Conduzir sonhos é o combustível que move Francisca Marília Lima do Nascimento, 39. “Mulher no volante, alegria constante”, garante a motorista, que é uma das 27 que compõe a seleta lista de mulheres a operar um veículo do sistema de transporte coletivo regular de Fortaleza.
Atualmente, a Capital conta com 2.829 motoristas em atividade, desse total, apenas 0,95% são mulheres, conforme dados do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus).
A decisão pela carreira nasceu durante suas visitas ao trabalho do avô, conhecido entre os colegas de profissão como “Seu Geraldinho”. Apaixonada confessa pela vida na estrada, Marília compartilha os prazeres e dissabores de ser mulher em um setor majoritariamente masculino, relatando experiências, desafios e avanços observados ao longo de seus 10 anos de ofício.
O POVO - Como foi sua trajetória até se tornar motorista de ônibus? O que te motivou a escolher essa profissão?
Marília Lima - Na realidade, eu queria ser guarda municipal, mas aí eu não estava tão segura do que eu queria como guarda municipal. Um belo dia, meu avô começou a trabalhar de motorista de ônibus.
Eu comecei a morar com a minha avó quando eu tinha 7 anos. E ela me criou praticamente até ela falecer, até os meus 22. Quando eu completei 16 anos, eu já cheguei para ela, que eu não a chamava de avó, eu chamava ela de mãe. Eu chamava minha avó de mãe e eu disse: “Mãe, eu quero trabalhar para ajudar a senhora”, com 16 anos.
Ela disse: “Mas, menina, teu pai não vai deixar. Teu pai, mesmo separado da tua mãe, que ele era um pai muito rico, ele não vai deixar, não”. “Mãe, mas eu quero trabalhar para ajudar a senhora”. Aí ela disse: “Tá bom, você vai vender o quê?”. Aí eu disse: "Não, não vou trabalhar de vender não, eu vou é de casa de família mesmo”.
Aí eu comecei em casa de família. Lá próximo onde eu moro, no bairro, uma senhora me deu uma oportunidade e fiquei indo em casa de família durante dois anos, até completar meus 18 anos. Daí fui trabalhar de carteira assinada como auxiliar de corte numa empresa de indústria de roupas. Fui pulando de profissão, de auxiliar de corte, fui para ser auxiliar de cozinha, passei para cozinheira numa marmitaria, mas não era registrado, só o auxiliar de corte foi registrado na carteira.
Meu avô, pela recordação que eu tenho, ele já era do meio do transporte quando eu era pequena. Ele começou como cobrador de ônibus e depois passou para motorista. Só que eu não era muito chegada a ônibus assim para estar andando com ele. Era muito difícil, mas eu queria. Mas, por eu ser menina, a minha avó não deixava.
Eu já achava muito bonito os ônibus, achava aquela coisa muito diferente, linda. E eu ficava olhando, mas não me imaginava em um ônibus. Foi aí que Deus me deu o dom de ser motorista de ônibus e hoje eu me sinto uma profissional completa.
O POVO - Há quanto tempo você está na profissão e o que mais mudou na sua rotina?
Marília Lima - Eu acho que tem 10 anos que comecei como motorista de ônibus mesmo. Foi em 2015, só que não foi no urbano, foi no turismo, em uma empresa aqui próxima, na BR, a Gertaxi Turismo. Ela me deu uma primeira oportunidade e foi aí que passei 2 anos e 8 meses lá.
Eu fiquei lá de 2015 a 2018. Aí eu disse: “Agora vou trabalhar com um público diferente”, porque o turismo é sempre aqueles mesmos passageiros todos os dias. O urbano também tem, mas entra diferente, porque o turismo a gente leva funcionários de empresa para as empresas, então são os mesmos ali durante anos.
No urbano, a gente pega alguns repetidos, mas também a gente pega muito diferentes. Eu mesma já peguei até pessoas gringas, que vinham me perguntar informação e eu ficava na mímica: “Não, calma, vai dar certo”. E dá para se entender quando está aqui.
Teve uma vez que eu estava rodando no aeroporto, que é onde eu rodo de manhã, e tinha um casal com a criança e eles estavam lá na Raul Barbosa e não sabiam como chegar no aeroporto. E eles falavam e eu dizia: "Não, não tô entendendo. Tem alguma coisa escrita?". Ele mostrou, e quando ele mostrou a foto aeroporto internacional, eu falei: "Ah, agora pronto, vai dar certo. Senta aí”.
Depois desse dia, eu fui para internet tentar ver algumas palavras em inglês, que é para quando alguém chegar e perguntar e eu já saber.
O POVO - Você costuma perceber a reação dos passageiros ao verem que é uma mulher que está dirigindo o ônibus? Já passou por alguma situação marcante por conta disso?
