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Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).

A pauta, sem dúvida, é antidemocrática

Chama a atenção a participação de dois políticos cearenses nos protestos convocados para este 7 de setembro - Eduardo Girão e Capitão Wagner
Tipo Opinião
 (Foto: 0509gualter)
Foto: 0509gualter

Na lista de políticos cearenses que confirmaram participação nos atos convocados para o próximo dia 7, envolvidos pela data que marca historicamente o grito de independência do Brasil em relação a Portugal, apenas dois me chamam atenção de verdade, considerados os pesos de influência real e simbólica que apresentam: o senador Eduardo Girão (Podemos) e o deputado federal Capitão Wagner (Pros). Há problema nisso? É claro que não, se considerado o aspecto em que a pauta do evento, que acontecerá em várias cidades brasileiras, inclusive do Ceará, representaria, resumidamente falando, a disposição legítima de uma parte da população de mostrar satisfação com o presidente Jair Bolsonaro e seu governo.

É uma forma meio ingênua de projetar o que se espera de verdade que aconteça na próxima terça-feira, o tal dia 7. Na expectativa real de muitos dos que participarão, o previsto é que as concentrações busquem oferecer ao presidente um número expressivo de gente nas ruas para que ele amplie a pressão ilegítima e equivocada, na forma e no conteúdo, que tem mantido sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), mais especificamente tendo como alvo os ministros Alexandre de Moraes e Luis Roberto Barroso. Bolsonaro mesmo tem falado de maneira mais clara nos últimos dias que o volume de presença nos atos lhe servirá de sinalização para que faça o que considera que precisa ser feito. Não se sabe muito bem o quê e nem como, mas manter a confusão na cabeça das pessoas parece ser uma forma estratégica de garantir que a turma siga mobilizada.

Bom, o senador e o deputado se dizem abraçados com a parte civilizada, usemos este termo, das manifestações programadas. Os dois se declaram independentes dentro do Congresso e não iriam assumir que vão às ruas atendendo chamamento do presidente Bolsonaro e muito menos que tenham compromisso com o interesse estratégico dele se usar o que acontecer na data como instrumento, e até justificativa, para medidas mais duras que pode vir a adotar. Girão, o registro é válido, pode usar em seu favor o fato de ter na sua pauta desde antes a defesa de que o Congresso precisa ser mais firme com os ministros do STF, queixando-se de nunca nenhum deles ter sido, até hoje, afastado do cargo como resultado de um processo de impeachment. Sem os gritos e as ameaças que os atos do dia 7 agregam, até parece uma ideia defensável e um protesto justo, politicamente, mas, o fato é que existem os gritos e as ameaças sem que o parlamentar manifeste incômodo qualquer com eles e elas.

É um ponto relevante que muitas das convocações falem sim de fechamento de poderes, sugiram a violência como saída, estimulem agressões a autoridades e invasões a espaços públicos. Uma ação firme do Judiciário, inclusive com desdobramentos ainda na sexta-feira no Ceará, com novas prisões, além das que já tinham sido executadas em momento anterior, até conseguiram inibir e imobilizar alguns dos agentes da provocação, ajudando a baixar um pouco a tensão. Girão e Wagner não podem fazer de conta que esse contexto preocupante não existe, isolando por completo o evento do seu componente claramente antidemocrático. Goste-se ou não do Judiciário que há no País e dos juízes que, no restrito limite das tais quatro linhas da Constituição às quais se refere repetidamente Bolsonaro, são escolhidos para integrá-lo.

Quem for à manifestação, utilizando-se de um direito que lhe é dado pelo estado atual de liberdade política plena, precisa, de início, ter consciência de que se integra a um movimento cujo objetivo principal percebido, até agora, é a geração de uma crise institucional, submetendo a uma dúvida desnecessária o futuro desta democracia que hoje garante a todos o direito de irem às ruas defender o quer quer que se considere correto. O momento não é de inocências e cada um precisa ter a devida consciência dos seus atos, especialmente quando se detém mandato popular.

