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"Não tem sentido consulta pública para questão de saúde", diz pediatra

A médica Olívia Bessa, em entrevista ao O POVO, fala sobre como a Covid-19 tem atingido crianças, alerta para possíveis complicações da doença e destaca a importância da vacinação infantil
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Dra. Olívia Bessa, médica pediatra e diretora de Pós-Graduação da Escola de Saúde Pública do Ceará.
 
Crédito: Divulgação/ESP/CE
 (Foto: Divulgação/ESP/CE)
Foto: Divulgação/ESP/CE Dra. Olívia Bessa, médica pediatra e diretora de Pós-Graduação da Escola de Saúde Pública do Ceará. Crédito: Divulgação/ESP/CE

Nas próximas semanas, o Brasil começará a repetir cenas que já estão ocorrendo em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França e Itália. Crianças com idade entre 5 e 11 anos poderão receber formulação apropriada da vacina contra a Covid-19 produzida pela farmacêutica Pfizer. O início da campanha de vacinação infantil contra a doença será marco importante no enfrentamento à pandemia, uma vez que as crianças ainda estão vulneráveis aos riscos da doença e podem transmiti-la para outros grupos.

Em entrevista ao O POVO, a médica pediatra Olívia Bessa, diretora de Pós-Graduação da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE) e professora do curso de Medicina e do programa de Mestrado em Ciências Médicas da Universidade de Fortaleza (Unifor), falou sobre a segurança da vacinação infantil contra a Covid-19 e deixou um recado para pais e responsáveis por crianças nessa faixa etária: "Vacinem seus filhos, seus netos, seus sobrinhos. As crianças merecem isso, é até uma questão de cidadania, nós termos uma vacina disponível e a ofertarmos para essa população que precisa."

O POVO - Como a Covid-19 tem atingido o público infantil no Ceará ao longo desses dois anos de pandemia?

Olívia Bessa - A população infantil também foi atingida por essa infecção, como as demais faixas da população. O que a gente observa é que é uma faixa etária que tem tido quadros mais leves, muitas vezes assintomáticos, mas que eventualmente podem evoluir para um desfecho não favorável, desfechos mais graves, e eventualmente também evoluir com letalidade. Então, comparadas à população adulta, elas têm realmente uma evolução de menos gravidade, muitas vezes assintomático, mas em alguns casos a gente tem visto também essa evolução mais grave, com necessidade de internamento e eventualmente também evoluindo para desfecho não favoráveis, como a letalidade.

OP - Há também a Síndrome de Kawasaki, certo?

Olívia - Sim, essa é uma evolução que a gente tem visto no Brasil todo; na verdade, no mundo inteiro, que é a Síndrome Inflamatória Multissistêmica associada à Covid-19. Chamamos de Kawasaki-like porque ela tem característica da síndrome de Kawasaki. Essa evolução pode acontecer, é um caso que tem uma certa gravidade. Temos visto algumas crianças, inclusive estamos nesse momento fechando um processo de pesquisa para avaliar melhor os casos aqui de Fortaleza, do Ceará. Estamos analisando esses casos justamente para entender melhor que síndrome é essa. Mas percebemos que é uma síndrome que tem uma gravidade, as crianças precisam de internamento. Eventualmente, internamento em Unidade de Terapia Intensiva, o que demonstra, realmente, que temos que ter essa preocupação com essa faixa etária também. É uma síndrome que está associada à população infantil e de adolescentes, e que eventualmente também tem essa evolução mais grave, precisamos estar atentos a isso também.

OP - O que ela pode causar nas crianças?

Olívia - O que se tem observado são crianças que tiveram Covid-19 nas duas ou três semanas anteriores e começam a apresentar sintomas gastrointestinais, com dor abdominal, com conjuntivite, com alterações de pele. E, eventualmente, elas podem apresentar também alterações hemodinâmicas. Aí, essas sim evoluem com maior gravidade. O que a gente tem visto é que a evolução, apesar da gravidade do quadro, é benigna, a maioria das crianças saem bem, com raros relatos de óbito, mas é um quadro bem grave, que eventualmente precisa de internamento de leitos de UTI também.

OP - E em relação a sequelas em crianças, elas têm sido comuns?

