Na periferia de Fortaleza, mais precisamente no bairro João XXIII, oito famílias se abrigam em uma estrutura que muito se assemelha a uma escola infantil castigada pelo tempo. O que era para ser o pátio, virou um redário improvisado e área para escapar do calor da tarde.
As pequenas salas de aula viraram as casas onde os 13 adultos da mesma família e as mais de 18 crianças, incluindo um bebê lactente, se amontoavam entre roupas penduradas em varais, animais descansando no chão e lixo acumulado nos cantos.
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Poderia ser mais um retrato da pobreza de muitos fortalezenses, mas os que passam necessidade aqui são estrangeiros, mais precisamente indígenas da etnia warao, povo tradicional do Delta do Orinoco, na Venezuela.
Orlando Jesús Moreno, 40, líder do grupo, recebeu a equipe do O POVO sem saber que os Estados Unidos haviam lançado bombas em Caracas, distante 3,5 mil km de Fortaleza.
“Apenas a minha mãe mora lá. Nós nos falamos de vez em quando pelo Whatsapp, mas nem ela me falou nada, nem eu vi nada a respeito do que está acontecendo. Meu foco é a sobrevivência da minha família aqui em Fortaleza”, destacou.
Orlando explica que decidiu vir para o Brasil há cerca de seis anos, devido à precariedade na Venezuela, especificamente a falta de medicamentos, alimentação e escolas para as crianças.
“Espero um dia tirar a minha mãe lá, mas precisamos primeiro ter um abrigo ou local fixo para morar em Fortaleza, para que as crianças possam continuar estudando. Em outros estados brasileiros, há abrigos para os warao, mas em Fortaleza não tem”, apontou.
O grupo se mantém com o dinheiro do Bolsa Família e com trabalhos esporádicos, os “bicos”. Sem falar português, os adultos têm dificuldades na comunicação.
Orlando não sabe se a vida na Venezuela vai ficar melhor sem Maduro. Os outros adultos que ouviram da reportagem que o país deles seria governado provisoriamente por Donald Trump não pareceram ficar admirados nem quando foram informados de que o presidente venezuelano havia sido levado à força para os EUA.
“A gente vive como se fosse um barco na tempestade. Vocês podem até ir atrás das causas da ventania, mas quem está no barco só quer mesmo um porto seguro e ter o que comer”, resumiu.
Para ajudar a família de Orlando Moreno, os interessados podem entrar em contato pelo telefone 85 9186-5574.