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Médicos instalam cruzes na Praia de Iracema em homenagem às vítimas de Covid-19

Integrantes do Coletivo Rebento — Médicos em Defesa da Ética, da Ciência e do SUS montaram 28 cruzes, simbolizando os óbitos nos 26 estados e no Distrito Federal, além da subnotificação
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Protesto na Praia de Iracema, em junho de 2020, lembrou vítimas do coronavírus. (Foto: Aurélio Alves)
Foto: Aurélio Alves Protesto na Praia de Iracema, em junho de 2020, lembrou vítimas do coronavírus.

As pessoas que passaram próximo à estátua de Iracema Guardiã, na Praia de Iracema, na manhã deste sábado, 13, viram 28 cruzes instaladas na areia em homenagem às vítimas da Covid-19. O Ceará já contabiliza mais de 4,8 mil óbitos pela doença e o Brasil, mais de 41,8 mil. A ação fez parte de uma manifestação do Coletivo Rebento — Médicos em Defesa da Ética, da Ciência e do SUS e representa os óbitos nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Uma cruz extra, com a mensagem "Quem mais?", foi colocada simbolizar a subnotificação.

Os médicos também expuseram faixas contrárias ao presidente da República, Jair Bolsonaro. A maioria das mensagens recebidas pelos médicos durante o ato presencial foi de apoio, segundo o cirurgião Ramon Rawache. Ele explicou que a instalação permanecerá na Praia de Iracema com o objetivo de gerar reflexão crítica em quem encontrá-la. A manifestação contou também com a participação do músico Alan Kardec Filho, que, acompanhado da médica Paola Torres, interpretou músicas como "O bêbado e a equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc. Blanc foi uma das vítimas da Covid-19.

Além do ato presencial pela manhã, com participação dos integrantes que já se restabeleceram após contrair a Covid-19, a manifestação terá continuidade nas redes sociais. "Nós não podemos pregar o isolamento social e fazer aglomeração em um ato físico, então bolamos um ato quase completamente virtual", afirma a médica hepatologista e professora Elodie Hyppolito. Ao longo do dia, serão publicados vídeos com a participação de músicos. Na sexta-feira, 12, já havia sido publicado um vídeo de Rodger Rogério em apoio ao coletivo. O músico cearense também contraiu Covid-19 e recebeu alta em 24 de maio.

"(Nossa intenção é) que pelo menos seja um conteúdo tocante, que as pessoas possam pensar nessa mensagem que queremos dar", aponta Rawache. Essas mensagens do Coletivo incluem solidariedade às vítimas, reflexão sobre o futuro após a pandemia e homenagem aos profissionais de saúde. "Somos bem categóricos ao dizer que não é uma homenagem à categoria médica. É uma homenagem a todos os profissionais que compõem o sistema de saúde."

Outras pautas da manifestação do grupo foram o repúdio à atuação do Governo Federal na pandemia e a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). "Na maior emergência sanitária que este País já enfrentou, nós trocamos três vezes de ministro e estamos completamente desgovernados a nível federal", afirma Elodie Hyppolito. "O que temos, sabidamente, que funciona contra a pandemia é o isolamento social, e vemos, na verdade, um governo que sabota o isolamento social quando nega ou atrasa auxílio emergencial e quando promove aglomeração, que sabota inclusive os próprios profissionais de saúde", complementa Rawache.

A médica destaca ainda a intenção de, com a manifestação, conscientizar a população sobre a própria responsabilidade no atual cenário. "Às vezes, transferimos para o gestor a responsabilidade do que está acontecendo. E, se formos parar para refletir, a população também tem uma enorme parcela de culpa quando não adere às orientações de distanciamento, quando aglomera e quando sai sem máscara." Parte dos pessoas que passaram pela Praia de Iracema durante o ato do Coletivo Rebento estava sem máscara ou utilizando o item de maneira errada.

Acusações

Outra crítica feita pela hepatologista é sobre as acusações de que os números de óbitos no Ceará e no País são falsos. "Qualquer pessoa que tenha o mínimo de entendimento de o que é uma declaração de óbito e de como é feita uma notificação de um caso de Covid-19 entenderá a gravidade dessa suposição."

No Estado, o deputado André Fernandes (PSL) acusou, em maio, o secretário da Saúde do Ceará, Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho, o Cabeto, de pressionar profissionais de saúde para fraudarem atestados de óbito. Já em nível nacional, o empresário Carlos Wizard Martins, que havia sido convidado para assumir a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, afirmou que os dados sobre a pandemia seriam "fantasiosos". No último domingo, 7, ele anunciou saída do ministério.

Serviço
Redes sociais do Coletivo Rebento — Médicos em Defesa da Ética, da Ciência e do SUS

Facebook: coletivorebentomedicos

Instagram: @coletivo_rebento_

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