Resumo
De segunda à sexta-feira, durante as manhãs, passageiros das linhas de ônibus 655 – Passaré / Messejana, 1203 - Messejana / BR 116 / Aldeota e 027 - Siqueira / Papicu / Aeroporto são conduzidos pelas ruas de Fortaleza sob o volante operado por Francisca Marília Lima do Nascimento, 39.
A profissional é uma das 27 mulheres a atuarem como motoristas de transporte coletivo regular na Capital, conforme levantamento do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) enviado ao O POVO. O número representa 0,95% do contingente de motoristas em atividade na Capital, que totalizam um universo de 2.829 trabalhadores.
Gerente administrativa do Sindiônibus, Maria José Luz avalia que o segmento é historicamente dominado por homens e que a inclusão de mais mulheres no setor exige também a desestruturação de uma cultura já consolidada. “É uma mudança gradual, ela tem que acontecer de uma forma gradual, sistemática e consolidada”.
Um outro obstáculo apontado por Maria José seria a pouca atratividade da vaga e a qualificação técnica específica exigida nos processos seletivos.
“Se a gente avaliar as vagas operacionais, falando exatamente do motorista, é uma função extremamente difícil, uma função que exige, além da qualificação técnica, também tem ‘n’ fatores de dificuldade, até do próprio mercado de trabalho. O sistema de transporte atravessa momentos de crises e dificuldades. Então, a própria atratividade da vaga, vamos dizer assim, ela não está no seu melhor momento”, pondera.
Dados do Relatório Anual de Segurança Viária, publicado pela Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), em 2024, revelam que 80% das mortes no trânsito envolveram pessoas do sexo masculino, enquanto 20% corresponderam ao público feminino.
Em nota ao O POVO, a AMC informou que a relação entre gênero e o risco de sinistros de trânsito é complexa e resulta de múltiplos fatores, destacando as diferenças na exposição ao tráfego e, sobretudo, os padrões comportamentais.
“Pode-se dizer que a maior incidência de mortes entre homens está diretamente associada à sua maior exposição no trânsito. De modo geral, observa-se um número significativamente maior de homens a conduzir veículos em atividades laborais, o que os coloca em situações de risco mais frequentes”, diz um trecho.
Conforme o levantamento do Sindiônibus, no que diz respeito aos cargos de gestão, há uma maior participação feminina. Ao todo, das 115 vagas do setor, 32 são ocupadas por mulheres, o que representa aproximadamente 27,8% do total de profissionais.
Para Maria José, o aumento da ocupação de mulheres em cargos de gestão é resultado de ações continuadas que buscam conscientizar as empresas sobre a importância da diversidade no quadro de funcionários.
“Para que a gente tenha um ambiente e profissionais que respeitem essa questão, que sejam preparados e entendam a importância dessa valorização, não só para as pessoas, que são o mais importante, mas também para o próprio negócio. O transporte coletivo, por natureza, ele atende a cidade, então ele é diverso e isso traz essa necessidade. É uma necessidade estratégica”, explica.
O recrutamento de mulheres no segmento do transporte coletivo urbano, segundo o Sindiônibus, é de responsabilidade das empresas, que possuem autonomia em seus processos de contratação, conforme os critérios técnicos exigidos para a função. Excelência que Marília Lima garante possuir.
“É a minha paixão, eu não eu não me vejo mais sem ser motorista de ônibus. Eu não me vejo em outra profissão. Só se Deus não quiser que eu não seja mais, porque essa é a profissão que eu escolhi e que eu vou me aposentar nela”, assegura.
A paixão surgiu ainda quando criança, sob influência do avô, com quem foi morar quando tinha 7 anos. Marília rememora que “Seu Geraldinho”, como o avô era conhecido entre colegas de profissão, começou a trabalhar no transporte coletivo urbano como cobrador e, em seguida, tornou-se motorista.
“O ônibus sempre foi minha paixão, desde de que eu me conheço por gente. Assim que eu vi que meu avô trabalhava no transporte, foi do do transporte urbano que ele sustentou a gente: a minha avó, a minha mãe e mais seis irmãos. Então foi através do transporte público que a gente tinha o que comer”, relembra.
A carreira de Marília como motorista de ônibus começou em 2015, inicialmente no setor de turismo, na empresa Gertaxi Turismo, onde permaneceu por 2 anos e 8 meses. Foi apenas em 2021 que ingressou no segmento do transporte urbano.
Curiosa, chegou a deixar de lado a profissão para experimentar vivências como condutora de carreta, época em que viajou por diversos estados brasileiros durante cinco meses, mas confessa: “Fui, vi como era, acabou que não me adaptei e voltei pra minha paixão: os ônibus”.
