Jornalista e bacharel em Comunicação Social e Direito
Jornalista e bacharel em Comunicação Social e Direito
Corria a década de 1970, quando eu acompanhava o meu pai, um dos diretores da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de Iguatu, às reuniões semanais da entidade, às sextas-feiras à noite. Ainda adolescente, sentava à mesa e ouvia atento aqueles debates.
De um lado, estavam os favoráveis à implantação da semana inglesa (se impreciso ou não, era esse o termo que se usava). Eram empresários com uma visão considerada moderna, atual para a época e que seguiam a tendência dos grandes centros urbanos, que já haviam implantado a escala de trabalho, isto é, o expediente aos sábados, seriam de seis horas, encerrando às 13 horas.
As 48 horas semanais seriam compensadas em outros dias da semana, pois ficariam faltando duas horas a serem cumpridas. O grupo favorável à implantação da semana inglesa integrava a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), uma instituição nascente.
Os diretores da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de Iguatu, entidade centenária, em sua maioria se posicionava fortemente contra a ideia de redução da carga horária. Os argumentos eram essencialmente perda de vendas e, por consequência, do lucro. Outros mostravam que a feira livre tradicional ocorria aos sábados, que era o único dia em que vinham os carros da feira – caminhões, camionetas – trazendo milhares de agricultores.
Os diretores da CDL rebatiam: há tempo suficiente para comprar em meio expediente. Outros argumentavam: quem não comprar no sábado, faz a feira outro dia, pois não pode ficar sem os produtos em suas casas.
Depois de algumas reuniões e embates, a tal semana inglesa foi aprovada. Quase 50 anos depois (meus Deus, como passou rápido!), não se fala mais sobre isso. Certamente, só as atas de tais reuniões (se ainda preservadas) quardam essa memória. Depois, a jornada de 44 horas semanais foi estabelecida com a Constituição Federal de 1988.
Agora a grita é geral contra a redução da jornada semana de trabalho para cinco dias trabalhados ou a escala 5x2, pondo fim à atual e cansativa jornada 6x1, em que o trabalhador tem apenas um dia de folga semanal. Quem mora em grandes centros urbanos sabe a vida que leva para sair de casa e ir ao trabalho e depois retornar em precário serviço público de transporte.
Os argumentos dos favoráveis e contrários estão postos. O debate está acirrado no Congresso Nacional, nos sindicatos, nas associações de classe e na imprensa.
Não sou empresário e sou favorável ao fim imediato da escala de trabalho 6 por 1. Essa história de que empresas vão quebrar, é argumento semelhante aos que não queriam a implantação da semana inglesa. O trabalhador tem uma vida de sofrimento, vive uma semi-escravidão.
Se Iguatu, na década de 1970, estava aquém dos padrões nacionais, o Brasil hoje está atrasado em relação às sociedades capitalistas desenvolvidas e a mentalidade dos empresários contrários ao fim da escala 6 por 1, faz-me lembrar os velhos comerciantes do passado, no sertão cearense.
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