Economia

O abismo de desigualdades sociais agravado pela pandemia

Sem ações eficazes de combate à pandemia, crise sanitária agrava efeitos sobre a economia e deve levar mais pessoas para a pobreza
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Custa mais para viver (Foto: Custa mais para viver)
Foto: Custa mais para viver Custa mais para viver

O efeito da pandemia na vida das pessoas nunca foi tão aparente e, enquanto não houver vacinação em massa, não vai deixar de ser. Itens básicos da alimentação mais caros, combustíveis reajustados semanalmente e o alto índice de desemprego só levam para supermercados, postos e filas do Sine a realidade observada nos hospitais, postos de saúde e UPAs há cerca de um ano. Uma nova onda de contaminação ainda mais severa gera o agravamento da crise econômica deflagrada pela Covid-19 e deve culminar no aumento da desigualdade, no Ceará e em todo País, como avaliam especialistas.

A pandemia acelerou muitos processos e o aumento do abismo entre pobres e ricos é mais um deles. O porquê de em 2021 as perdas econômicas estarem mais visíveis está justamente na ausência de ações que impedissem a disseminação do vírus. Ouvidos, os economistas apontam o Governo Federal como o principal responsável por este cenário. Um ano depois do início da crise pandêmica, não houve prorrogação do auxílio emergencial em tempo hábil, não há alívio tributário para as empresas, e muito menos políticas públicas para promoção de vacinas.

Saúde e economia não são independentes no cenário atual”, enfatiza Vitor Hugo Miro, coordenador do Laboratório de Estudos da Pobreza da Universidade Federal do Ceará (LEP/UFC). Ele observa que a renda da população mais vulnerável, um dos componentes definidores do aumento da desigualdade, teve até um reforço em 2020, a partir do auxílio emergencial. Porém, a partir deste ano, esse fator é totalmente incerto.
“Ainda não temos dados para avaliar o cenário após o fim do auxílio emergencial, mas como mostram algumas simulações, a desigualdade de renda e a proporção de pessoas em situação de pobreza aumentaram no início de 2021”, afirma.

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Mas sequer conseguimos medir o impacto da pandemia em 2020 ainda, além do que observamos no cotidiano. Isso porque o indicador oficial que mede essa relação, o coeficiente de Gini, só é divulgado no fim do ano. No último conhecido, revelado em dezembro de 2020 e referente a 2019, o comportamento já demonstrava o quão a economia brasileira não ia bem.

No ranking elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Brasil teve uma média de 53,9 pontos, pelos quais quanto mais próximo de zero significa mais igual e próximo de cem, desigual. Apenas os países africanos apresentam desigualdade maior que a do Brasil, segundo o coeficiente.

“E quando a pobreza fica mais visível, reflete no nosso dia a dia. São pedintes no sinal de trânsito, aumento de moradores de rua...”, descreve João Mário de França, economista e diretor do Instituto de Pesquisas e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).

Ana Célia, mãe de família que teve a renda drasticamente abalada pela pandemia da Covid-19
Ana Célia, mãe de família que teve a renda drasticamente abalada pela pandemia da Covid-19 (Foto: FCO FONTENELE)

Ele, assim como Miro, observa que o aumento dos preços e o desemprego diminuem o acesso da população à comida, a serviços básicos, à informação e abalam a economia porque o consumo será menor, prejudicando o comércio e a indústria. É um efeito em cadeia no qual poucos se beneficiam. Para sanar isso, um primeiro passo já foi tomado.

“Infelizmente, os formuladores de políticas estão enfrentando um dilema sério. A restrição de atividades econômicas é um ‘remédio amargo’, pois coloca em situação de vulnerabilidade milhares de pessoas e famílias. Mas, no contexto atual, a lógica é de ter restrições no curto prazo, salvar vidas e permitir uma retomada responsável de atividades, que se sustente por um período maior”, defende o coordenador do LEP/UFC.

No entanto, o diretor do Ipece avalia que é preciso ir além, em políticas públicas de combate à pobreza em curto, médio e longo prazo. De imediato, não há outra opção, segundo França, a não ser aumento da quantidade de beneficiários e do valor pago pelo Bolsa Família e retomar o auxílio emergencial, ao menos, nos mesmos moldes de 2020.

“Sem dúvida, o Brasil está perdendo uma ótima oportunidade de dar auxílio maior, ainda mais num momento como esse, que as famílias precisam se proteger mais. Principalmente autônomos e informais, para auferir algum tipo de renda e não ir para a rua atrás de serviço”, afirma, demonstrando ainda frustração com os números, uma vez que foi um “valor muito aquém do esperado, comparado aos gastos do ano passado, uma diferença muito grande de valor, de tempo e de acesso pelas famílias”.

Para além da nova rodada do auxílio emergencial, cujos valores variam de R$ 150 a R$ 375 e decepcionaram os dois economistas, França defende investimentos maiores na primeira infância como forma de “não perpetuar a pobreza entre as gerações”. Seria a estratégia para médio e longo prazo, garantindo acesso de oportunidades às crianças, sejam elas pobres ou não.

