Não foi um plano de negócios, nem um sonho antigo com nome e logotipo. A Brena Gourmand nasceu de inspiração, improviso e insistência.
Quando as festas acabaram na pandemia e o modelo anterior deixou de existir, a saída foi levar o bolo para o cotidiano, para o café da tarde, para a mesa simples, para quem precisava de conforto num período de escassez.
Brena, educadora física, já fazia doces nos turnos vagos. O marido Juvencio Sales, que hoje se define como “copiloto da história”, acompanhou de perto a virada: perdas, ajustes, padronização obsessiva e a construção silenciosa de uma marca que prefere falar pelo sabor.
Sem a fundadora à frente das câmeras, a cozinha virou centro, o processo virou discurso e o público passou a nomear a experiência — “bolo para comer de joelhos”, “bolo covarde”, “8ª maravilha do mundo”.
Foi nesse mesmo movimento que surgiu o modelo de venda que hoje define a operação: o bolo itinerante. Sem loja física, a marca passou a circular pela cidade em carros próprios, levando o produto até onde o cliente está.
O endereço fixo permaneceu sendo a fábrica, no Eusébio; o endereço cotidiano, no entanto, passou a ser móvel. “Nosso endereço físico não tem parede”, resume Juvencio. “São os carros.”
A lógica do itinerante moldou também a cultura do atendimento. A orientação é simples e inegociável: se alguém pede para o carro parar, ele para — mesmo que isso atrase o próximo ponto.
Durante anos, Juvencio viveu essa rotina de perto, atendendo pessoas no meio do trajeto, em dias de sol ou de chuva, com filas se formando mesmo em condições adversas. Para ele, essa escuta direta do cliente é parte essencial do que a marca se propõe a fazer.
Mais do que um diferencial logístico, o carro se tornou identidade. A operação funciona como um drive-thru móvel: o cliente não precisa sair do carro, o atendimento acontece ali, com conversa, troca e entrega imediata.
O objetivo, segundo ele, é sempre o mesmo — fazer o bolo chegar à mesa, ao encontro íntimo da família, ao momento de partilha.
Hoje, a produção ultrapassa 120 mil bolos por ano, com crescimento contínuo há cinco anos. Mas, para quem sustenta a rotina da Brena Gourmand, o dado mais fiel ainda é outro: quando alguém volta para o segundo pedaço — e depois para o terceiro.
Juvencio Sales - Foi mais inspiração do que programação. A Brena fazia tortas, doces e docinhos nos turnos vagos. O cardápio já existia, mas não os bolos para café. Na pandemia, sem festas, ela decidiu vender bolo para o cotidiano.
Juvencio - Teve. O queijadinha. É o nosso Mickey Mouse, nossa Coca-Cola no deserto. Tudo começou com ele.
Juvencio - Quando começaram os jargões: “esse bolo é para comer de joelhos”, “é um bolo covarde”, “é a 8ª maravilha do mundo”. A frase veio do público e acabou virando slogan.
Juvencio - Quando ele atende quatro sensações: cor, textura, sabor e cheiro. E aí vem o “UAUUU”. Não é comer qualquer bolo, é comer o bolo.
Juvencio - Brena é nome próprio. Gourmand vem do glutão, de quem se satisfaz com comida. A Brena transforma matéria-prima em arte de sabor.
Juvencio - Respeito absoluto. Ela é general. Todo mundo quer fazer o melhor para mostrar que sabe fazer os bolos dela tão bem quanto ela.
Juvencio - Intuição. Ela testa até chegar no padrão que quer. Busca a perfeição do sabor, quer que a pessoa coma e diga “uau”.
Juvencio - Sou eu. Eu sou o teste de qualidade mais chato do planeta.
Juvencio - Sabe. Ela faz e manda vender sem provar, com certeza absoluta. O retorno vem do Instagram — hoje ele é uma realidade para nós.
Juvencio - O padrão. Trocar uma manteiga premium por outra muda o sabor. A gente prefere pagar mais caro a mudar a percepção do cliente.
Juvencio - A gente produzia em casa, no Eusébio, e usava o prédio da mãe da Brena como apoio. Começamos a vender muito e percebemos que o melhor caminho era estar perto do cliente. O carro virou nossa loja. Nosso endereço fixo é a fábrica; o endereço físico, sem parede, são os carros.
Juvencio - Ele não virou parte da identidade, ele é a identidade. Ele fala tão alto quanto a nossa missão: acordar todos os dias para fazer e servir os melhores bolos do mundo e levar isso até a mesa das pessoas.
Juvencio - Muitas. Uma que me emociona até hoje foi uma entrega numa área muito simples. A criança gritava de felicidade porque tinha chegado um bolo da Brena Gourmand na casa dela. Ali eu entendi que o nosso bolo não é só comida, ele transforma o ambiente.
Já outra foi um homem apaixonado pelo bolo de banana cremoso pediu que uma amiga comprasse um quando sentiu uma dor no peito. Comeu o bolo naquela tarde e morreu de infarto na madrugada. Foi o último desejo que ele realizou.