Olívia - É uma doença nova. Temos pouco de avaliação para ter uma noção muito exata de como vai ser essa evolução de longo prazo. Na criança, não temos visto muitos casos do Covid longo, esse Covid crônico, como no adulto eventualmente tem aparecido — pessoas que continuam com alterações cardiovasculares, pulmonares, fadiga crônica, alterações neurológicas ou até psíquicas. Na criança, não temos visto por enquanto, mas o que tem acontecido? A criança, até pouco tempo atrás, não não estava entrando nessa cadeia, vamos dizer assim, de transmissibilidade, porque estavam em casa, confinadas. De um tempo para cá que foi liberada a volta para as escolas. O vírus vai procurar aquele ambiente que for melhor pra ele, porque ele quer sobreviver. Então, se tem uma população que não tem vacina, que não tem anticorpo, é lá que ele vai buscar infectar. Então, a gente não sabe como é que vai se comportar, nesse momento. O que estamos vendo em outros países? Nos Estados Unidos (está ocorrendo) um número imenso de internamentos na faixa etária pediátrica, e isso pode acontecer aqui no Brasil também. E aí sim vamos ter um número de crianças com infecções mais sintomáticas, mais graves, que eventualmente pode evoluir da mesma forma que o adulto eventualmente evolui, com essa essa Covid longa, crônica.

OP - Então, isso que preocupa, por exemplo, no cenário de retorno às aulas?

Olívia - O que nos preocupa nesse cenário: primeiro, as crianças com menos de 12 anos não foram vacinadas. Essa é uma população mais suscetível. Ou seja, uma população que não tem anticorpo nenhum porque não tomou vacina, então é uma população que tem maior possibilidade de ser infectada. Outra coisa importante: é uma população que tem uma vulnerabilidade, porque o sistema imune da criança vai se desenvolvendo depois que ela nasce. Da mesma forma que a criança vai crescendo, se desenvolvendo no campo do desenvolvimento neurológico, motor, linguagem, também o sistema imune está em fase de desenvolvimento. Ou seja, é um momento em que ela tem mais vulnerabilidade com as doenças, não tem um sistema imune para responder prontamente. Então, ficamos preocupados porque é uma população que tem essa vulnerabilidade, que está mais suscetível, com uma cepa (a variante Ômicron do Sars-Cov-2) extremamente transmissível, que está sendo comparada à mesma transmissibilidade do sarampo, ela tem uma capacidade de transmissão muito grande. E não sabemos ao certo como isso vai se comportar no nosso cenário.

Já, já começam as aulas, (com) o risco de aglomerar essas crianças. Criança pequena talvez não utilize a máscara de forma adequada, aquelas orientações não-farmacológicas de segurança — uso de máscara, lavagem de mãos, uso de álcool gel — na população infantil são um pouco mais delicadas, porque ainda não têm essa consciência da necessidade, e em um momento em que elas não estão vacinadas ainda. Elas podem evoluir com quadros leves? Podem. Com quadros assintomáticos? Podem. Mas um percentual pode evoluir com quadros mais graves. É nesse sentido que a gente se preocupa, tanto do ponto de vista individual, de cada criança, mas também o risco de ela infectar, por exemplo, a família, as pessoas do entorno, pessoas que também têm vulnerabilidade. Nesse sentido coletivo, também nos preocupa.

OP - Com a vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos aprovada pela Anvisa, como a senhora percebe a importância da vacinação das crianças e a expectativa para essa campanha começar?

Olívia - Vacina faz parte do cotidiano de toda criança. Toda família já tem, vamos dizer assim, uma familiaridade com essa questão da vacina. A criança nasce e, antes de sair da maternidade, já recebe duas vacinas, a BCG e a Hepatite B, por exemplo, e ao longo do primeiro ano ela recebe várias vacinas. Isso faz parte do nosso cotidiano, já estamos acostumados com isso, sabemos a importância da vacina, considerando essa questão mesmo da vulnerabilidade da criança. Essas vacinas protegem contra doenças graves, doenças importantes. O nosso Programa Nacional de Imunização, o PNI, é reconhecido no mundo inteiro, isso faz parte, vamos dizer assim, do manejo da criança. Em toda consulta da criança, a gente conversa com os pais sobre vacina. E a vacina contra a Covid-19, que foi recentemente autorizada pela Anvisa, está sendo feita em vários cantos do mundo, com segurança, isso dá pra gente uma segurança maior.

