Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.
Ao me dedicar ao breve romance, percorro meu trecho da pista o melhor que posso, recebo de quem me antecedeu, pronta para passar adiante o objeto da criação
Foto: Pexels/Maria Mileta
Imagem ilustrativa de apoio
Li uma frase de Marçal Aquinodefendendo o sigilo no processo criativo, a ocultação da técnica, dos instrumentos de que nos valemos durante a escrita para a estruturação da narrativa. Tal construção não deve ser evidente, o leitor dispensa a visão dos andaimes e tem preferência pelo contato com a engenharia aplicada, a arquitetura pronta, as paredes lisinhas, os acabamentos assentados.
Por outro lado, desperta meu interesse a seguinte afirmação de Jorge Amado: "Fiz da minha vida e da minha obra uma única coisa", o que me leva ao conselho que recebi de Ignácio de Loyola Brandão sobre todos os assuntos caberem na crônica, desde que em tudo eu esteja. Ou seja, se vida e obra são indissociáveis, ao falar da vida, necessariamente preciso abordar a obra.
Ou melhor, para me colocar na crônica, acabarei por compartilhar os bastidores, o que vai no avesso do texto, pois o leitor acessará a intimidade onde se mostram na mesa de trabalho as ferramentas, os materiais, os recursos — não há lençol suficiente para cobri-los. Assim, apresento o conceito do breve romance, atual foco das minhas atenções, e as referências decisivas para essa elaboração.
Dois livros me deram, como na música de Gil, "régua e compasso". Em "Galvez, imperador do Acre", de Márcio Souza, lançado pela Record em 1976, descobri a possibilidade dos fragmentos intitulados, ideia à qual acrescentei a liberdade de redigir capítulos com uma simples frase, palavras mínimas ou palavra única. Isso requer de mim especial cuidado para não sonegar a quem lê informações essenciais.
Já da ficção "Breve romance de sonho", do austríaco Arthur Schnitzler, contemporâneo de Freud, um clássico da trama psicológica, publicado em 1926, vieram a base dos subtítulos de meus livros "Salvaterra, breve romance de coragem" e "O despojo do caramujo, breve romance de despedida" e a inspiração para desenvolver pequenos romances, marcados pela atuação das personagens fora do âmbito do pensamento.
Na verdade, esse traço é distintivo em relação à obra de Schnitzler, tão densa de carga psicológica que justifica a conhecida recusa do "Pai da Psicanálise" em ler seu compatriota a fim de evitar por ele se influenciar. Outro é oferecer condições para ter no leitor um coautor ativo no preenchimento de intencionais lacunas.
Some-se ao exercício literário o prazer de devorar, digerir, transformar, por meio de meu próprio movimento antropofágico, algo do território ainda de predominância masculina — como exemplificam, não por acaso, os autores das citações aqui presentes.
E a graça de, a partir deles, ser eu mesma, me expressar com a minha voz. Ouvi de Luiz Antonio de Assis Brasil — veja o domínio dos escritores — que literatura é corrida de obstáculos com passagem de bastão.
Ao me dedicar ao breve romance, percorro meu trecho da pista o melhor que posso, recebo de quem me antecedeu, pronta para passar adiante o objeto da criação. Dizem que a melhor forma de esconder é mostrar. Se ao revelar, de modo inconsciente, eu oculto, não sei nem pretendo explicar, mas, com certeza, Freud explica.
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