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Dois Dedos: Felipe Frutuoso, 1º lugar para professor no ITA: "A vida exige esforço e resiliência"
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Dois Dedos: Felipe Frutuoso, 1º lugar para professor no ITA: "A vida exige esforço e resiliência"

Nordestino radicado no Ceará desde a infância, o pesquisador relembra a trajetória marcada pela educação e transição energética — e destaca o peso simbólico de levar o Nordeste ao corpo docente do ITA
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 Felipe da Silva Frutuoso, integrante da Assessoria para Transição Energética do SENAI Ceará. Engenheiro aprovado em 1º lugar para professor do ITA.  (Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA Felipe da Silva Frutuoso, integrante da Assessoria para Transição Energética do SENAI Ceará. Engenheiro aprovado em 1º lugar para professor do ITA.

O Nordeste, em particular o Ceará, tem um histórico de destaque nas aprovações do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), superando frequentemente outras regiões em termos percentuais de alunos aprovados. Essa proeminência levou à decisão de estabelecer um segundo campus do ITA em Fortaleza, sublinhando a importância da região para a instituição e para o desenvolvimento tecnológico do País.

Por meio de uma vida construída em dedicação à pesquisa e educação, o engenheiro mecânico formado em Fortaleza, Felipe da Silva Frutuoso, 39, conquistou o primeiro lugar no concurso para professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), na área de Mobilidade Sustentável, para o novo campus que será inaugurado no Ceará.

Natural do Rio Grande do Norte e radicado no Ceará desde os 12 anos, Felipe destaca que a mudança, embora difícil, foi encarada pela família como uma nova porta de oportunidades. Desde então, o Estado se tornou o palco de suas principais conquistas acadêmicas e profissionais.

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A vaga de Mobilidade Sustentável era a única disponível no concurso em todo o País. O edital, lançado em julho, atraiu cerca de 15 candidatos disputando uma única oportunidade. A seleção faz parte do processo para a Divisão de Engenharia de Energia — Departamento de Gestão e Planejamento Energético (IEN-P), na área de Mobilidade Sustentável, destinada ao novo campus do ITA que está sendo construído em Fortaleza.

OP — Felipe, você poderia me falar um pouco do seu percurso, do que você estuda e o que você trabalha atualmente?

Felipe Frutuoso — Minha trajetória começou aos 15 anos, quando entrei no curso técnico em Manutenção Automotiva da então Escola Técnica Federal (hoje IFCE), paralelamente ao ensino médio. Em 2004, iniciei Engenharia Mecânica — parte na UFRN, parte na UFC e Universidade de Fortaleza (Unifor) — conciliando sempre estudo e trabalho, o que estendeu minha graduação para nove anos.

Nesse período, passei por diferentes setores da indústria e atuei no laboratório de combustão da Unifor, onde publiquei artigos e apresentei trabalhos. Meu TCC virou um estudo que transformava casca de castanha de caju em gás combustível.

Depois de formado, trabalhei quatro anos na Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), acompanhando a construção da usina. Decidi voltar a estudar e entrei no mestrado na Universidade Estadual do Ceará (Uece), pesquisando emissões veiculares e publicando novos estudos. Ainda no mestrado, comecei a dar aulas no Interior e depois retornei a Fortaleza para atuar na indústria metalúrgica e lecionar — algo que sempre quis.

Mais tarde, passei no Senai Ceará como especialista técnico. Em 2022, iniciei o doutorado em Engenharia Mecânica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dentro de um grande projeto nacional ligado ao Rota 2030, com pesquisa desenvolvida no Ceará. Com a bolsa de doutorado, deixei vínculos CLT, mas permaneci no Sistema Fiec como bolsista em transição energética, enquanto seguia a pesquisa.

OP — Você nasceu no Rio Grande do Norte e veio para o Ceará ainda criança. Como essa mudança influenciou sua formação pessoal e profissional e em que momento você percebeu que a engenharia seria o seu caminho?

Felipe Frutuoso — A mudança para o Ceará foi um divisor de águas para a minha família. Deixamos avós, amigos e toda a vida no Rio Grande do Norte, mas aqui encontramos oportunidades que talvez não tivéssemos lá. Minha mãe conseguiu emprego rapidamente, passou em concursos e cresceu como professora; meu pai veio transferido pelo Banco do Brasil; eu e meu irmão estudamos, fizemos cursos técnicos e seguimos para a engenharia — ele na produção, eu na mecânica.

Meu interesse pela engenharia surgiu cedo. Sempre tive certeza do caminho que queria seguir. Quando jovem, fui eu quem pediu ao meu pai para fazer a prova da Escola Técnica Federal. Acho que essa inclinação veio da família: meu avô era mecânico e tinha oficina; meu pai cresceu nesse ambiente antes de migrar para a área administrativa. Essa veia técnica acabou passando para mim.

No fim, a mudança para o Ceará abriu portas e consolidou nossa formação pessoal e profissional.