Marília Lima - Percebo sim. Tem um pouco de preconceito, mas é da minoria. Algumas vezes, até agora, depois dos 10 anos de profissão que eu já tenho, eu ainda fico assim, poxa, pelo ser humano ser assim, né? Tanto o homem quanto a mulher.
Esses dias mesmo, uma mulher deu o sinal e quando ela viu que era eu, ela não subiu. E tipo, a gente que é motorista de ônibus, a gente aprende tudo, a gente vê tudo, a gente aprende. São várias profissões que a gente tem aqui na direção. Então, eu li o lábio dela, ela falando para outra mulher: “Vixe, é uma mulher”. A gente lê, a gente consegue. A outra subiu e ela não subiu. Aí a outra: “Vamos”. “Não, vou esperar o próximo”.
Então, tipo, eu percebi que ela não subiu porque era eu, que sou mulher. Tem várias outras pessoas, outras mulheres. Todo dia tem uma mulher que pega comigo lá na Praça das Flores e ela já vai subindo: “Mulher, eu te acho tão linda dirigindo. Tu é tão linda dirigindo, mulher. Como tu consegue dirigir esse ônibus bem grandão todo dia?”. Tem uns maiores, esse aqui é pequeno ainda.
Ela diz: “Eu te acho tão linda. Bom dia. Parabéns. Deus lhe abençoe”. A maioria fala comigo. Eu converso que só, com todo mundo. Fica um monte aqui e todos vêm conversando comigo e pedem informação. Se eu souber, não tem problema algum, eu paro o ônibus. Se for para eu perder ali 2 minutos do meu tempo, eu perco, mas eu ajudo, se eu puder ajudar passando uma informação, porque a pessoa às vezes não sabe o endereço de algum canto que ela quer ir. Não tenho isso comigo, porque um dia eu também não sabia de nada e eu aprendi.
O POVO - O que te mantém na profissão depois de tantos anos? Quais são os desafios e os prazeres dessa carreira que você escolheu?
Marília Lima - No meu vocabulário a palavra desistir não tem. Os principais desafios são os motoristas apressadinhos. Eu mesmo eu já evitei várias colisões, de bater em carro, de eles baterem aqui na lateral, porque quer entrar na frente. Com o motoqueiro, de eu ir direto e o motoqueiro vir pela esquerda e querer entrar na direita. Então, esses são os desafios do trânsito. E tem os passageiros, porque têm alguns que estão dentro e ficam: “Lesada, tô atrasada”. E parece que eles querem que a gente fique passando em cima de Deus e do mundo, mas não é assim.
O prazer é que eu sei que eu estou levando sonhos, pessoas que estão carregando
sonhos. Alguma pessoa que está indo para uma entrevista de emprego, e algumas que já têm e já estão indo para o trabalho, ou estão indo para casa, estão voltando. Esse é o meu maior prazer, quando uma pessoa sobe e eu estou levando ela com segurança e que eu sei que ela está descendo comigo com segurança. Esse é o meu prazer.
O POVO - O que mais mudou ao longo desses dez anos e o que você espera do futuro da profissão? Que conselhos você daria para outras mulheres que querem seguir essa carreira?
Marília Lima - A dica que eu dou é que elas não desistam, que a gente pode sim. A gente é mulher, mas a gente pode tudo. Não desistam do sonho delas, que quando a gente tem um desejo, um sonho, a gente tem que ir atrás.
Eu vi que as oportunidades aumentaram para as mulheres, porque quando eu comecei eram muito menos mulheres do que são hoje, com as oportunidades que as empresas davam
para mulheres. O que mudou foi isso, a questão de ser mais respeitada dentro do ambiente de trabalho pelos colegas. Hoje em dia a gente é muito respeitada, muito mesmo.
Quando eu entrei aqui, os meninos aqui me trataram super bem. Hoje em dia eu sou amiga de todos. Na outra empresa também. E antes a gente não tinha esse acolhimento deles, das pessoas. Era sempre um não, não vai dar certo porque é mulher. Mudou demais. Hoje em dia eles têm medo da gente. Tem muitos que dizem assim, que prefere andar com mulher do que com homem. Hoje em dia tem várias pessoas que só preferem andar com mulher do que com homem.
O que eu espero é que mais mulheres venham para essa profissão, que não é uma profissão de bicho de sete cabeças, que a gente consegue sim; que as empresas continuem valorizando o nosso trabalho, dêem mais oportunidades pra gente. O que eu acho que nós mulheres precisamos é só de uma única oportunidade, um voto de confiança das empresas. É o que a gente precisa. E todos que eu puder ajudar a indicar, vão ter meu apoio sempre, sempre. Eu não vou deixar de apoiar nenhuma que queira entrar nesse ramo, eu sempre vou dizer:"Vamos, entrar, não é difícil”. As empresas estão abrindo as portas, realmente estão.