Magela Lima é jornalista e professor do Centro Universitário 7 de Setembro (Uni7), doutor em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Magela Lima é jornalista e professor do Centro Universitário 7 de Setembro (Uni7), doutor em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Passados 20 anos - isso mesmo, 20 anos! - com, ao menos, duas transições administrativas bastante delicadas na Prefeitura e uma absurda e surpreendente pandemia no meio do caminho, o carnaval de rua que Fortaleza brinca hoje é o resultado de algo raro, raríssimo, no campo das políticas culturais. Nossa festa, cheia de suor e gente colorida, é fruto da combinação de um inusitado e improvável esforço de continuidade e de um, ainda mais acidental, sentimento de apreço, pertencimento, vigília e cobrança da população.
Iniciada com ousadia na gestão da ex-prefeita Luizianne Lins, ainda com um foco mais carregado no fomento aos blocos do chamado pré-carnaval, a iniciativa foi abraçada pela cidade, aproximando os mais variados segmentos sociais, pressionando o poder público a manter e aperfeiçoar a aposta na folia. Roberto Cláudio, José Sarto e Evandro Leitão disputaram, foram eleitos e administraram Fortaleza com a pauta do carnaval na lista de prioridades.
Apesar da resistência de alguns setores do comércio - como pode um shopping não ter uma decoração especial de carnaval? - e do turismo, saudosos de uma cidade deserta, cartão-postal do sossego, o que a Prefeitura passou a definir como ciclo carnavalesco na gestão RC é hoje algo consolidado. Fortaleza tem um carnaval plural, inclusivo e irreverente, celebrado e respeitado pela população. A cidade superou e derrotou o discurso que quer fazer das festas públicas e populares um problema. Não são, nunca foram.
Claro que os desafios são imensos - o financiamento centrado no orçamento público, talvez, siga sendo o maior - mas, a verdade é que o carnaval de Fortaleza chegou num ponto de não retorno. Que a festa possa crescer, que possa ocupar mais espaços, que possa remunerar melhor os artistas e trabalhadores da cultura envolvidos, que possa ser mais eficaz na valorização das tradições, tudo isso é justo que seja reivindicado e perseguido. No entanto, é preciso reconhecer que parar ou retroceder com esse movimento é hoje, graças a Deus, da casa do sem jeito.
O que vivemos com o carnaval é algo a ser observado com atenção para ser entendido e replicado em várias outras experiências do nosso calendário cultural. Há algo que fundamenta e justifica o crescimento e a consolidação do carnaval de rua de Fortaleza que falta, por exemplo, na organização de eventos como o Festival de Teatro de Fortaleza e na gestão de equipamentos como os mercados dos Pinhões e da Aerolândia. As políticas públicas, é fato, crescem quando o vínculo comunitário das ações é visível. Fortaleza, que sempre quis brincar e que brincou como pôde seu carnaval, agora sabe que pode e o que precisar ser feito para uma festa cada vez melhor.
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