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"Teve filho? Agora aguenta!"
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Rachel Gomes é jornalista, mãe da Serena e da Martina e produz podcasts de maternidade há cinco anos. Em 2022, deu início ao MamyCast, primeiro podcast de maternidade do Ceará, onde aborda pautas informativas sobre maternidade, gestação e infância

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"Teve filho? Agora aguenta!"

Muitas mulheres que não tiveram apoio algum no seu maternar e que, portanto, viveram uma maternidade extremamente pesada, e agora querem que as outras passem pelo mesmo, se recusando a dar apoio em caso de lazer
A rede de apoio da mãe (Foto: Reprodução/Pexels/Kristina Paukshtite)
Foto: Reprodução/Pexels/Kristina Paukshtite A rede de apoio da mãe

Você deve ter lido esse título e pensado: “que absurdo!”, acertei? Mas calma. Esse título não reflete o pensamento da autora da coluna. Ele foi retirado de um dos comentários de uma postagem feita no Instagram do MamyCast, podcast de maternidade que faço no O POVO há 3 anos. E, sim, é um grande absurdo, mas é real. O número de mulheres e mães defendendo esse pensamento assustou.

A pauta surgiu durante um almoço com outras amigas mães. Conversávamos sobre uma questão muito séria e que invade muitas maternidades: muitas vezes, temos quem se dispõe a ficar com a criança para trabalharmos, o que é muito louvável e importante, mas muitas vezes se resume a isso. Caso não haja trabalho e precisemos de uma ou duas horas para fazer algo de lazer ou autocuidado, as respostas negativas surgem: “se quisesse ter vida de solteiro, não tivesse tido”, “não sou babá de ninguém”, “quem pariu Matheus que balance), dentre outros.

E sabemos o quanto a maternidade exige da gente. O nosso dia a dia é composto por trabalho em -quase - todos os momentos. Quando não estamos no trabalho (empresa), estamos trabalhando em casa, muitas vezes. E entendemos que isso faz parte mesmo do maternar. É cansativo e exaustivo mesmo cuidar e educar outro ser humano.

Não estamos, absolutamente reclamando desse estilo de vida, mas sim das limitações e da falta de um olhar mais humano sobre nós. Gostamos de ser mães, mas não somos só isso. A mãe e o pai não deveriam ser os únicos e exclusivos responsáveis por esse pequeno ser que tanto demanda. A história da aldeia não é só história. É real. Precisa mesmo de uma aldeia para criar uma criança. Mas uma aldeia saudável, e não doentia e cheia de rancor e mágoa.

Ao fazer um post sobre isso no Instagram do MamyCast, choveu comentários de outras mães que acharam absurdo o simples fato de mães (sim, elas mesmas) quererem ter algum momento de lazer fora da maternidade.

Muitas mulheres que não tiveram apoio algum no seu maternar e que, portanto, viveram uma maternidade extremamente pesada, e agora querem que as outras passem pelo mesmo, se recusando a dar apoio em caso de lazer: “eu criei meus filhos sozinha, trabalhando, e para onde eu ia, o levava”. Privação de lazer virou sinônimo de orgulho entre essas mães, que pensam que quanto mais exaustas, melhores mães são.

De de alguma - ou de muitas - formas, essa crença acaba repercutindo nos próprios filhos. Nessas crianças. Que vão crescer sentindo esse “peso”, ou achando que são um fardo para os pais. Esses pais que acharam lindo a romantização do cansaço e que lá na frente vão cobrar desse jovem ou adulto o tempo e a vida que lhes foi dedicada por completo.

É preciso quebrar esse ciclo. A família da criança como um todo precisa abraçar essa causa. E olhar para essa mãe, para esse casal, não como pessoas que “erraram” ao ter filhos, ou como “folgados”, mas como duas pessoas que estão certamente cansadas e que precisam de um escape. Seja ele qual for, da forma que for.

Dizer que o lazer da mãe só é possível para rede de apoio paga é reduzir essa necessidade a um privilégio só para quem tem condições financeiras para isso. Os prejuízos desse ciclo vicioso são perigosos dentro da maternidade e respingam em toda a sociedade.

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