As manchas na pele características da hanseníase podem passar despercebidas pela maioria das pessoas, mas a doença é capaz de deixar sequelas físicas irreversíveis. No Ceará, foram notificados 1.889 casos de hanseníase em 2019, segundo balanço parcial da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Um número 11% maior do que o registrado no ano anterior. Um projeto realizado pela ONG NHR Brasil que procura interromper a transmissão da doença foi lançado na última quarta-feira, 4.
As atividades serão desenvolvidas em Fortaleza e Sobral, que lideram o número de casos no Estado, com 455 e 84 casos, respectivamente. 200 mil pessoas participarão da pesquisa, que se baseia na profilaxia para pessoas próximas de pacientes da hanseníase, chamadas de "contatos".
O epidemiologista e diretor nacional da NHR Brasil, Alexandre Menezes, explica que a pesquisa utiliza uma combinação de antibióticos que será ministrada em três doses, uma a cada 29 dias. "Já existem evidências a partir de outras pesquisas feitas pelo mundo que apenas a rifampicina, um dos antibióticos usados, protege cerca de 57% contra a doença. Esperamos que, com a adição desse novo antibiótico, a claritromicina, a cobertura aumente para 80%", diz.
A hanseníase é uma doença infectocontagiosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae e afeta, principalmente, a pele e os nervos de mãos, pés e olhos. Araci Pontes, diretora técnica do Centro de Dermatologia Sanitária Dona Libânia, referência no tratamento da doença no Estado, destaca que o período de incubação da bactéria pode levar de dois até dez anos.
Isso significa que o aparecimento dos sinais da doença pode se manifestar bastante tempo após a bactéria estar alojada no organismo. "Os principais sintomas são manchas de qualquer cor e em qualquer parte do corpo, com diminuição da sensibilidade ao calor e ao toque (dormência)", alerta Araci.
Muitas vezes, por falta de informação, pacientes infectados não-diagnosticados acabam transmitindo a hanseníase sem perceber por meio de gotículas de salivas, espirro ou tosse. O dermatologista Marco Túlio, do Hospital Universitário Walter Cantídio, ressalta que o diagnóstico precoce é indispensável no tratamento da doença.
Segundo ele, a cura pode ser completa se a hanseníase for identificada mais cedo. "É importante ter o diagnóstico precoce para evitar as sequelas, que vão desde a dificuldade em fechar os olhos até perda da visão, além de sequelas neurológicas e comprometimento das mãos e pés", finaliza.
Alexandre Menezes diz que, ao fim de um período de cinco anos, a expectativa é que aconteça uma queda de 50% no número de novos casos de hanseníase dentro das áreas do projeto. "Esperamos uma eliminação da doença enquanto problema de saúde pública e interrompimento da transmissão nesses locais", considera.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil fica atrás apenas da Índia no ranking mundial de hanseníase, contabilizando mais de 28 mil casos anualmente. O projeto atua nos dois países e ainda na Indonésia que, juntos, concentram 80% dos novos casos de hanseníase. O financiamento é da Loteria Nacional Holandesa por meio do Fundo dos Sonhos.
Principais sintomas
- Observe manchas brancas, avermelhadas ou cinzentas que aparecem na pele. A cor pode variar dependendo do tom de pele das pessoas.
- Nódulos e caroços podem ser identificados em estágios mais avançados da doença.
- A principal caraterística da hanseníase é alteração de sensibilidade na mancha ou no entorno da mancha dérmica.