Reportagem

Relatos da pandemia no interior do Estado

Dois médicos e uma enfermeira falam sobre a experiência de lidar com a Covid-19 em Jaguaribe, Quixeramobim e Nova Russas
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Gabriel Falcão, 24, é médico e trabalha em Jaguaribe (CE) (Foto: fotos Acervo Pessoal)
Foto: fotos Acervo Pessoal Gabriel Falcão, 24, é médico e trabalha em Jaguaribe (CE)

Já era natural, para o médico Gabriel Falcão, 24, atender pessoas conhecidas no dia a dia de trabalho. Com a chegada da Covid-19 em Jaguaribe, isso tornou-se mais frequente e com casos mais graves. Um dia, por exemplo, um amigo próximo da família de Gabriel chegou à emergência com quadro de moderada gravidade e foi atendido pelo médico. Tratado inicialmente com cuidados domiciliares, o paciente foi internado e, posteriormente, transferido para uma unidade de maior complexidade, onde faleceu.

"Ver tudo isso acontecer rapidamente e encarar as nossas limitações é algo difícil. Claro que essa não é uma experiência que se restringe à pandemia de Covid-19, porém, é duro ter que passar por tantas experiências semelhantes em pouco tempo", conta. Trabalhando em atendimentos de atenção primária e de emergência no município, o médico relata que, antes da pandemia, atendia poucos casos de insuficiência respiratória. Com a Covid-19, chegou a intubar três pacientes em um plantão.

A primeira confirmação da doença em Jaguaribe foi em 3 de abril — enquanto a Capital teve os primeiros registros em 15 de março. Ter mais tempo para entender sobre a Covid-19, segundo Gabriel, possibilitou a identificação dos casos com mais rapidez. "Além disso, todos os médicos da equipe já haviam lido sobre a doença e já conheciam protocolos de atendimento e de suporte a esses pacientes. Essa foi uma oportunidade de preparação que nos foi dada."

Em Quixeramobim, a enfermeira Manuela Estevam de Souza, 38, conta que a equipe está atenta ao que acontece em Fortaleza. "Temos essa vantagem de estarmos pegando o que deu certo em Fortaleza e aplicamos aqui, seja tratamento medicamentoso ou condutas de melhoria na assistência", conta.

A enfermeira atua na UTI Covid do Hospital Regional do Sertão Central e coordena a Atenção Primária a Saúde (APS) no município. Com a experiência em acompanhar tanto os casos de menor gravidade, na APS, quanto os que agravam, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), os momentos "de glória" para ela são as altas. "É um dia de gratidão e muita felicidade de ver esses pacientes voltarem ao convívio familiar."

Para Manuela, o medo mistura-se com o desejo de "não cruzar os braços diante dessa situação". "O medo me ajuda a me proteger, a usar os equipamentos de proteção mesmo que me machuquem, que marquem meu rosto."

Já em Nova Russas, a chegada da pandemia coincidiu com o início da atuação profissional do médico João Lucas Ferreira Linhares, 21. O primeiro caso na cidade foi confirmado no dia 4 de maio, e, pouco antes, no final de abril, ele formou-se pela Universidade Federal do Ceará (UFC), no campus de Sobral. O retorno para a cidade natal já estava programado, mas foi acompanhado do desafio de lidar com o novo contexto.

"Sem dúvidas, é difícil começar a atuar em meio à superlotação dos sistemas de saúde e com uma quantidade grande de pacientes graves e potencialmente graves sob seus cuidados", afirma. Ele trabalha como plantonista no Hospital Municipal de Nova Russas e no ambulatório para pacientes com sintomas respiratórios da Policlínica do município, além de atuar no Programa Saúde da Família (PSF). Nos três locais, tem contato direto com pacientes com diagnóstico suspeito ou confirmado para a doença.

Da mesma forma que Gabriel, Lucas já prestou atendimento a pessoas conhecidas. "Um caso marcante foi o de uma paciente suspeita para Covid-19 que tive que prover uma via aérea avançada (intubação orotraqueal) junto com o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Conheço familiares dela e a via na cidade por morar perto de minha casa."

Uma das principais mudanças na rotina de Lucas foi na forma de lidar com os familiares, evitando contato para tentar impedir o contágio. O mesmo foi relatado por Gabriel Falcão. "Enfrentar os plantões cansativos e depois não poder desfrutar de relações sociais é complicado. Porém isso faz parte da situação geral, e todos estamos passando por isso juntos", conta o médico de Jaguaribe.

A enfermeira está desde março sem contato físico com os filhos — uma menina de 8 anos e um menino de 4 — e a mãe, de 70, apesar de permanecer em casa que eles. "Trabalho na atenção primária de segunda a sexta, em horário comercial, e tenho os plantões noturnos. Me manter mais tempo fora de casa ajuda a amenizar a vontade de abraçá-los e beijá-los", conta Manuela.

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