Médica hematologista, escritora, cordelista e professora de medicina. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, destaca-se por unir cultura popular e ciência, levando o cordel às universidades, às práticas integrativas em saúde e à divulgação científica. Milita por uma ciência mais humana e torna o cordel uma ferramenta de insurgência afetiva e epistemológica
Quando o calendário vira E a nossa emoção flutua Cada alegria ou tristeza Que parece nua e crua Passa na impermanência Pois a vida continua
Há um engano delicado — e cruel — na ideia de que o ano novo inaugura um corpo novo. O calendário vira, mas o corpo não acompanha esse gesto simbólico. Ele segue no tempo que lhe é próprio: o da cicatrização, o da metabolização das perdas, o da lenta construção do cuidado.
Vejo isso todos os dias. Janeiro chega exigindo recomeços, enquanto há corpos em quimioterapia, em luto, em fadiga profunda, em processos que não cabem em promessas. O corpo não apaga o que ainda pulsa. Ele continua.
Existe uma violência silenciosa nas resoluções de início de ano. A obrigação de melhorar, de virar a página, de deixar para trás. Como se a vida fosse um arquivo digital. Como se a dor tivesse data para encerrar. Como se a cura obedecesse ao relógio social. O tempo biológico é outro. Ele não conhece contagem regressiva.
Conhece constância. Conhece repetição. Conhece espera. Cuidar, muitas vezes, é aceitar esse descompasso. É sustentar o processo sem apressá-lo. É compreender que continuar não é fracassar — é resistir. Que permanecer em tratamento, respeitar o repouso, acolher a lentidão, tudo isso também é medicina.
Na medicina integrativa, falamos de ritmo porque o corpo adoece quando é violentado pelo tempo que não é o seu. Dormir, digerir, regenerar, elaborar — nada disso se acelera por decreto. O cuidado verdadeiro começa quando a pressa cede lugar à presença.
Talvez o início do ano não precise ser uma ruptura, mas uma continuidade mais consciente. Menos metas. Mais atenção. Menos promessa. Mais escuta. O corpo não pede virada — pede constância.
Por isso, ao abrir 2026, prefiro dizer isso com clareza: o corpo não vira a página no Réveillon. Ele segue. E seguir, quando é cuidado, já é um ato profundo de amor.
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