Marília Barreira atua como psicóloga e psicopedagoga clínica de crianças, adolescentes, adultos e idosos, assim como consultora em Psicologia. Professora do Curso de Psicologia na Universidade de Fortaleza (Unifor). Experiência na área de Psicologia, com ênfase em Educação, Psicologia Clínica, Psicologia Social e Identidade de Gênero e Diversidade Sexual
Quando silenciamos a educação sexual dentro de casa, não estamos protegendo nossos filhos; estamos entregando-os ao mundo sem as ferramentas críticas para entender que o corpo alheio não é um bem público
Foto: DANIEL GALBER/ESPECIAL PARA O POVO
Se o corpo é político, o Carnaval é o seu manifesto mais ruidoso, e ignorar o teor ideológico dessa festa é reduzir a nossa existência a um simulacro de liberdade
O confete ainda não toca o chão e as cidades já estão sitiadas por campanhas que gritam o óbvio: "Não é Não". No entanto, como psicóloga que transita pelos territórios da parentalidade e da diversidade, sou compelida a questionar a eficácia de slogans paliativos em uma estrutura que, na base, educa para a conquista predatória.
A verdade, por mais desconfortável que seja para as famílias tradicionais, é que a ética da folia não se improvisa na porta do bloco; ela é um projeto político forjado diariamente na mesa do jantar. Esperar que o Carnaval seja o palco do respeito mútuo enquanto mantemos uma educação doméstica baseada na posse e no silenciamento do desejo é, no mínimo, uma hipocrisia social.
Precisamos falar sobre como a parentalidade (principalmente de meninos) tem sido cúmplice de uma cultura que enxerga o corpo do outro como território a ser colonizado.
Quando silenciamos a educação sexual dentro de casa, não estamos protegendo nossos filhos; estamos entregando-os ao mundo sem as ferramentas críticas para entender que o corpo alheio não é um bem público.
O consentimento, portanto, deve ser ensinado como um exercício de cidadania desde a primeira infância. Se não ensinamos que a soberania do indivíduo sobre si mesmo é inegociável — seja na recusa de um beijo forçado no tio ou na escolha de uma vestimenta — estamos apenas treinando futuros violadores ou pessoas que não sabem identificar a própria autonomia.
O Carnaval, muitas vezes usado como uma válvula de escape para a repressão, revela as fissuras de uma sociedade que só tolera a diferença se ela estiver fantasiada e limitada a quatro dias de feriado. Educar de forma disruptiva é romper com a lógica de que a liberdade do outro é uma ameaça.
É entender que a luta contra o assédio no meio da multidão é a mesma luta que travamos ao desconstruir o autoritarismo parental e os tabus que ainda cercam o prazer e o afeto.
Essa "liberdade vigiada" do feriado denuncia uma ferida aberta: a mercadorização do corpo como objeto de consumo da festa. O capitalismo festivo devora a estética da diversidade e o brilho do glitter, mas mastiga e cospe os corpos que não se enquadram na produtividade logo que a quarta-feira de cinzas aponta no horizonte.
Quando não politizamos o prazer, permitimos que ele seja apenas uma concessão temporária do sistema, e não um direito permanente de existir em toda a sua complexidade. A psicologia, aqui, não pode se furtar de denunciar que o sofrimento psíquico das minorias no pós-carnaval é o resultado direto de um mundo que aceita a performance do diferente, mas rejeita a sua dignidade cotidiana.
Portanto, a responsabilidade das instituições, sejam elas a família, a escola ou o Estado, não termina na distribuição de preservativos ou cartazes informativos.
A verdadeira prevenção se faz ao confrontar a masculinidade tóxica que ainda é servida no café da manhã e ao acolher as infâncias que fogem da binariedade sem tentar "corrigi-las" para o próximo evento social. Se o corpo é político, o Carnaval é o seu manifesto mais ruidoso, e ignorar o teor ideológico dessa festa é reduzir a nossa existência a um simulacro de liberdade.
Se o "Não é Não" precisa ser um lembrete onipresente, é porque falhamos em politizar o cuidado e a alteridade dentro de nossas próprias casas.
O papel dos pais e educadores neste Carnaval não é o de vigias da moralidade alheia, mas o de arquitetos de uma nova ética. Uma ética que compreende que o respeito não é um favor concedido, mas a premissa básica para qualquer existência coletiva.
Que a alegria deste feriado não seja o véu que encobre a violência, mas o ensaio geral para uma sociedade onde o direito ao corpo e à identidade não precise de uma campanha de conscientização para ser preservado.
Quer entender mais sobre comportamento e saúde mental? Acesse minha página
e clique no sino para receber notificações.
Esse conteúdo é de acesso exclusivo aos assinantes do OP+
Filmes, documentários, clube de descontos, reportagens, colunistas, jornal e muito mais
Conteúdo exclusivo para assinantes do OPOVO+. Já é assinante?
Entrar.
Estamos disponibilizando gratuitamente um conteúdo de acesso exclusivo de assinantes. Para mais colunas, vídeos e reportagens especiais como essas assine OPOVO +.