Ter nascido mais rico ou pobre, essa loteria que todos jogam, não pode fazer a menor diferença na vida das pessoas ao longo do tempo. Acesso à creche, políticas de desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida, acesso à saúde, saneamento... são fundamentais”, enumera sobre a fórmula para tirar milhares de cearenses destas condições.

Os porquês de tudo estar mais caro

Vem das regras do comércio internacional a explicação para tudo estar mais caro no Ceará e no Brasil, como explica Álvaro Martins, membro do Conselho Regional de Economia (Corecon-CE). O real é uma das moedas que mais perdeu valor no mundo e tanto fica mais vantajoso para o produtor vender ao exterior quanto fica mais caro comprar produtos que vêm de fora do País.

Dessa forma, grandes produtores de carne, arroz, dentre outros optam por vender a maior parte da safra para outros países, ganhando em dólar. Isso diminui a quantidade do produto no mercado nacional e o torna mais caro pela lei da oferta e da demanda.

"São o que chamamos de commodities: itens produzidos em larga escala e que são baseados em preços internacionais. Temos uma introdução grande de commodities: soja, milho, açúcar, café, laranja... E, a medida que esses preços internacionais aumentam, vão refletir aqui no Brasil", explica.

Martins alerta que "não adianta só entrar dinheiro com exportação. Fica tudo totalmente desiquilibrado", chamando atenção para a necessidade de uma política pública que estabilize a balança comercial brasileira.

Fortaleza, Ce, BR 26.03.21- Na foto: Ana Célia, mãe de familia que teve sua renda drasticamente abalada pela pandemia da covid-19 (Foto: Fco Fontenele/O POVO)
Fortaleza, Ce, BR 26.03.21- Na foto: Ana Célia, mãe de familia que teve sua renda drasticamente abalada pela pandemia da covid-19 (Foto: Fco Fontenele/O POVO)

Sem o socorro devido, extrema pobreza pode crescer

Mais do que levar alguém da classe média à pobreza, a pandemia ameaça levar mais pessoas para o nível da extrema pobreza, quando se dispõe de apenas R$ 89 per capta para sobreviver. No Ceará, 33% estão nessa condição de acordo com o Cadastro Único. A massoterapeuta Ana Célia Coelho, 43, está neste limiar desde março do ano passado. Sem emprego, com cinco filhos pequenos para criar e uma ordem de despejo prestes a ser executada, ela e o marido, Alan, sobrevivem da venda das roupas que até outro dia vestiam.

"No último dia que eu pude ir pra praia fazer massagem, eu consegui um cliente. Saí de lá com R$ 50 no bolso para sustentar cinco filhos, eu e meu marido. Como que dá para fazer isso?", relembra com a revolta de quem ainda não dispõe de ajuda suficiente para enfrentar a crise.

As políticas de transferência de renda ressaltadas pelos economistas ouvidos pelo O POVO estão longe de surtir efeito sobre a vida de pessoas como Ana Célia. Sem condições de se alimentar normalmente, ela sequer sabe como prover a educação dos filhos, cujas aulas nas escolas municipais são on-line. A família mora em uma invasão próxima à Praia do Futuro há quatro anos e acesso à internet é raro.

"Aí temos um problemão: estamos sem vacina, ainda não tem remédio, e a grande solução é aumentar resistência do corpo, com vitamina e alimentação adequada. Mas, no momento em que a pessoa devia estar em casa se alimentando melhor, o preço do alimento dispara. A perspectiva é que o alimento fique mais caro, o rendimento vai cair e a economia fica mais combalida. As medidas adotadas são insuficientes", sentencia Reginaldo Aguiar, supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Na avaliação dele, "o sistema econômico no qual vivemos já leva à desigualdade" e vinha em um ritmo não tão bom desde 2015, mas a pandemia teve "a vara de condão para pegar a distância social e aumentar". "Fizemos um ano de lockdown em Fortaleza. Agora, as empresas estão endividadas, o País caiu 4,2% (PIB 2020), o Ceará caiu 3,5% (PIB 2020) e cadeias produtivas foram desarticuladas. Se a economia retomar amanhã, muitas das cadeias não retornam mais", projeta.

Este é um dos medos de Ana Célia. Sem saber quando deve retornar à atividade de massoterapeuta, ela anseia por ajudas como recebeu na primeira onda de contaminação. Cestas básicas eram doadas semanalmente pelo Instituto Povo do Mar à comunidade onde ela mora, e também clientes prestavam esse socorro.

"Eu só não quero fazer nada errado na minha vida. O que aparecer para conseguir dinheiro e alimentar meus filhos, eu vou fazer. Posso pescar, vender água no sinal mesmo não podendo ir, porque eu não vou passar necessidade", declara.

Mais auxílio

É consenso entre os especialistas ouvidos pelo O POVO de que o auxílio emergencial demorou tempo suficiente para fazer um estrago na vida da população mais vulnerável. E os novos valores não repõem as perdas e nem preservam o que já se possui.

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