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O golpe não veio, mas o golpismo continua entre nós
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Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).

O golpe não veio, mas o golpismo continua entre nós

Mais triste ainda é perceber que entre os que relativizam o quadro que levou à data que tristemente lembremos hoje há gente que deveria assumir como obrigação estar na linha de frente de defesa da democracia
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Supremo Tribunal Federal promoverá, em Brasília, evento para relembrar os atos golpistas do dia 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Supremo Tribunal Federal promoverá, em Brasília, evento para relembrar os atos golpistas do dia 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes

O dia 8 de janeiro é importante como marco simbólico de um movimento que nos permeou durante longo tempo e que não pode ser visto de maneira reducionista, como uma ação pontual de um grupo que saiu sem rumo e sem planos em direção à praça dos Três Poderes, decidindo, ao chegar lá, promover um ataque desorganizado contra as sedes do Congresso, do governo e do STF. Foi muito mais do que isso.

Claro que as imagens que ficaram daquele dia assustador de 2023 já se bastariam pelo que expõem de agressividade de uma turba que, em parte, talvez nem tinha noção da gravidade do movimento de que participava. O que não torna inocente quem estivesse em tal condição, mas, claro, justificará penalizações menores diante do risco que assumiram correr pelo simples fato de estarem ali.

O que precisamos entender, como forma de manter o estado de alerta necessário quanto à ameaça que segue no ar, é que não estamos tratando de um dia qualquer no qual um grupo decidiu, espontaneamente, sair a quebrar o que encontrava pela frente na forma de símbolo institucional. Foram meses e anos de episódios recorrentes de ataques a autoridades e de menosprezo à democracia.

Por exemplo, os registros que se tornaram públicos de reuniões oficiais comandadas pelo então presidente da República, Jair Bolsonaro, de dentro do Palácio do Planalto, ajudaram a criar o ambiente que levaria àquele trágico domingo de 2023. Discutia-se ali de maneira aberta e documentada uma forma de evitar que se confirmasse a derrota que o grupo vislumbrava diante dele, o que somente poderia ocorrer interrompendo o processo eleitoral. O nome disso é golpe.

Além dos vários episódios cotidianos que muitos de nós considerávamos sem importância, mas que faziam parte de um contexto que ia avolumando razões para uma turma grande, boa parte formada por gente incauta, imaginar que havia saída fora da via democrática. Das tais quatro linhas da Constituição que Bolsonaro citava frequentemente, na verdade, como forma de demonstrar que não dava a mínima importância para elas.

É triste que ainda persista com tanta força na sociedade brasileira a ideia de que punimos com exagero os responsáveis pela situação que levou àquele dia 8 de janeiro. Houve rigor sim, e ele era necessário, como forma de finalmente agirmos como Estado buscando o exemplo que, olhando adiante, desestimule quem no futuro volte a pensar no uso da força e da violência como meio de se impor numa disputa que apenas o voto popular pode legitimar.

Mais triste é perceber que entre os que relativizam o quadro que levou à data que tristemente lembremos hoje há gente que deveria assumir como obrigação estar na linha de frente de defesa da democracia. Parlamentares, prefeitos, governadores, magistrados, luminares do meio jurídico, figuras respeitáveis do meio empresarial, até profissionais da comunicação, enfim, será ingenuidade imaginar que a ação firme punitiva das forças do Estado bastou para conter os golpistas de maneira definitiva. Eles continuam circulando entre nós.

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