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Personagem da série documental "Mainha - com a morte nos olhos", produção do O POVO , o delegado Luiz Carlos Dantas, 62, afirma que a prisão do pistoleiro Idelfonso Maia Cunha - o Mainha, em 1988, não representou o fim da pistolagem no Ceará como foi alardeado. No entanto, na época, foi um freio para mandantes do crime por encomenda no território cearense. Confira a conversa com o delegado Dantas. (colaborou Euziane Bastos/Especial para O POVO)
O POVO - O que representou a prisão do pistoleiro Idelfonso Maia Cunha, o Mainha, em 1988?
Delegado Luiz Carlos Dantas - A prisão do Mainha teve um significado muito grande não somente para a Polícia Civil do Estado do Ceará, mas para toda a Polícia Civil brasileira. Ele (Mainha) ficou conhecido nacionalmente quando foi capa da revista ISTOÉ, em 1983, e atingir o propósito de prendê-lo, para a polícia do Ceará, significou um marco. Uma demonstração de que efetivamente fomos capazes de, depois de 10 anos de muitos obstáculos, conseguir prendê-lo. Portanto, compreendo que alguns historiadores considerem a prisão como um marco para a história da Polícia Civil do Ceará. Já em 1985, 1986, prender Mainha seria quase como um prêmio. Então, muitas incursões foram realizadas. Posso citar duas que ficaram na história, uma que aconteceu em Quixadá - que dizem que foi uma fuga cinematográfica, da qual eu não participei. Mainha disse que não se entregaria e que antes de ser preso se mataria. A outra tentativa foi fora do Estado, no interior do Pará.
O POVO - Como foi a operação para prendê-lo em Quiterianópolis, no Ceará?
Delegado Dantas - A prisão do Mainha foi resultado de muitos anos de trabalho coletivo, por meio da coleta de formações de muitas instituições policiais do Nordeste. Nós não demos nenhuma trégua a ele e o caçamos em diversos Estados. Contávamos também com a determinação do próprio governo Tasso Jereissati (PSDB) de prendê-lo. Ele (o Governo) confiou na Polícia Civil e nos ofereceu as condições necessárias para que pudéssemos investigar locais onde ele (Mainha) pudesse estar homiziado e prendê-lo. Nas últimas ações que culminaram na prisão dele, participamos eu, o delegado Francisco Crisóstomo e o então comissário de polícia José Lopes Filho — hoje delegado de Polícia Civil no município de Caucaia. Toda a ação foi projetada a partir de informações trazidas a nós pelo inspetor de polícia Antônio Marcondes de Oliveira, que não viajou conosco para prendê-lo. Oliveira teve uma participação efetiva no que diz respeito à coleta de informações sobre a identidade que o Mainha estava usando, sobre o local onde ele estava escondido e sobre o sobrenome falso que ele estava usando. No momento da prisão, ele disse que estava havendo um equívoco e que o nome dele era Paulo. Eu perguntei: Como é o nome do senhor? Ele disse: 'Meu nome é Paulo'. 'É Paulo Pereira Morais?', perguntei. Ele respondeu 'exatamente'. Então, eu disse: "É o senhor mesmo, o senhor está preso".
O POVO - Qual a importância do registro dessa história pela série "Mainha - com a morte nos olhos", em cartaz no O POVO , para a memória da história policial no Ceará?
Delegado Dantas - Eu penso que toda experiência significativa, como foi a prisão do Mainha, deve ser valorizada e preservada. Acho que a preservação da história da Polícia do Ceará, em um determinado contexto, contribuirá muito com a formação cultural de hoje e de amanhã. Principalmente considerando as dificuldades materiais e as dificuldades de pessoal que tínhamos naquela época. É uma grande maneira de demonstrar e comparar a cultura daquela época com a cultura atual e a cultura futura.
O POVO - Por que se disse na época que a pistolagem no Ceará havia se acabado com a prisão de Mainha?
Delegado Dantas - Eu, particularmente, nunca cheguei a me manifestar sobre a pistolagem ter acabado, mas eu sei que saíram muitas matérias sobre o assunto. Isso aconteceu não somente por conta da prisão do Mainha, mas por causa das prisões de vários outros pistoleiros em vários municípios do Ceará. Apesar disso, ficou comprovado que a pistolagem não tinha acabado, o que houve foi apenas uma mudança muito grande no comportamento dos mandantes. Eles ficaram mais apreensivos e mais preocupados quando viram o sucesso do trabalho da polícia. Então podemos dizer que, com isso, houve uma diminuição dessa prática criminosa.
