Fortaleza medicada: Por que temos tantas farmácias na cidade?
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Sou jornalista de formação. Tenho o privilégio de ter uma vida marcada pela leitura e pela escrita. Foi a única coisa que eu fiz na vida até o momento. Claro, além de criar meus três filhos. Trabalhei como repórter, editora de algumas áreas do O POVO, editei livros de literatura, fiz um mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC). Sigo aprendendo sempre. É o que importa pra mim
Fortaleza medicada: Por que temos tantas farmácias na cidade?
Estudos apontam para a medicalização da existência no mundo contemporâneo o que pode explicar o crescente número de farmácias no País e, particularmente, em Fortaleza
Foto: FCO FONTENELE
Números de farmácias aumentam no País
A quantidade de farmácias em Fortaleza não para de crescer. Novas lojas de megaempresas disputam cada quadrante nos bairros mais abastadas, enquanto marcas populares abrem espaços e se expandem pelas periferias da cidade. Os últimos dados sobre a quantidade de farmácias na Capital, de junho de 2024, da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo revelaram um total de 996 unidades, numa proporção de 4 farmácias para cada 10 mil habitantes. Fortaleza tem a segunda maior quantidade de farmácias do Nordeste. Salvador lidera o ranking.
E você pode pensar: “Agora, ela vai comparar com as livrarias existentes na cidade”. Errou. Não é mais possível fazer esta comparação, embora tenha encontrado 12 livrarias em Fortaleza – exceto papelarias –, juntando as que funcionam nas ruas e as que estão nos shoppings. Isso também pode não ter a ver com as compras de livros online. Parece que poderia haver muito mais livrarias na cidade e as farmácias seguirem se multiplicando da mesma forma.
Então, a gente se pergunta: por que esse movimento crescente de lojas de medicamentos e produtos e serviços ligados à saúde? Recentemente, li ”A Medicalização da Existência", de Rogério Paes Henrique, e pensei que muitas ideias desse texto apontam para uma reflexão sobre a mudança radical pela qual estamos passando quanto aos cuidados com o corpo devido ao desenvolvimento da tecnologia médica e da farmacologia que compreende toda a nossa vida. Muita coisa que encontrava solução em casa com chá de casca de laranja, de flor do maracujá, de folha de hortelã ou alho e limão, além de banha de galinha, lambedor ou simplesmente descanso e comida leve foi substituída por medicamento.
Todas as fases da vida estão sendo mediadas pela medicina e farmacologia desde o nascimento até a morte. A infância, a adolescência, a fase reprodutiva, as questões sexuais e de gênero, a menopausa e a velhice na contemporaneidade têm a medicalização como uma de suas mediações e não é necessário que o indivíduo esteja com alguma doença. A prevenção também nos leva às farmácias com uma frequência muito maior do que a própria doença.
Segundo o autor, que se baseia em vários estudos, a medicalização está para a sociedade atual como a igreja estava para Idade Média. Questões que no passado, por exemplo, tinham conotação moral, hoje, são resolvidas cientificamente por meio de medicação. Ele cita o pecado da gula como referência.
Em resumo: a medicalização e a biomedicalização são as novas formas de controle social. O corpo está em máxima evidência. É necessário medicá-lo, ajustá-lo, mantê-lo saudável sempre e prevenir males vindouros por toda a existência. No entanto, isso também é complexo e o tema da saúde nunca esteve tão em euforia.
A mente está dando conta de todas essas exigências do corpo? Os problemas de saúde mental estão explodindo em todas as áreas da atuação humana. E embora exista uma farmacologia pronta para cada sintoma de mal estar, algo aponta para os excessos da medicalização que não conseguem dar conta do humano contemporâneo.
Após ler esse texto, imagino agora que as farmácias se transformaram nos novos templos: lugares de cura e de esperança.
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