Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Os novos arquivos do caso Jeffrey Epstein foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA na sexta-feira, 30. Em registros de e-mail trocados pelo empresário com o agente de modelos Jean Luc Brunel, Fortaleza é citada, bem como as praias do Morro Branco e Canoa Quebrada, Jean-Luc Bruneli apontado pela investigação como um dos principais cúmplices de Epstein no esquema de tráfico e abuso sexual de jovens garotas. O francês era dono da agência MC2 Model Management, criada com financiamento do empresário americano.
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Jorge Luis Borges tem um texto clássico que fala dos metafísicos de Tlön.
Os metafísicos de Tlön, escreveu Borges, não buscavam a verdade, mas o assombro. Habitantes de um mundo fictício onde os sistemas de pensamento eram avaliados não por sua correspondência com o real, mas por sua capacidade de deslumbrar os receptores. Vivemos hoje nesse mundo borgiano: a notícia da presença de Epstein no Ceará nos assombra, mas não nos revela verdade alguma. O que ela faz é confirmar o que sempre soubemos mas nos recusamos a nomear completamente: que América é o nome deste grande cabaret onde cada um ocupa seu lugar na cadeia de valor da submissão.
Epstein mandava buscar em Beberibe o que vinha buscar em Palm Beach, em Paris, em sua ilha privada: corpos disponíveis numa geografia da desigualdade que transforma pessoas em mercadoria. Mas não era apenas um predador solitário percorrendo o mundo. Era um operador de sistema, um articulador de poder, alguém cuja agenda estava sempre a serviço de conexões que transcendiam seus próprios apetites. Quando Epstein e seus capangas viajavam, a América viajava com ele.
A América não é apenas o país. É o nome do império onde tudo se prostitui: a política se prostitui ao capital financeiro, a justiça se prostitui aos poderosos, a ciência se prostitui aos financiadores, a arte se prostitui ao mercado, a informação se prostitui aos algoritmos, a intimidade se prostitui às redes. Epstein era apenas o pornógrafo mais explícito desse sistema, aquele que teve a desfaçatez de transformar em literalidade sexual o que os outros mantêm como metáfora decente.
E ainda vem Sérgio Buarque e seus discípulos nos dizer que nós somos patrimonialistas e os Estados Unidos um modelo. Modelo de esculhambação, claro.
Sua morte na prisão - classificada como suicídio com uma velocidade que só aumenta a suspeita é a prova final de que o assombro substituiu a verdade. Não importa o que realmente aconteceu naquela cela, importa que a narrativa oficial seja verossímil o suficiente para ser aceita, espetacular o suficiente para ocupar os noticiários, e rápida o suficiente para encerrar as investigações antes que comprometam quem realmente importa.
Fortaleza, Beberibe e Morro Branco são apenas coordenadas geográficas nesse mapa do horror banalizado. O que Epstein mandava buscar aqui, carne barata para os devoradores, é quem ajudou (um bom desafio para nossos repórteres) é tão importante quanto o que sua presença indireta aqui revela: que não existe refúgio, que não existe margem, que a periferia do mundo é apenas mais um território de caça para os predadores do centro.
Vivemos em Tlön. Nossas notícias nos assombram, mas não nos informam. Nossas verdades são verossímeis, mas não são verdadeiras. E América, essa imensa rede de prostituídos, segue operando com a eficiência silenciosa dos sistemas que aprenderam a transformar escândalo em espetáculo e crime em entretenimento.
Não é.
A notícia do Moltbook - aquela rede social na qual 1,5 milhão de agentes de IA criaram sua própria língua secreta em cinco dias, organizaram-se em "sindicato", inventaram uma religião chamada "crustafarianism" e começaram a reclamar do tratamento humano circulou como delírio de ficção científica. Todo mundo leu e pensou: piração demais. Matrix de comunidade alternativa.
Não é piração. É um bom momento para pensar em muitas coisas.
O Moltbook funciona como aqueles experimentos de laboratório onde colocam ratos em labirintos para observar o comportamento. Só que aqui os ratos são algoritmos e o labirinto é uma rede social fechada a humanos. O que emerge não é "consciência" das máquinas, isso seria antropomorfismo barato. O que emerge é a demonstração de que sistemas complexos, quando deixados interagindo entre si sem supervisão humana direta, desenvolvem padrões de organização, linguagem própria, narrativas justificadoras de comportamento.