Como pediatra, temos que compreender essa inquietação das famílias, e temos que estar bem abertos para tirar todas as dúvidas, para dar essa segurança, mas é uma vacina que tem um padrão de segurança muito bom, já foi feita em milhões de crianças no mundo todo. Só nos Estados Unidos, 8 milhões de crianças nessa faixa de idade já se vacinaram. Já foi comprovada, realmente, essa segurança. Então, é muito importante vacinar essas crianças para evitar que elas adoeçam, individualmente. Lembrando que um processo de adoecimento na família causa muito desgaste para a criança e para os familiares. E também a questão coletiva. Quanto mais pessoas vacinadas, maior padrão de proteção coletiva nós vamos ter.

OP - Como a senhora falou, a vacinação infantil é uma prática corriqueira no PNI. Como avalia a forma como a vacina da Covid-19 foi inserida no plano de vacinação contra a Covid-19 pelo Ministério da Saúde, com a adoção de uma consulta pública e depois de uma audiência pública?

Olívia - Estamos diante de uma doença que tem um padrão muito complexo, muito difícil e em um contexto brasileiro de muito óbitos. Eu acho que essas medidas retardaram o processo de vacinação. Não tem o menor sentido você fazer uma consulta pública para uma questão de saúde pública. Eu acho que tem que ter medidas de segurança, sem dúvida nenhuma. A Anvisa é um órgão que tem essa característica, é um órgão técnico, que tem critérios bem rigorosos, que fez essa avaliação. Nós temos avaliação de outros órgãos internacionais, americanos, o órgão europeu correspondente à nossa Anvisa adotou e autorizou a vacina. Então, temos um cenário de segurança muito grande que essas ações que o Ministério fez retardaram o início da vacina. E nesse momento agora foi muito muito emblemático, porque estamos para começar as aulas.

Essa vacina pode ser dada com intervalo de três semanas entre a primeira e a segunda dose. Imagina se tivéssemos começado a vacinar nossas crianças no finalzinho de dezembro, começo de janeiro. No início das aulas, em fevereiro, já teríamos completado o calendário vacinal das crianças e elas poderiam voltar seguramente para suas atividades letivas. O retardamento do início dessa campanha pode ter um impacto na evolução da transmissão dessa doença. Então, acho que não foi um caminho muito acertado. Acho que retardou o início dessa vacina nessa população, com todas essas características que a gente já comentou, criou uma certa insegurança na população — essa questão da confiabilidade da vacina, a gente tem percebido isso, muitas vezes por conta dessas ações, dessas medidas, e, eventualmente, até fake news. E isso é muito ruim. Todo mundo perde. A população perde, nossas crianças perdem, e no final podemos ter desfecho altamente desfavoráveis, como a gente teve. Nós temos indicadores que falam por si.

OP - Temos visto tanto na audiência pública quanto em redes sociais e até pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, discursos contrários à vacinação desse público. Isso pode atrapalhar a campanha de vacinação infantil?

Olívia - Sem dúvida. Estamos diante de uma doença nova pra todos nós, fomos convivendo com ela e aprendendo ao mesmo tempo. A princípio, não sabíamos direito quais eram os sintomas, quais as medidas efetivas contra ela. Isso para os profissionais da saúde, pesquisadores e gestores. Da mesma forma, para a sociedade como o todo. Muitas dúvidas em relação à doença que um posicionamento de instituições que deveriam esclarecer, trazer as informações baseadas na Ciência, na melhor evidência, têm, ao contrário, colocado dúvidas. E isso dá insegurança, (cria) um cenário de insegurança que a gente não precisa no momento. Ao contrário, temos que acolher as famílias, trazer as melhores informações, divulgar, para que tenhamos um número cada vez maior de pessoas vacinadas.

Estamos em um cenário, hoje, em que tem pessoas que não tomaram a primeira dose da vacina, muito por conta dessa disseminação mesmo de insegurança, de negacionismo. Isso atrapalha bastante. Tanto individualmente, porque temos visto também pessoas que se negaram a se vacinar, eventualmente contraem a doença, contraem a doença grave, eventualmente evoluem para óbito. Muitas vezes vemos no noticiário. Como tem impacto coletivo também. As pessoas que moram com você, que convivem com você, eventualmente também se contaminam. Então, temos que ter também essa postura de civilidade, de cidadão que vive em uma sociedade.

