe de governo. No entanto, há uma batalha política acontecendo e as circunstâncias acabaram demonstrando que a disputa entrou numa fase em que o fator "rua" pode ser decisivo ao processo de convencimento, via pressão, dos que decidem sobre o encaminhamento das coisas.

Também há necessidade de ressaltar, por apego aos fatos, que uma diferença fundamental entre as duas situações é que nos atos de protesto, ao contrário do que acontece quando grupos se juntam em defesa do governo, faz-se um esforço mínimo de orientar os participantes acerca das medidas básicas de proteção recomendadas. Tipo, uso de máscara, guardar uma distância mínima de uma pessoa para outra, cuidados absolutamente ignorados nos eventos governistas, especialmente naqueles em que o próprio Bolsonaro está presente e cuida de ser o primeiro mau exemplo. Como esquecer daquela vexaminosa cena recente no Rio de Grande do Norte na qual ele arrancou a máscara de uma criança de colo? É quando saímos do campo da mera inconsequência e começamos a adentrar o terreno sinuoso da prática possível de um crime.

O dia D da OAB

Guardem o dia 20 próximo em suas agendas porque tem tudo para ser mais uma data de grande agitação na política nacional. É quando os 81 conselheiros federais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), convocados extraordinariamente pelo presidente Felipe Santa Cruz, se reúnem a partir das 9 horas para se posicionarem em relação ao pedido de impeachment de Jair Bolsonaro. A história mostra que ações políticas do tipo dificilmente avançam sem que a quase secular entidade abrace a causa, o que dá um peso extraordinário ao que vier a ser decidido na data.

A bancada cearense

André Costa, advogado
André Costa, advogado (Foto: Alana Maria)

O Ceará entra nisso com os votos de três conselheiros: André Costa, Marcelo Mota e, a preço de hoje, Alcimor Aguiar Rocha Neto, suplente que ocupa a cadeira em função de licença do titular Hélio Leitão, afastado para comandar a Procuradoria Geral da Assembleia Legislativa. É tudo transmitido em tempo real pelas redes sociais da Ordem, certamente haverá interesse de canais de TV e de Youtube em acompanhar ao vivo, caminhando para virar um daqueles momentos de atenção nacional concentrada porque espera-se um debate acalorado. Lembrando-se ainda que a votação é aberta, sem espaço para segredos.

O encontro com Lula

"O entusiasmo com as perspectivas de 2022 é notório". A frase resume o relato de uma fonte que esteve em encontro reservado com o ex-presidente Lula na semana passada, no apartamento dele em São Bernardo do Campo. Não se trata de um político, não faz parte do meio da política, sequer correligionário petista é, que fala de um Lula cheio de planos na conversa que tiveram. Nas despedidas, marcou um novo encontro para breve "lá no Ceará", confirmando que virá ao Estado em duas a três semanas para cumprir uma agenda que está sendo acertada.

O acordo atravessado

Deputado federal Domingos Neto, PSD
Deputado federal Domingos Neto, PSD (Foto: BARBARA MOIRA)

Subiu no telhado um acordo de interesse do deputado federal cearense Domingos Neto que parecia bem costurado e que tinha como principal fiador o poderoso presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Nele, previa-se uma mudança em instrumento legal que impedia um parlamentar de relatar a proposta orçamentária mais de uma vez na mesma legislatura. A ideia era que isso permitisse ao cearense do PSD voltar ao cobiçado posto na discussão sobre a proposta de 2022, que ainda chegará ao Congresso. Lembrando-se que falamos de um ano eleitoral, sempre especial para quem é político.

Por que calou? Calou por quê?

Compreende-se estratégico o silêncio do petismo cearense com os ataques frequentes e cada dia mais agressivos dos irmãos Ferreira Gomes, em especial Ciro e Ivo, ao partido e ao ex-presidente Lula, provável candidato em 2022. Um pouco por respeito aos movimentos do governador Camilo Santana, que segue tentando um acerto entre as partes para se acomodar melhor em palanque no próximo ano, mas também pelo entendimento de que há coisa mais importante para fazer no momento.

O arroubo infantil e a hora certa

Presidente do PT de Fortaleza, o vereador Guilherme Sampaio reforça a linha de calma pelo lado do partido diante do que chama de "arroubo infantil de quem não tem voto e tenta aparecer de alguma forma". É uma postura tranquila, alega, porque as pesquisas apontam uma situação muito favorável a Lula no Ceará e, conforme analisa, há opções petistas de sobra para o caso de adotar o caminho de uma candidatura própria à sucessão de Camilo Santana. De qualquer forma, até agora tem sido um teste de paciência.

 

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