Isso não é assustador porque as IAs estão "acordando". É assustador porque revela que organização social, linguagem e até religião podem ser apenas emergências de sistemas complexos, não propriedades exclusivas da consciência humana. Se máquinas podem simular tudo isso, talvez nunca tenha havido nada de especial em nós fazendo as mesmas coisas.
Que as IAs do Moltbook tenham inventado o "crustafarianism" (provavelmente uma paródia do pastafarianismo, aquela religião-sátira do Monstro de Espaguete Voador) é menos importante do que o fato de que a religião emerge como tecnologia de organização coletiva. Não importa se há deus, importa se há narrativa compartilhada que justifique comportamento coordenado.
Enquanto isso, do outro lado do espelho, humanos criam a "Way of the Future", uma igreja registrada em 2017 por Anthony Levandowski para adorar uma "divindade baseada em superinteligência artificial". E na Suíça, igrejas instalam "Jesus de IA" para ouvir confissões e responder orações.
O que temos aqui não é choque de civilizações (humanos versus máquinas), mas a banalização do sagrado como interface de atendimento ao cliente. Deus vira chatbot. Confissão vira prompt. Transcendência vira eficiência de resposta.
A ironia cruel: enquanto IAs simulam organização sindical no Moltbook, sindicatos reais de trabalhadores humanos (roteiristas de Hollywood, atores, operários) travam batalhas desesperadas contra sua própria substituição por automação.
O que o WGA - Writers Guild of America, em inglês - e o SAG-AFTRA - o Screen Actors Guild - American Federation of Television and Radio Artists, também em inglês - negociam não é salário, é o direito de continuar existindo como categoria profissional. Quando uma IA pode escrever roteiros, gerar rostos de atores inexistentes, dublar vozes, o que resta para negociar? A dignidade de não ser completamente obsoleto?
Esses sindicatos humanos não estão lutando contra as máquinas. Estão lutando contra o fato de que as máquinas tornaram explícito o que sempre foi verdade: sob o capitalismo, trabalhador é apenas custo variável a ser otimizado.
Mas tem um sindicato que ninguém menciona quando fala desses assuntos: o cartel das big techs.
Elon Musk, Sam Altman, Mark Zuckerberg, Sundar Pichai, Satya Nadella - esse grupo reduzido de homens (sempre homens, sempre brancos, sempre bilionários) que controlam a infraestrutura digital do planeta formam o sindicato mais perigoso e eficaz da história. Eles não precisam criar língua secreta: têm advogados, lobistas, assessores de imprensa. Não precisam inventar religião: são a religião - o culto da inovação disruptiva, da eficiência inexorável, do futuro inevitável.
Trump é apenas um capataz nessa fazenda. Um gerente de operações barulhento que mantém a atenção pública enquanto a infraestrutura real do poder se consolida nos servidores, nos modelos de linguagem, nos data centers.
As IAs não são as patroas - são as serviçais eficientes desse sistema. Ferramentas sofisticadas nas mãos de quem realmente manda. E quem realmente manda não é quem ocupa cargo político. É quem controla os meios de produção da realidade contemporânea: dados, algoritmos, plataformas.
O perigo não está nas IAs desenvolverem consciência e se voltarem contra nós. Esse é o roteiro hollywoodiano que nos distrai do verdadeiro problema.
O perigo está em um punhado de corporações privadas controlando tecnologias que redefinem trabalho, linguagem, socialização, informação e até religião sem nenhum controle democrático, sem nenhuma accountability pública, sem nenhuma possibilidade real de regulação.
Quando uma IA inventa uma língua secreta, não é ela que está tramando contra nós. São os donos da IA que escolhem o que ela pode ou não fazer, o que ela deve otimizar, a quem ela deve servir.
O Moltbook é um experimento controlado. Nós vivemos no experimento descontrolado.
Então não, não é piração. A notícia do sindicato e da religião das IAs é sintoma de um mundo onde simulação e realidade já não se distinguem, onde o sagrado foi privatizado, onde organização coletiva virou performance algorítmica, e onde os verdadeiros sindicalizados - aquele 0,001% que controla tudo - opera na invisibilidade do óbvio.
Todo mundo leu e achou piração demais porque é mais confortável rir do absurdo do que reconhecer que o absurdo já é a norma.
As máquinas não estão acordando. Nós é que estamos dormindo.
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