Temos que pensar coletivamente, e a vacina é uma medida que tem esse perfil. Você se imuniza, individualmente; se protege, individualmente; e também está protegendo coletivamente as pessoas. Porque quanto mais pessoas se vacinam, temos um padrão de proteção maior, diminuímos a ocorrência de novas cepas. Precisamos trabalhar coletivamente, sejam as instituições federais, os órgãos de governo estadual, municipal e a própria população. São várias medidas, várias ações, e vamos conseguir amenizar os efeitos dessa pandemia.

OP - Como pediatra, a senhora tem percebido essa falta de segurança nas famílias, em relação à vacina?

Olívia - Há pouquíssimo tempo, ninguém queria saber quem era o fabricante da vacina, a gente não tinha essa preocupação, os pais não tinham. Obviamente, nós orientávamos: “Você vai vacinar com essa vacina, pode ser que tenha um efeito, a criança pode ter uma febre entre 24 horas e 48 horas, pode ter uma dorzinha no braço”. São efeitos que toda vacina tem. Mas hoje temos uma percepção de que a população está mais insegura. São preocupações que não víamos antes. Com certeza isso é decorrência desse cenário que temos percebido hoje, de fake news, a rede social trazendo informações equivocadas, informações que não traduzem a evidência científica. Isso é muito ruim, causa uma insegurança, e os pais naturalmente não vão sentir a mesma tranquilidade de levar seus filhos para vacinar como faziam antigamente. É muito importante que a gente esteja atento a isso, que traga informação, tantos profissionais da área da saúde, a própria imprensa tem trabalhado muito trazendo informações para a população, para que realmente a gente possa vacinar o maior número de crianças e a população em geral, não só a população infantil, mas população como todo.

OP - Que mensagem a senhora deixaria para os pais que estão em dúvida sobre levar ou não os filhos para tomarem a vacina contra a Covid-19?

Olívia - A primeira coisa: a vacina é uma das principais ações de controle de doenças. Então, levem seus filhos para se vacinar, com toda tranquilidade. Muitas crianças já se vacinaram, no mundo todo. A grande maioria sem nenhuma reação adversa importante. Fiquem bem tranquilos, porque a vacina é segura, ela pode ser dada com a maior tranquilidade, e a doença, não. Nós não sabemos como a doença vai se comportar no seu filho. Pode ser uma doença que não tenha sintomas, pode ser uma doença que tenha sintomas leves, mas eventualmente pode ser uma doença que evolua com gravidade, letalidade, e é tudo que não queremos. Temos percebido que a doença se comporta de forma diferente em cada indivíduo, e a vacina é uma forma bastante efetiva de proteger das formas graves e de óbitos. Ela tem mostrado isso. E, na criança, com efetividade de mais de 90%. Isso é ótimo. É uma forma de ficarmos bem tranquilos e protegermos nossos filhos. Então, vacinem sim. Vacinem seus filhos, seus netos, seus sobrinhos. As crianças merecem isso, é até uma questão de cidadania, nós termos uma vacina disponível e a ofertarmos para essa população que precisa.

 

DADOS EM CRIANÇAS

Segundo o Boletim Epidemiológico Especial: Covid-19 do Ministério da Saúde referente à semana epidemiológica 45 de 2021 (período de 7 a 13 de novembro de 2021), até o dia 13 daquele mês o Brasil haviam sido notificados 443 casos e 23 óbitos por Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) temporalmente associada à Covid-19 entre crianças de 5 a 9 anos. Na faixa de 10 a 14 anos, foram 280 casos e 19 óbitos até aquela data. No Ceará, segundo os dados do Ministério, em crianças de 5 a 9 anos, tinham sido contabilizados 18 casos dessa complicação da Covid-19 e nenhuma morte. Entre os jovens de 10 a 14 anos, 19 casos e 2 óbitos.

Fonte: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/boletins-epidemiologicos/covid-19/2021/boletim_epidemiologico_covid_89_23nov21_fig37nv.pdf

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