Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Morreu no finalzinho do ano, sem muito choro nem vela, um dos mais importantes pensadores do nosso mundinho intelectual.
A morte de Sergio Miceli, em 12 de dezembro de 2025, fecha um ciclo raro na sociologia da cultura brasileira: a luta de um pesquisador que tratou os intelectuais como objeto sério, não como altar, nem como fofoca, e que, ao fazer isso, explicou o Brasil por um caminho oblíquo e decisivo: a anatomia social dos seus produtores de prestígio.
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Miceli foi o melhor analista dos intelectuais brasileiros justamente porque recusou dois confortos muito comuns entre nós. Não transformou a vida intelectual em hagiografia, em álbum de grandes homens e grandes frases. Mas também não caiu obviedade da ilusão de reprodução.
O que ele fez foi mais duro, e mais esclarecedor: descreveu os mecanismos de consagração.
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Miceli começou com um doutorado com forte diálogo com a tradição francesa (Universidade de São Paulo e École de Hautes Études en Sciences Sociales - USP/EHESS), num momento em que essa matriz não era um enfeite teórico, mas um modo de olhar a vida social: trajetórias, capitais, redes, instituições, patronages e se consolidou como professor da USP, tornando-se referência central na sociologia da cultura no País. Desta máquina ele não tratou muito. Também, seria como se olhar no espelho. Ela é o ponto cego do Brasil intelectual.
Nos últimos anos, assumiu ainda a direção da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). Esse detalhe me parece simbólico: ele conhecia por dentro um de seus nervos, o circuito editorial universitário, onde reputações se fixam, bibliografias se canonizam e hierarquias se estabilizam.
A intuição miceliana, como de seu grande mestre Pierre Bourdieu, é incômoda: a "vida do espírito" tem história social. Em vez de começar pelo "gênio", Miceli começava pelo chão: família, escola, sociabilidade, oportunidades, mediação estatal, mercados de consagração. Esse deslocamento parece mera filigrana sociológica, mas é profundamente político.
Eu gosto de lembrar que eu era apenas um rapaz latino-americano em São Paulo, sem dinheiro no bolso (aliás, até hoje), quando descobri o primeiro livro de Miceli, "A noite da Madrinha", daquela coleção incrível da Editora Perspectiva. O livro é sobre o programa da Hebe Camargo. Ele entra no auditório, no entretenimento, no circuito popular, e mostra que ali também há estrutura, hierarquia, trabalho e poder. É uma lição que envelheceu bem demais: o Brasil moderno se fez, em grande medida, por mídias, por telas, por indústria cultural, por reputações produzidas em escala, e quem não entende essa dimensão fica sempre atrasado, tentando explicar o presente com ferramentas do passado.
Depois, Miceli desloca o foco para as elites de legitimidade: a Igreja, por exemplo. Ao tratar a elite eclesiástica como carreira, rede, recrutamento e disputa, ele explicita um ponto crucial para qualquer sociologia do simbólico: autoridade se produz e se administra. O "sagrado" também tem engrenagens. Esse método, quando ele aplica às elites letradas, atinge seu ápice: intelectuais aparecem não como "consciências pairando", mas como agentes em disputa, com estratégias, interesses, limites e dependências. "Intelectuais à brasileira", nesse sentido, é um livro que incomoda porque recusa a nossa autoproteção. Não é um ataque aos intelectuais, é um ataque à mentira sociológica que os protege de serem analisados.
Há ainda, na sua obra, um eixo modernista que me parece decisivo. Em "Nacional Estrangeiro", e em tantos trabalhos correlatos, o modernismo deixa de ser apenas uma narrativa heroica de vanguarda e passa a ser também história social: grupos, patrocínios, circulação internacional, tensões de classe, mecanismos de consagração.
O gesto mais elegante do Miceli tardio, porém, é o comparativo latino-americano. Quando ele coloca Brasil e Argentina lado a lado, ele abandona a comparação deferente, Brasil medido pela Europa ou Estados Unidos, e escolhe um espelho mais cruel e mais fecundo: dois países que se imaginam centrais, mas operam, cada um à sua maneira (Argentina pela via do mecenato privado e o Brasil pela grana pública), como periferias produtoras de prestígio.
Em "Vanguardas em retrocesso", esse olhar reaparece com força: vanguarda não é só estética, é cena social. E em "Sonhos da periferia", ao reconstruir a inteligência argentina e o papel do mecenato, ele oferece um contraste que ilumina o Brasil por inversão: onde o circuito privado pesa, as formas de dependência se reconfiguram, onde o Estado e as grandes instituições concentram a consagração, o pedágio simbólico muda de cobrador, mas não desaparece.
É aqui que eu vejo em Miceli aquilo que me interessa diretamente: a máquina do poder de consagração sudestina. Não, ele como todo intelectual uspiano não enxergou o "Brasil não sudestino". Mas a partir do seu pensamento é possível ir mais longe.
Eu chamo de "máquina" não um pesadelo, mas um dispositivo histórico que converte densidade institucional em autoridade cultural, e autoridade cultural em regra do jogo. Essa máquina funciona por rotinas: universidades, fundações de fomento, editoras, prêmios, curadorias, suplementos, redes de sociabilidade e circulação internacional, e, sobretudo, a naturalização de que "o Brasil pensa" a partir dali.
Miceli é fundamental porque ele descreve, como o prestígio é fabricado e distribuído, como as reputações se fazem, como alianças estabilizam critérios, como hierarquias se reproduzem, como a consagração vira capital acumulável. Ele me ajuda a deslocar a pergunta mais sentimental "por que as periferias nacionais não são reconhecidas?" para uma pergunta sociologicamente produtiva: quais são os mecanismos do reconhecimento? Quem os controla?
A obra dele, apesar de influente, ficou circunscrita a certos setores da academia, ficou ninchada como diz a galera, quando deveria ser conhecida pelos brasileiros em geral como ferramenta de lucidez democrática. Porque entender como se produzem intelectuais, artistas e autoridades culturais não como fofoca de poder, mas para iluminar como uma sociedade decide quem vira referência, quem entra no cânone e quem fica no rodapé.
Dois portugas: um fake e um raiz.
O fake é a Tasquinha Real (rua Ana Bilhar, 1496). Entra no mesmo lugar onde funcionava um restaurante que tinha uma equipe que trabalhou no melhor português do Brasil de todos os tempos (o Antiquarius, no Rio). Se define como um gastrobar português com alma de boteco carioca. Sambão alto e comida quebra galho, com certeza.
O portuga raiz é O António, Culinária portuguesa (Avenida Rui Barbosa, 1246). O António é um portuga com cara de Manuel que comanda uma tasquinha simples mas sincera nos propósitos. O António foi logo avisando: aqui é para português ou quem conhece bem Portugal. Comanda, não. É ele e Deus. Pedi um polvo de entrada (delicioso) e perguntei pelo pão para molhar o bico. Ele disse que o pão acabava na quinta, o mesmo dia que chegou. Era sábado. Televisão com música portuguesa, ventilador que não ventila. Carta de vinhos pequena, mas bem selecionada.
Vá num dia em que você estiver afim de comer sem frescura e leve seu pão. O chef António é uma figuraça que parece saído de piada de português bem contada.
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