Logo O POVO+
O corpo não vira a página no Réveillon
Comentar
Foto de Paola Tôrres
clique para exibir bio do colunista

Médica hematologista, escritora, cordelista e professora de medicina. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, destaca-se por unir cultura popular e ciência, levando o cordel às universidades, às práticas integrativas em saúde e à divulgação científica. Milita por uma ciência mais humana e torna o cordel uma ferramenta de insurgência afetiva e epistemológica

Paola Tôrres ciência e saúde

O corpo não vira a página no Réveillon

Ele segue. E seguir, quando é cuidado, já é um ato profundo de amor
Comentar
Fogos no Révellion (Foto: João Filho)
Foto: João Filho Fogos no Révellion

Quando o calendário vira
E a nossa emoção flutua
Cada alegria ou tristeza
Que parece nua e crua
Passa na impermanência
Pois a vida continua

Há um engano delicado — e cruel — na ideia de que o ano novo inaugura um corpo novo. O calendário vira, mas o corpo não acompanha esse gesto simbólico. Ele segue no tempo que lhe é próprio: o da cicatrização, o da metabolização das perdas, o da lenta construção do cuidado.

Vejo isso todos os dias. Janeiro chega exigindo recomeços, enquanto há corpos em quimioterapia, em luto, em fadiga profunda, em processos que não cabem em promessas. O corpo não apaga o que ainda pulsa. Ele continua.

Existe uma violência silenciosa nas resoluções de início de ano. A obrigação de melhorar, de virar a página, de deixar para trás. Como se a vida fosse um arquivo digital. Como se a dor tivesse data para encerrar. Como se a cura obedecesse ao relógio social. O tempo biológico é outro. Ele não conhece contagem regressiva.

Conhece constância. Conhece repetição. Conhece espera. Cuidar, muitas vezes, é aceitar esse descompasso. É sustentar o processo sem apressá-lo. É compreender que continuar não é fracassar — é resistir. Que permanecer em tratamento, respeitar o repouso, acolher a lentidão, tudo isso também é medicina.

Na medicina integrativa, falamos de ritmo porque o corpo adoece quando é violentado pelo tempo que não é o seu. Dormir, digerir, regenerar, elaborar — nada disso se acelera por decreto. O cuidado verdadeiro começa quando a pressa cede lugar à presença.

Talvez o início do ano não precise ser uma ruptura, mas uma continuidade mais consciente. Menos metas. Mais atenção. Menos promessa. Mais escuta. O corpo não pede virada — pede constância.

Por isso, ao abrir 2026, prefiro dizer isso com clareza: o corpo não vira a página no Réveillon. Ele segue. E seguir, quando é cuidado, já é um ato profundo de amor.

Foto do Paola Tôrres

A saúde no centro da discussão. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?