Ao longo de seus 10 anos de carreira, diz ter observado avanços quanto à inclusão e o acolhimento de mulheres no setor do transporte público. Segundo ela, as oportunidades para mulheres aumentaram.
“Quando eu comecei eram muito menos mulheres do que são hoje, com oportunidades que as empresas davam. O que mudou foi isso e em questão de ser mais respeitada dentro do ambiente de trabalho pelos colegas. Hoje em dia a gente é muito respeitada. Quando eu entrei aqui, os meninos me trataram super bem. Hoje em dia eu sou amiga de todos, e na outra empresa também. E antes a gente não tinha esse acolhimento deles e das pessoas. Era sempre um ‘não vai dar certo porque é mulher’”, compartilha.
Em relação às questões de segurança, Marília aposta em uma postura calma e cordial. Para ela, a criação de vínculos e proximidade com os passageiros é fundamental para inibir comportamentos agressivos e desencorajar comportamentos inadequados.
Sobre situações discriminatórias que já vivenciou ao longo dos anos, ela lamenta quando a desconfiança parte de outras mulheres. A motorista relembra quando uma passageira se recusou a subir no ônibus quando a viu atrás do volante. Ela também compartilha a alegria de outras mulheres que a celebram.
“Tem uma mulher que pega comigo lá na Praça das Flores e ela já vai subindo e dizendo: ‘Mulher, eu te acho tão linda dirigindo. Como é que tu consegue dirigir esse ônibus bem grandão todo dia?”, conta aos risos.
Para o futuro, Marília espera que mais mulheres passem a ocupar cargos no segmento do transporte público e consigam “um voto de confiança” das empresas. “Mulher no volante, alegria constante”, garante.
Os desafios e as satisfações de ser mulher motorista de ônibus em Fortaleza
O recrutamento de mulheres no segmento do transporte coletivo urbano, segundo o Sindiônibus, é de responsabilidade das empresas, que possuem autonomia em seus processos de contratação, conforme os critérios técnicos exigidos para a função. Excelência que Marília Lima garante possuir.
"É a minha paixão, eu não eu não me vejo mais sem ser motorista de ônibus. Eu não me vejo em outra profissão. Só se Deus não quiser que eu não seja mais, porque essa é a profissão que eu escolhi e que eu vou me aposentar nela", assegura.
A paixão surgiu ainda quando criança, sob influência do avô, com quem foi morar quando tinha 7 anos. Marília rememora que "Seu Geraldinho", como o avô era conhecido entre colegas de profissão, começou a trabalhar no transporte coletivo urbano como cobrador e, em seguida, tornou-se motorista.
"O ônibus sempre foi minha paixão, desde de que eu me conheço por gente. Assim que eu vi que meu avô trabalhava no transporte, foi do do transporte urbano que ele sustentou a gente: a minha avó, a minha mãe e mais seis irmãos. Então foi através do transporte público que a gente tinha o que comer", relembra.
A carreira de Marília como motorista de ônibus começou em 2015, inicialmente no setor de turismo, e em 2021 ingressou no segmento do transporte urbano.
Chegou a deixar de lado a profissão para experimentar vivências como condutora de carreta, época em que viajou por diversos estados, durante cinco meses, mas confessa: "Fui, vi como era, acabou que não me adaptei e voltei pra minha paixão: os ônibus".
Ao longo de seus 10 anos de carreira, diz ter observado avanços quanto à inclusão e ao acolhimento de mulheres no setor do transporte público.
"Quando eu comecei eram muito menos mulheres do que são hoje, com oportunidades que as empresas davam. O que mudou foi isso e em questão de ser mais respeitada dentro do ambiente de trabalho pelos colegas. Hoje em dia a gente é muito respeitada. Antes não tinha esse acolhimento. Era sempre um 'não vai dar certo porque é mulher'", compartilha.
Em relação às questões de segurança, Marília aposta em uma postura calma e cordial. Para ela, a criação de vínculos e proximidade com os passageiros é fundamental para inibir comportamentos agressivos e desencorajar comportamentos inadequados.
Sobre situações discriminatórias que já vivenciou ao longo dos anos, ela lamenta quando a desconfiança parte de outras mulheres. Para o futuro, Marília espera que mais mulheres passem a ocupar cargos no segmento do transporte público e consigam "um voto de confiança" das empresas. "Mulher no volante, alegria constante", garante.
Inclusão
Ao longo de 10 anos de carreira, Marília observa avanços quanto à inclusão e ao acolhimento de mulheres no setor