O POVO - Por que era tão difícil prender Mainha? Ele, inclusive, dizia que estava na maior parte do tempo da vida dele no Ceará, muitas vezes em vaquejada?
Delegado Dantas - Na época ficou demonstrado que o Mainha recebia a cobertura de pessoas que tinham muito dinheiro, fazendeiros, pessoas influentes na sociedade cearense e até funcionários de confiança do Governo do Ceará. Naturalmente, sem que o governador soubesse e sem que a Polícia Civil soubesse. A maior prova disso é que quando ele (Mainha) foi preso, ele era apontador de uma obra do Governo do Ceará no então distrito de Quiterianópolis, no município cearense de Independência. Ele usava o nome de Paulo Pereira Moraes e tinha um frigorífico. Ele era conhecido como doutor Paulo e, além do estabelecimento comercial, ele exercia a profissão de prático na área veterinária. Muitas pessoas o conheciam como doutor Paulo, acreditando que ele fosse formado em veterinária. O Mainha estava ali com o apoio de muitas pessoas que, infelizmente, o admiravam pelo que ele fazia.
O POVO - Quantos assassinatos a Polícia Civil conseguiu provar que Mainha cometeu?
Delegado Dantas - Não me recordo ao certo, mas eu penso que, somente aqui no Ceará, nós conseguimos provar 12 assassinatos. Dois desses o do ex-prefeito de Iracema (Expedito Leite, em 1977) e o do ex-prefeito do município de Pereiro, João Terceiro de Sousa. (Mainha foi condenado a 64 anos de prisão pela chacina de Alto Santo, ocorrida em 16/4/1983. Na ocasião, foram mortos João Terceiro, a mulher dele, Raimunda Nilda Campos, o motorista Francisco de Assis Aquino e o policial militar João Leonor de Araújo. Mesmo tendo confessado na Polícia Civil, ele foi inocentado em segundo julgamento. Além disso, Mainha matou os pistoleiros Altamiro Vieira Leite e Altevir Fernandes Sousa, no posto Universal/Alto Santo. E, também, o despachante Iran Nunes de Brito, em Fortaleza, e o agricultor Orismildo Rodrigues da Silva, em Quixadá).
O POVO - Por que a Polícia Civil não chegou aos autores da morte do Mainha, ocorrida em 2011?
Delegado Dantas - Eu acredito que o crime do Mainha não tenha sido solucionado porque ele está no rol daqueles crimes difíceis de serem solucionados. No contexto em que se apresenta a Polícia Civil do Ceará, apesar dos grandes avanços nos últimos anos, o seu efetivo ainda é muito reduzido e nenhuma delegacia, mesmo a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, tem a capacidade de colocar uma equipe inteira de policiais para investigar apenas um homicídio. Uma equipe investiga diversos homicídios concomitantemente, e essa falta de condições prejudica muito os trabalhos.
O POVO - Hoje, é mais difícil combater os matadores formados nas facções criminosas ou havia mais dificuldade com os "pistoleiros" do tempo do Mainha?
Delegado Dantas - É muito mais difícil combater os assassinatos que acontecem hoje do que aqueles assassinatos praticados por matadores de aluguel naquela época. Até porque aqueles pistoleiros emprestavam seus braços armados para satisfazer os interesses dos seus contratantes e não praticavam outra infração se não essa. Não só aqui no Ceará, mas em qualquer estado que solicitasse os serviços deles, muitas vezes através dos patrões. Hoje, essa bandidagem que se instalou consiste em pessoas que matam quando estão envolvidas com o uso de droga, com o tráfico de droga e são totalmente dependentes, capazes de matar por um tostão, por uma pedra de crack, por um papelote de cocaína, por uma trouxa de maconha ou por quase nada.
Os dois primeiros episódios de "Mainha - com a morte nos olhos" estão disponíveis no OP. Os capítulos são lançados às quintas-feiras.
Além do delegado Luiz Carlos Dantas, mais 14 personagens traçam o perfil de Idelfonso Maia Cunha, o Mainha. Os crimes e outras faces.
A série "Mainha - com a morte nos olhos", dirigida por Demitri Túlio, Arthur Gadelha e Luana Sampaio, tem quatro episódios.
Para produzir a série "Mainha - com a morte nos olhos", O POVO contou com a colaboração das tvs Jangadeiro e Cidade. As duas emissoras cederam registros de imagens do pistoleiro.
"Mainha: Com a Morte Nos Olhos": 2º episódio está disponível no O POVO+
Mainha - com a morte nos olhos
Pistoleiro Mainha tem história contada em série original do O POVO+