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Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).

Onde estavam os farejadores de poder?

As cadeiras vazias na passagem de Jair Bolsonaro ao Ceará, na sexta-feira passada, diz um pouco sobre o atual momento do presidente da República
1508gualter (Foto: 1508gualter)
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A rápida passagem de Jair Bolsonaro pelo Ceará, sexta-feira passada, olhada por uma perspectiva que dê destaque às cadeiras que políticos de relevância optaram por manter desocupadas naquele evento festivo, certamente diz algo sobre o momento político que ele enfrenta. O normal é que, em tais situações, se brigue pelo direito de estar ao lado do presidente da República, inclusive como forma de produzir imagens que depois podem ser utilizadas com objetivos eleitorais. Normal que não prevaleceu neste caso.

É ver a lista das figuras que acompanhavam Bolsonaro no palanque de sua agenda positiva cearense daquele dia: deputados federais Pedro Bezerra (bastante hostilizado pela claque presente ligada ao prefeito Glêdson Bezerra), Dr Jaziel e Capitão Wagner; deputados estaduais André Fernandes, Delegado Cavalcante e Dra Silvana; vereador Carmelo Neto, este último de Fortaleza e já incluído na relação para lhe dar um pouco mais de volume. Pronto, apenas estes da cena política local, além do próprio Glêdson. Definitivamente, não é, no conjunto, lista com um peso que sinalize a força popular de um presidente em visita ao Estado.

A gente sabe como a política se move e por mais que um ou outro apresente justificativa plausível para se ausentar do compromisso em Juazeiro, afinal nem sempre é possível compatibilizar a agenda própria do dia com a de um líder nacional de passagem por aqui, a verdade é que existe um recado embutido. Para dizer "não" a um convite marcado pelo brasão presidencial é preciso que se apresente um motivo bastante fundamentado e, arrisco dizer, se a situação atual fosse de alta popularidade do mandatário se priorizaria o esforço de estar ao seu lado.

Um outro aspecto que pesou para uma parte do flagrante esvaziamento político daquele palanque é o fato de uma parte da bancada federal estar com Bolsonaro lá e com Camilo cá. Como conhecem o presidente, sabem que ele não respeitaria liturgia institucional ou interesses locais de aliados e aproveitaria o momento para abrir as baterias, como o fez, contra o petista, criando-se um constrangimento inevitável. A opção que restou foi manter distância do Cariri, deixando o espaço livre para políticos, excetuando-se o constrangido Pedro Bezerra, fechados 100% com o presidente e seu estilo e sem qualquer compromisso com o governador do Ceará. Pelo contrário, até.

Talvez valha citar à parte os casos, entre os que ali compareceram, embora não necessariamente estivessem no palanque, de Mayra Pinheiro, que no governo anexou ao seu antipetismo histórico as pautas bolsonaristas e deve empunhá-las como candidata em 2022 à Câmara Federal, e do próprio Capitão Wagner, que finalmente se assume aliado do presidente Bolsonaro depois de passar toda a campanha à prefeitura de Fortaleza em 2020 fugindo de vínculos a ele e definindo-se como "independente". Este discurso, depois da sexta-feira, ele, caso queira, já não poderá mais usar na provável corrida ao governo do Estado no próximo ano, pré-candidato que anunciou-se.

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 Quem é mais bolsonarista

Há quem note certa disputa por espaço maior no coração do presidente Bolsonaro entre o deputado estadual André Fernandes e o vereador Carmelo Neto, ambos do Republicanos. Os dois vieram sexta-feira no avião presidencial, de Brasília para Juazeiro do Norte, mas, no dia anterior, cumpriram agendas separadas e, à noite, foram ao Palácio do Alvorada para acompanhar in loco a transmissão da tradicional live semanal. Carmelo foi mais rápido e acabou sendo o único a gravar vídeo, enquanto André limitou-se ao registro em foto de seu encontro com o presidente.

Um silêncio assustador

Morreram entre quarta e quinta-feira passadas, em menos de 24 horas de um acontecimento para o outro, dois dos maiores atores brasileiros contemporâneos - Paulo José e Tarcísio Meira -, sem que se conheça, até hoje, uma manifestação oficial do governo de pesar com as perdas. Não há como alguém defender comportamento assim como normal, porque não é de política que se estará falando a essa altura. Sequer o Secretário Nacional de Cultura, Mário Frias, manifestou-se. É assustador.

E o prefeito, ministro?

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, esteve no Ceará entre quarta e quinta-feira. Desceu em Jericoacoara, onde encontrou-se rapidamente com o prefeito Lindbergh Martins e o deputado federal Domingos Neto, ambos do PSD. De imediato seguiu para Sobral onde cumpriu longa agenda ao lado do também deputado federal Moses Rodrigues, do MDB, com visitas à Santa Casa e à universidade da família do parlamentar. A cidade tem prefeito, chama-se Ivo Gomes e é do PDT, mas esqueceram de avisar ao ministro.

O contra-ataque

 

 Soldado Noélio (Pros)
Soldado Noélio (Pros) (Foto: Aurelio Alves)

Soldado Noélio comanda, na Assembleia, a tentativa de reação do grupo ligado ao Capitão Wagner à decisão dos governistas de aprovarem uma CPI que investigará se entidades ligadas a policiais militares financiaram, ilegalmente, atividades dos motins do começo de 2020. Colhe assinaturas entre parlamentares para uma outra Comissão Parlamentar, que apuraria a ligação de políticos cearenses com facções criminosas. O parlamentar do Pros diz estar sendo ameaçado, mas adverte: não haverá recuo.

O Ceará e o Nordeste

É sintomático que Lula reserve para o Ceará o maior tempo de sua agenda pelo Nordeste, que começa a cumprir hoje com o desembarque em Pernambuco. Dos 11 dias previstos, estendendo-se até 26 próximo, quatro serão em terras cearenses, muito embora se deva considerar que uma parte do tempo seja, alegadamente, para descanso no litoral de Icapuí. Não por coincidência, onde o governador Camilo Santana mantém uma casa de veraneio e, está previsto, os dois pretendem se encontrar para longas conversas. Assunto não faltará.

Volta à programação normal

A Assembleia Legislativa entra em novo ritmo com a realização de duas sessões híbridas semanais, dobrando o calendário de até agora. Para o presidente Evandro Leitão como resultado de uma volta cuidadosa à normalidade, no geral das atividades da sociedade, mas, na realidade política, efeito de uma certa pressão dos deputados para terem de volta o palco que lhes é necessário para chegar ao eleitor. Lembrando-se que o cheiro de eleição começa a dominar o ambiente frequentado pelos parlamentares.

Frase

"Houve negociação; negociação de emenda e (de) acordos para que me ajudassem porque sabem que não cometi quebra de decoro parlamentar"

Flordelis, em aúdios vazados depois de cassada, quarta-feira, nos quais afirma que Arthur Lira havia garantido salvar seu mandato em troca de apoio à presidência da Câmara e, de passagem, ainda confirmando a negociação de emendas para o voto no parlamentar alagoano

 

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