Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Um debate mobiliza a academia e a internet.
Tudo começou com um artigo do filósofo paulista Vladimir Safatle contra o pensamento decolonial publicado na revista Piauí.
O filósofo da Universidade de São Paulo (USP), conhecido por suas intervenções públicas e por uma obra que transita entre Adorno, Lacan e Badiou, não poupou adjetivos: o decolonialismo seria "culturalismo despolitizado", "identitarismo fragmentador", teoria que substitui a análise materialista das relações de produção por disputas simbólicas inofensivas ao capitalismo".
Logo em seguida, numa sincronia perfeita, Douglas Rodrigues Barros, no blog da Boitempo, a mais prestigiada editora brasileira de teoria crítica (leia-se: o marxismo atualizado), radicalizou no diagnóstico.
Para ele, o pensamento decolonial não é apenas equívoco teórico, mas expressão ideológica de frações da pequena-burguesia intelectual latino-americana que, ao produzir "diferença epistêmica" negociável institucionalmente, conquista nichos acadêmicos sem questionar as estruturas materiais da universidade neoliberal. Seria crítica domesticada, radical no discurso, mas inofensiva na prática.
A argumentação de ambos estrutura-se sobre premissas compartilhadas. Primeiro, a centralidade ontológica da contradição capital-trabalho: toda forma de dominação no capitalismo derivaria, em última instância, da exploração do trabalho, sendo raça, gênero e colonialidade formas secundárias, subsumidas à contradição fundamental entre capital e trabalho.
O debate sobre racismo para eles é secundário e superficial. Segundo, a acusação de que o decolonialismo substitui análise materialista por análises culturalistas centradas em identidades e discursos, um recuo teórico-político que, ao invés de atacar estruturas econômicas, se perderia em disputas representacionais. Terceiro, a defesa da universalidade do proletariado contra o que consideram "particularismos identitários": a emancipação só seria possível através da abolição das classes, movimento que necessariamente superaria todas as outras opressões.
Barros ainda acrescenta uma crítica ao hibridismo teórico decolonial, essa tentativa de combinar Marx com pensadores indígenas, afro-diaspóricos ou latino-americanos, que seria ecletismo metodológico diluindo o rigor do materialismo histórico. Marx não precisaria ser decolonizado porque já forneceria instrumentos suficientes para analisar o colonialismo. O problema não seria Marx, mas sua aplicação insuficiente.
O debate parece epistemológico, uma disputa sobre métodos científicos e validade de categorias analíticas. Mas basta mobilizar as ferramentas de análise das disputas simbólicas para que outra cena se revele por baixo da superfície dos argumentos: uma luta feroz por posições dominantes no campo intelectual brasileiro, competição por capital simbólico e defesa de privilégios institucionais.
Safatle é professor titular da USP, filósofo com reconhecimento internacional, colunista de grandes jornais, intelectual público com trânsito na mídia e movimentos sociais.
Barros é caro à Boitempo, que exerce verdadeiro "gatekeeping" sobre o que conta como marxismo sério no Brasil. Essas posições lhes conferem poder de consagração: decidir o que é teoria legítima, quem são os autores relevantes, que debates merecem atenção. E o pensamento decolonial representa ameaça direta a esse monopólio.
Para eles, o decolonialismo funciona como uma heresia que questiona o campo. Desafia a geografia do prestígio ao recusar a centralidade automática da Europa e Estados Unidos das grandes escolas como produtores de teoria.
O pensamento decolonial questiona o cânone propondo outros autores, Aníbal Quijano, Enrique Dussel, María Lugones, como tão relevantes quanto Marx, Hegel ou Adorno. Altera critérios de legitimidade ao valorizar saberes indígenas, quilombolas, periféricos tradicionalmente excluídos da alta teoria. E redistribui capital simbólico, transferindo prestígio de intelectuais metropolitanos para intelectuais periféricos, nordestinos, indígenas, negros. Essa redistribuição não é apenas simbólica: traduz-se em verbas de pesquisa, vagas acadêmicas, convites para congressos, contratos editoriais, visibilidade midiática. O que está em disputa é poder material disfarçado de debate epistemológico.
Um filósofo quilombola preto, pobre, nordestino, curiosamente, Safatle publicou seu artigo chic numa revista que zomba do Piauí, terra de Nego Bispo no título.
Safatle e Barros mobilizam estratégias clássicas de violência simbólica para defender suas posições. Primeiro, a desqualificação por associação: culturalismo equivale a liberalismo equivale a reacionarismo. Identitarismo equivale a fragmentação equivale a contra-revolução, academicismo equivale a torre de marfim equivale a inutilidade política. Segundo, monopolização da tradição legítima: eles representam o Marx autêntico, os outros representam deturpação, modismo, ecletismo.