OP — Você atua diretamente com projetos de transição energética. Quais iniciativas recentes te deixam mais orgulhoso?

Felipe Frutuoso — No Senai Ceará, participei de um projeto que me orgulha muito: uma parceria internacional para transição energética, financiada com 400 mil euros pelo governo alemão e pela TÜV Rheinland. Nossa equipe escreveu o projeto e foi selecionada nacionalmente.

O foco era preparar o Ceará para operar com hidrogênio verde, especialmente amônia verde para exportação. Com os recursos, contratamos especialistas da Holanda, Inglaterra e Alemanha e criamos um curso inédito no mundo: Operações Portuárias com Hidrogênio Verde e Derivados, hoje ofertado pelo Senai.

Também participei de uma missão técnica na Alemanha e na Holanda, visitando os portos de Duisburgo, Hamburgo e Rotterdam, entendendo como eles estão se estruturando para receber o hidrogênio que será produzido no Ceará.

Foi uma experiência decisiva para minha formação e para o avanço da transição energética no Estado. Sou muito grato ao Senai, à Fiec e aos gestores que apoiaram esse trabalho. Todo esse aprendizado, sem dúvida, contribuiu para minha aprovação no ITA.

OP — Queria agora entrar no assunto do resultado da sua conquista no ITA. Como foi receber o resultado do concurso e qual o sentimento?

Felipe Frutuoso — Eu já tinha feito alguns concursos, como o do IFCE em 2016 e outro recente em Limoeiro, mas nunca consegui me dedicar como queria por causa do doutorado e do trabalho. Mesmo assim, vinha me preparando para novos editais e, principalmente, o ITA, que sempre me pareceu algo distante.

Em 2001, tentei até entrar em uma turma preparatória em uma escola particular grande de Fortaleza para o ITA e não consegui; era um sonho remoto.

O tempo passou, trabalhei no Senai — instituição onde eu sonhava estudar — e agora, mais de 20 anos depois, fui aprovado para ser professor do ITA. É surreal. A ficha ainda não caiu. É uma vaga única, nacional, e meu nome está lá no Diário Oficial. 

OP — O ITA é bastante conhecido por ser muito concorrido e rigoroso no País. Como você se preparou para esse processo?

Felipe Frutuoso — Minha maior preparação foi a trajetória inteira que construí. Engenharia é ampla, e a mecânica serve como base para várias áreas. Passei a vida estudando motores, biomassa e biocombustíveis — meus artigos, pesquisas e experiências sempre seguiram essa linha. Por isso, quando o concurso do ITA surgiu, o que contou mesmo foi essa bagagem acumulada ao longo de quase 40 anos.

Mobilidade sustentável já fazia parte do meu dia a dia, então, apesar da correria, consegui me preparar para as etapas O edital saiu em julho e a prova foi em outubro — tive só um mês para organizar viagem, hotel e estudos, tudo enquanto finalizava o doutorado. Quase desisti pelo custo e pela falta de tempo, além da dúvida sobre as cotas.

Mas minha orientadora, coorientadora e meus pais insistiram para que eu tentasse. Fui — e deu certo. Sempre digo que, quando é para acontecer, as coisas se alinham.

OP — O que significa, para você, ver nordestinos ocupando espaços de destaque em instituições de referência nacional?

Felipe Frutuoso — Para mim ainda é um pouco surreal. Eu mesmo ainda não tenho total dimensão do que significa ocupar esse espaço como nordestino e, digamos, cearense de coração — já vivo aqui há quase 30 anos.

Durante as conversas, tanto o presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante, quanto o Doutor Paulo (André Holanda, diretor do Senai), além da minha orientadora (Mona Lisa Moura de Oliveira), falaram da importância simbólica dessa conquista: não só por haver tantos alunos cearenses no ITA, mas agora também um professor vindo daqui.

Eles destacaram que ter um nordestino, alguém ligado às instituições do Ceará, ocupando uma vaga tão concorrida no ITA — especialmente no novo campus do Ceará — representa muito para o Estado e para quem trabalha comigo. Eu ainda não absorvi totalmente essa dimensão, mas reconheço o peso e fico muito honrado.

OP - Que conselho você daria para jovens nordestinos que sonham em seguir carreira na engenharia ou na pesquisa científica?

Felipe Frutuoso — Meu pai sempre dizia que nada cai do céu — e hoje vejo como isso é verdade. Muita gente perde oportunidades por achar que não vai conseguir, mas tudo começa com saber o que se quer e, depois, persistir. Vivemos numa época imediatista, em que desistimos rápido, mas as grandes conquistas levam tempo.

Eu estudo desde os 15 anos, passei pela graduação trabalhando, atuei na indústria, fiz pesquisa, mestrado e doutorado. Não sou super-herói; só fui constante. A colheita nem sempre é rápida.

Meu conselho é simples: não desista. A vida exige esforço e resiliência, mas quem persiste colhe resultados, mesmo que anos depois.

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