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Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Apaixonada por basquete, foi repórter do NBB em Fortaleza. Primeira mulher a comentar uma partida de futebol na TV cearense. Autora do livro A Verdadeira Regra do Impedimento, sobre a história do futebol feminino estadual

Billups e Kidd na NBA: "reabilitação" em cargo de poder é premiação

Portland Trail Blazers escolhe técnico acusado de estupro, enquanto Dallas Mavericks aponta um duplamente condenado por violência contra a mulher
Tipo Opinião

Há duas semanas, comentando sobre a idolatria construída em torno de Karl Malone, mesmo com a condenação por estupro de vulnerável que recai sobre o ex-ala-pivô, citei que, em breve, ainda traria a conivência da NBA com outros casos semelhantes, de agressão ou assédio, praticados por estrelas da liga. Não esperava que o tema precisaria voltar à tona tão rápido.

Chauncey Billups, novo técnico do Portland Trail Blazer, ao lado de Neil Olshey, diretor da equipe. O ex-amador tem uma acusação de estupro no "currículo"
Foto: Sam Forencich/NBAE via Getty Images/AFP
Chauncey Billups, novo técnico do Portland Trail Blazer, ao lado de Neil Olshey, diretor da equipe. O ex-amador tem uma acusação de estupro no "currículo"

Mesmo sem o encerramento da atual temporada, duas franquias já definiram o novo técnico para a sequência dos trabalhos. O Portland Trail Blazers escolheu Chauncey Billups, e o Dallas Mavericks vai ter a volta de Jason Kidd, ex-armador campeão pela franquia em 2011. A semelhança? Os dois, enquanto jogadores, somaram uma acusação por estupro, no caso de Billups, e duas condenações por violência contra a mulher, no caso de Kidd.

Na coletiva de apresentação, Billups disse que “não passa um dia sem pensar que as próprias decisões têm consequências na vida de outras pessoas”, e que “essa experiência mudou sua vida de várias formas”, em uma declaração, no mínimo, questionável. Quando um jornalista pediu que o técnico explicasse as palavras, a assessoria do clube interrompeu e alegou que o assunto não seria mais comentado.

A segunda condenação de Jason Kidd é, talvez, o melhor exemplo da negligência da estrutura judiciária e esportiva. A pena por reincidir na agressão grave contra a então esposa? Pagamento de cestas básicas, serviço comunitário e tratamento contra “excesso de raiva”, para que o problema “não prejudicasse sua carreira”. Assumidamente culpado, o ex-armador recebeu um afago da justiça e um lembrete de que a carreira e o protagonismo nas quadras estavam acima do bem e do mal. A sentença, disponível no site do tribunal de Paradise, no Arizona, comprovou que o problema, quando se trata de grandes ligas e grandes estrelas, é que não há, de fato, uma “reabilitação”, porque mal há punição. A “vítima” é a carreira que pode ser afetada pela denúncia, e não a vítima de fato, que foi lesada e fez a denúncia como uma tentativa de reparação.

O corporativismo é endossado pelos atletas. A NBA tem fama de ser uma liga engajada, e já deixou de realizar o All-Star Game de 2016 na Carolina do Norte como protesto a uma lei considerada transfóbica. Além disso, ganha cada vez mais visibilidade por ser uma vanguarda contra o racismo, o que passa diretamente pelo protagonismo dos próprios jogadores que defendem a pauta, como LeBron James. Mas, no caso da contratação de Kidd, LeBron disse que odiava perder o ex-assistente técnico dos Lakers e desejou sorte na carreira. Nenhuma palavra sobre algum assunto que pudesse soar desagradável. Ainda sobre Kidd e Billups, o ex-jogador e atual comentarista na ESPN norte-americana Kendrick Perkins equiparou as acusações a erros que são cometidos por imaturidade e concluiu: “Tenho certeza de que todos nós fizemos algo quando éramos mais jovens que não faríamos de novo”.

É justamente a posição social ocupada pela NBA que incomoda e expõe o desequilíbrio — diferentemente da NFL, que precisa evoluir não só na luta contra a violência de gênero, vide o caso de boicote ao quarterback Colin Kaepernick, que protestou contra o racismo policial. Ainda que, em 2017, a NBA e a associação de jogadores tenham pensado em um comitê com acompanhamento psicológico e possíveis suspensões aos atletas, o projeto ainda parece exclusivo ao papel, e as idolatrias e as posições de poder dos acusados seguem inalteradas.

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