Ser marxista sério significa aceitar a leitura deles de Marx. Terceiro, inversão da dominação: apresentam-se como defensores de posição sitiada, o verdadeiro materialismo ameaçado, ocultando que ocupam posições institucionais dominantes, projetando-se como vanguarda assediada quando são "establishment".
Quando insistem que Marx já dá conta de colonialismo e racismo, estão dizendo: não precisamos de vocês, intelectuais periféricos, para pensar nossa própria realidade. É colonialidade epistêmica operando em nome do anticolonialismo, uma ironia que não passa despercebida a quem observa a cena com distanciamento analítico. O meu caso, pois tenho profundo respeito pelo pensamento dos decoloniais, apesar de grandes ressalvas. E tenho um ponto central de apoio, sei que o racismo é constitutivo e central do modelo de dominação.
A defesa da ortodoxia marxista funciona como mecanismo de fechamento do campo, estabelecendo fronteiras rígidas entre dentro e fora. Quem controla a ortodoxia controla a entrada no campo e impede a emergência de posições concorrentes. Reproduz hierarquias geográficas: teoria legítima é produzida no eixo USP, enquanto teoria periférica vinda do Nordeste, do Norte, de intelectuais indígenas ou negros permanece suspeita a priori. Mantém geografia desigual do prestígio teórico e oculta interesses materiais, apresentando escolhas estratégicas como necessidades lógicas. Não é que não queiram concorrência, argumentam, é que o rigor científico exige. Naturalizam dominação como exigência epistemológica.
O paradoxo performativo dessa posição é mortal. Criticam o decolonialismo por ser acadêmico, enquanto falam da posição mais acadêmica possível.
Acusam o decolonialismo de não construir poder popular enquanto eles mesmos circulam em espaços de elite intelectual.
Denunciam identitarismo pequeno-burguês ocupando posições que lhes permitem ignorar identidade, pois branquitude, masculinidade e sudestinidade operam como normas não-marcadas, o privilégio de não precisar se pensar como racializado ou territorializado.
A fúria contra Nego Bispo é especialmente reveladora. Bispo, intelectual quilombola falecido em 2023, mas cuja obra só ganhou amplitude póstuma, representa tudo que ameaça o "establishment" marxista: legitimidade que não vem de universidade, mas de quilombo; método que não é dialética hegeliana, mas sabedoria contra-colonial; linguagem que não é jargão acadêmico, mas português brasileiro popular; autoridade que não cita alemães, mas ancestrais. Bispo não pediu permissão para teorizar, não submeteu seu pensamento ao crivo da ortodoxia, e ainda assim circulou, foi lido, ganhou prestígio. Isso é insuportável para quem se via como guardião da teoria legítima.
A disputa está pegando fogo porque o campo intelectual brasileiro atravessa transformação acelerada. Mudança geracional traz nova geração de intelectuais, muitos não-brancos, não-sudestinos, não-masculinos, que questionam velhas hegemonias. Ferramentas digitais democratizam produção e circulação teórica. Não aceitam mais passivamente que USP ou Boitempo definam o que é teoria séria. Transformação institucional também pesa: cotas raciais diversificam universidades, programas de pós-graduação em regiões periféricas ganham relevância, internacionalização conecta intelectuais periféricos diretamente com debates globais sem mediação uspiana.
E há crise de legitimidade: o marxismo ortodoxo não antecipou, explicou nem enfrentou adequadamente o golpe de 2016, a ascensão de Bolsonaro, o genocídio indígena. Enquanto marxistas ortodoxos como Safatle, faziam seminários elogiando as passeatas de direita anti Dilma, Bolsonaro capturava a classe trabalhadora. Credibilidade política abalada expõe vulnerabilidade da posição teórica.
Há ainda uma ironia final que Safatle menciona em seu texto, mas não leva a sério: o próprio Marx, nos últimos anos de vida, começou seu giro anticolonial. A publicação recente de seus cadernos etnográficos e correspondências tardias revela um pensador em plena revisão de suas certezas evolucionistas oriundas das influências do antropólogo americano Morgan.
Os donos das posições dominantes sentem o chão tremer e reagem com violência simbólica máxima, mobilizando todo capital acumulado, institucional, editorial, midiático, para preservar privilégios. Mas é tarde demais. O fogo já está ateado e a reconfiguração do campo intelectual brasileiro se acelera, indiferente aos guardiões da ortodoxia que insistem em defender fronteiras que já começaram a ruir.
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