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Nello Rangel é psicólogo, arte-terapeuta, consultor e um apaixonado pela literatura de Guimarães Rosa

Nello Rangel psicologia e arte

Sobre a biofilia, ou o amor à vida e seu movimento

O amor à vida pode transformá-la no momento em que compreendemos seu movimento constante e aprendemos a lidar com o processo constante e belo das mudanças.
Tipo Crônica
Aquarela
Foto: Nello Rangel Aquarela "A Fresta"

 

Quanto atentos estamos ao mundo em que vivemos?

Quanto atentos estamos ao mais singelo aspecto ao nosso redor?

Essa rachadura na parede à minha frente será, provavelmente, consertada em tempo. Mas mesmo que não o fosse, mesmo que tudo aqui ruísse, ainda assim, sobre as pedras que sobrassem, musgos, capim, moitas e, depois, árvores, viriam transformando e recriando esse lugar.
Esse menino esteve doente outro dia. Mas a febre passou e ele voltou a comer melhor. Já está crescendo de novo.

Mesmo após um tsunami, após a explosão de um vulcão, um terremoto ou guerras terríveis, mesmo após isso tudo, seja no tempo que for, a vida retorna. Outro dia descobri que, historicamente, o período de maior natalidade das nações são aqueles correspondentes às guerras e epidemias. Isso não parece sugerir que, diante do risco real de morte, ainda assim, se aposta na vida?

Em psicoterapia, quando defronte de um paciente em grande sofrimento, é muito importante para o terapeuta conseguir esperar. Esperar o tempo de elaboração do sofrimento que acomete a pessoa, o tempo de compreensão mais profunda do que ela está sentindo e pensando naquele momento, o tempo de construção de alternativas possíveis para aquele problema que, no imediatismo da pressa em se livrar da dor, parece intransponível. Essa espera é sempre fecunda de esperanças possíveis que, se não conseguem sumir com o padecimento, abrem novos horizontes e perspectivas a se tentar.

Será se precisamos passar por enorme apuro para, somente então, conseguirmos vislumbrar as janelas, portas e frestas abertas?

Há sempre o que esperar?

Quando somos, biófilos conseguimos ver melhor.

Parece que temos a necessidade de projetos duradouros, por nossa sede de permanência. O trabalho nos tomará muitos anos. Os filhos, se os tivermos, mais tantos. Mas um dia estaremos aposentados e nossos filhos cuidando da vida deles (e isso nos fará felizes). Nosso cônjuge poderá demorar conosco mais que os outros dois. Mas um dia, também, poderá nos deixar. Contudo, os três, como tudo que é vivo, seguirão seu curso, afirmando, cada um deles, sua finitude. Nós também.

"O amor à vida é como um caderno novo no primeiro dia de aula. É uma aposta, de carta marcada na beleza, na bondade e no sentido da vida." Nello Rangel, arte-terapeuta

O amor à vida não seria, pois, o afeiçoar-se a esses processos, a essas jornadas? A esperança – belo sinal da presença biófila – não seria também algo semelhante? Um saber-se finito e a caminho dessa finitude, e permanecer caminhando, intuindo que é nesse caminhar que permanecemos, mesmo se um dia, enfim, falecemos? É como Miguilim, personagem do livro “Sagarana”, de João Guimarães Rosa, descobrindo a beleza do mundo pouco depois de perder, com enorme sofrimento, seu irmãozinho, o Dito.

Ou, nas palavras de Júlio Cotázar: “Provavelmente, de todos os nossos sentimentos, o único que de fato não é nosso é a esperança. A esperança pertence à vida, é a própria vida se defendendo.”

O amor à vida é como o capim agora verdinho, que depois de meses de seca, acaba de ver chuva. É como a cadelinha sumida do sítio que reaparece cheia de cachorrinhos. É como aquela pessoa arrasada por meses, depois de um término de um amor, que conhece alguém muito legal e se vê com os olhos brilhando. É como a cidade depois da enchente que começa a ser limpa, ter a lama retirada até se assemelhar ao que era antes.

O amor à vida se parece com a pessoa magoada, triste por pensar que nunca recuperaria aquela amizade, e que se assusta ao perceber que já conversa com o amigo, esquecendo-se, ao menos, por momentos, do rancor. Se parece com um filho inesperado para um casamento até então infértil, ou com um casamento sem filhos que descobre outros frutos gerados. Ou com um neném boquiaberto ao ir descobrindo o mundo. Ou com uma criança às vésperas do Natal. O amor à vida é como um caderno novo no primeiro dia de aula. É uma aposta, de carta marcada na beleza, na bondade e no sentido da vida.

O amor à vida está ao alcance de nossas mãos. Já. Agora. Se olharmos verdadeiramente o mundo.
O amor à vida é um belo remédio para a saudade.

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