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Psicoterapeuta sistêmico com especialização em Psicologia Transpessoal e Psicoterapia Somática Integrada. Viveu na Índia onde se aprofundou em diversas abordagens terapêuticas e de meditação. Fez cursos e supervisão em Constelação Familiar com Bert e Sophie Hellinger e foi o introdutor da Constelação no Ceará; Ashara atende individualmente e ministra cursos de formação em Constelação em diversas cidades do Brasil. Veja mais: www.ashara.com.br

Guilherme Ashara comportamento

A sabedoria do trauma

Quando temos a coragem de reconhecer e expor esse trauma de forma cuidadosa e consciente, sentimos, pouco a pouco, uma reconexão conosco e com o mundo que nos cerca.
Tipo Análise
O trauma produz desconexão do eu  (Foto: Andy li /Unsplash)
Foto: Andy li /Unsplash O trauma produz desconexão do eu

“The Wisdon of Trauma” é o título de um documentário estrelado pelo médico húngaro-canadense Dr. Gabor Maté que foi assistido por milhares de pessoas nas últimas semanas e mostra que o trauma é uma força invisível que molda a nossa vida.

Essa ideia de trauma emocional é bem recente. Sabemos que o trauma começou a ser estudado mais profundamente há no máximo 40 anos e ainda temos muito a explorar e aprender com ele. Mas o que já sabemos hoje é que todos nós sofremos diversos traumas emocionais na nossa experiência de vida.

O que mostra que sofremos um trauma? Se você já sentiu ou já teve sintomas de ansiedade, depressão, déficit de atenção (TDAH), problemas familiares, vícios, ou toma medicamentos controlados... tudo isso são indícios fortes de que você está tentando controlar ou sedar uma carga emocional gerada por um trauma. Pois é, quando esses sintomas se repetem de forma desconfortável, eles são uma comprovação de que passamos pela experiência de um trauma.

Como assim? É que o ser humano desenvolveu diversos mecanismos de defesa para não sentir o efeito do trauma. A ansiedade, a depressão e todos os exemplos acima são estratégias desenvolvidas pelo nosso corpo-mente para não sentir a dor, o sofrimento e o desconforto causado pelos traumas. Essas estratégias para evitar a dor do trauma servem como um paliativo, mas como muitas delas foram elaboradas na infância, continuamos acreditando que elas são uma boa solução na fase adulta.

Por exemplo, na minha infância eu me tornei um menino exemplar quando vi o que eu poderia sofrer a mesma violência que meu pai usou ao bater no meu irmão mais velho.

 

"O trauma nunca para de se repetir e de chamar a sua atenção, até que você olhe para ele e o cure. Essa é a ’sabedoria do trauma’." Guilherme Ashara, psicólogo e terapeuta de Constelação Familiar

 

Aí você me perguntaria: “e ser um menino exemplar não é uma coisa boa?” A resposta é sim quando acontece naturalmente, mas quando é um subproduto do medo e da repressão não é nada bom. As consequências serão sentidas mais tarde. Esse trauma continuará repercutindo durante toda a nossa vida.

Quando comecei olhar terapeuticamente para meus traumas, descobri que eles se repetem em um ciclo de sete anos. Isto é, a cada sete anos esse trauma vai se repetir em contextos diferentes, porém trazendo à tona a mesma carga emocional, a mesma dor e o mesmo desconforto.

O trauma nunca para de se repetir e de chamar a sua atenção, até que você olhe para ele e o cure. Essa é a ’sabedoria do trauma’. Ele vive para lhe mostrar que se você o acolher e fizer amizade com ele, você vai ser presenteado com todo o seu potencial de autenticidade, amorosidade, criatividade e sensibilidade.

No documentário o Dr. Maté ressalta: “Todo ser humano é um verdadeiro eu genuíno e autêntico; e o trauma é a desconexão dele e a cura é a reconexão com esse eu genuíno.” Podemos concluir que a carga emocional que carregamos em decorrência do trauma esconde um ‘eu essencial’ que só vamos acessar quando curarmos ou integrarmos o trauma.

 

"Podemos vivenciar o trauma de duas formas: a primeira é brigando com ele, rejeitando-o e construindo uma couraça de proteção e brigando com quem tenta expor a nossa dor. " Guilherme Ashara

 

Quais seriam então as consequências do trauma para nossa vida? O Dr. Maté responde: “Se eu tenho a visão de mundo, de que o mundo é um lugar horrível, eu vou viver em um mundo onde tenho que ser agressivo, desconfiado, competitivo e tento me tornar o maior possível para não ser devorado. Tenho que ser grandioso e astuto porque esse é o mundo em que eu vivo. E essas são as pessoas que a nossa sociedade recompensa com poder”.

É interessante notar que no momento em que ele fala isso no documentário, aparecem imagens de personagens opressivas e violentas que ganharam notoriedade, como Kim Jong Un, Bolsonaro e Donald Trump. Na minha percepção além de violentos e traumatizados, eles representam gatilhos de traumas sociais e políticos.

Podemos vivenciar o trauma de duas formas: a primeira é brigando com ele, rejeitando-o e construindo uma couraça de proteção e brigando com quem tenta expor a nossa dor. É o caso do exemplo acima, no qual os políticos tentam se tornar grandes e poderosos para não sentirem; a segunda forma é aceitando o trauma e olhando-o com consciência e compaixão. (Leia meu artigo anterior).

Uma última compreensão que gostaria de trazer, e que foi tocada pelo Dr. Gabor Maté, é que o trauma é a raiz da desconexão que sentimos com relação ao outro e à nós mesmos. Quando temos a coragem de reconhecer e expor esse trauma de forma cuidadosa e consciente, sentimos, pouco a pouco, uma reconexão conosco e com o mundo que nos cerca. E essa talvez seja a sensação mais preenchedora que o ser humano é capaz de sentir.

Namastê!

 

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