 

O "ódio amigo"

Vale prestar atenção nos sinais de tensão interna muito forte que apareceram, nos últimos dias, em áreas expressivas do bolsonarismo local. A "briga" de Carmelo Neto, um dos queridinhos do presidente, com a turma do Sindicato dos Médicos cearense é um fato importante considerando-se que na diretoria da entidade prevalece, de sobra, a simpatia com o político nacional adorado pelo vereador fortalezense do Republicanos. Até o momento, véspera do histórico 7 de setembro que se pretende construir, parece em desacordo.

O refresco e a pimenta

Para quem não entendeu: O sindicato acusa Carmelo de adotar um comportamento inapropriado e intimidatório, invadindo consultórios, filmando, constrangendo médicos e pacientes em Unidades de Pronto Atendimento (Upas) de Fortaleza, a pretexto de cumprir sua missão fiscalizadora. A atitude agressiva gerou forte reação e a situação tem tudo para descambar para problemas maiores nos desdobramentos, inclusive com o departamento jurídico do sindicato já acionado para adotar as providências devidas contra o vereador bolsonarista.

A volta que Lula quer

Um nome bastante presente às conversas do ex-presidente Lula com os petistas locais, nos quase cinco dias em que circulou por aqui recentemente, foi do ex-senador, ex-deputado e ex-ministro José Pimentel. O líder petista parece não entender, e sua preocupação faz sentido, as razões de seu ex-auxiliar, que assumiu funções espinhosas e estratégicas nos momentos mais turbulentos dos anos de PT no poder, esteja hoje fora do cenário. Mesmo que seja por opção dele, quer mais esforço para convencê-lo a voltar.

A ética do agitador

O notório Wellington Macedo está precisando se explicar também aos colegas jornalistas do Ceará. Corre no sindicato um processo contra ele, em tramitação no Conselho de Ética, por más práticas profissionais na apuração do que apresentava como denúncia envolvendo a prefeitura de Sobral e sua rede de escolas públicas. Claro que talvez seja este o menor dos problemas para quem acaba de ser preso pela Polícia Federal por ordem do ministro do STF, Alexandre de Moraes, identificado como um dos blogueiros que cometeu possíveis crimes ao chamar para os atos do dia 7.

Cadê as partes interessadas?

Por enquanto sem tom de queixa, o deputado estadual Acrísio Sena (PT) aponta distanciamento dos prefeitos cearenses atingidos pela situação do debate em torno do litígio territorial com o Piauí. Nos cálculos dele, pelo menos 13 municípios perderiam parte de território para o vizinho e, apesar disso, a Assembleia segue meio sozinha na briga pela manutenção do quadro como é hoje. Uma reunião será tentada para criar esse envolvimento e, inclusive, colocar prefeituras e Câmaras de Vereadores na própria batalha judicial, da qual hoje mantêm incompreensível distância.

O desenho dos mil dias

O POVO propõe um exercício interessante ao leitor, apresentando-lhe 10 charges, de um conjunto de 50 selecionadas, que melhor conseguirão resumir o que foram os 1.000 dias de Jair Bolsonaro na presidência, a serem completados no dia 26 próximo. Cinco áreas foram contempladas: Meio Ambiente, Economia, Política, Saúde e Educação/Cultura. Os interessados em participar da escolha, difícil, adianto, têm até o dia 7 próximo e podem fazê-lo pelo link: https://especiais.opovo.com.br/governo-bolsonaro-em-charges

"Não há espaços para intolerância, tensões vazias e luta pelo poder, em detrimento do bem comum" Trecho de manifesto de um grupo de empresários cearenses, em torno do projeto Resposta, que, embora sem fazer menção ao 7 de setembro, defende o diálogo, ataca o extremismo e pede união para que o País supere os grandes desafios que virão com o fim da pandemia

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