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Como jogam Flamengo e River Plate, os dois times que duelam pelo título de melhor da América do Sul

Times de Jorge Jesus e Marcelo Gallardo viajaram para Lima para a final da Copa Libertadores.
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Multidão acompanhou o último treino do Flamengo no RJ e seguiu o time até o aeroporto
 (Foto: WILTON JUNIOR / AE)
Foto: WILTON JUNIOR / AE Multidão acompanhou o último treino do Flamengo no RJ e seguiu o time até o aeroporto

Flamengo

Rápido, direto, intenso, objetivo e com capacidade de encantar. São essas as credenciais do Flamengo, do técnico português Jorge Jesus, que tomou as rédeas do futebol brasileiro na atualidade e quer estender o domínio ao âmbito internacional. Neste sábado, o Rubro-Negro carioca enfrenta o River Plate na final da Copa Libertadores, fase que volta a atingir 38 anos depois do único título, em 1981.

Vencendo ou não Brasileiro e Liberta, o Flamengo de Jorge Jesus já se credenciou como um dos melhores times de futebol do Brasil nos últimos tempo. E além disso, veio para quebrar paradigmas.

Antes, só se podia jogar bonito se tivesse a bola — ideia que Pep Guardiola sedimentou no mundo nos últimos anos, mas que vinha sendo desconstruída antes mesmo de o treinador espanhol surgir. Com um futebol rápido e direto, que tem 36% dos seus gols partindo de contra-ataques, a reconstrução da beleza na prática brasileira passa pelos momentos em que os atletas não têm a bola.

"É estatisticamente provado que um jogador tem, em média, a posse da bola por três minutos em um jogo de futebol. Então, o mais importante é o que ele faz nos outros 87 minutos", dizia o craque holandês Johan Cruyff (1947-2016), responsável por moldar parte da escola europeia de futebol. Jorge Jesus segue a filosofia à risca. Quando tem a bola, aposta em mobilidade alta no ataque para confundir os adversários e abrir espaços. Quando não tem a posse, pressiona com inteligência para roubar e aproveitar desatenções na marcação.

A pressão para retomar a bola, inclusive, é fundamental do jogo de Jesus. Mas não é só retomar a posse, é roubá-la no momento ideal. Alguns times fazem questão de pressionar simplesmente para ter a bola, mas esse Flamengo é diferente. Existe a situação certa para recuperá-la. Resultado: 25% dos gols do Rubro-Negro surgem de roubadas de bola.

Jesus trabalha os conceitos de "bola coberta" (quando o dona da bola está sofrendo um tipo de pressão) e "bola descoberta" (quando ele não sofre pressão) com maestria. Não é sobre pressionar o tempo todo, é sobre pressionar no tempo certo.

E, por fim, é inevitável falar da intensidade. Muito embora diversos times pelo mundo a apliquem, nunca foi característica do Fla. É mais algo da escola europeia, iniciada com a Hungria da Copa do Mundo de 1954 — primeiro time a se aquecer antes de partidas. A Holanda de 1974, conduzida por Cruyff, não deixava os adversários jogarem, a ponto dos adversários se queixarem. Para o time de Jesus, a intensidade alta é um diferencial.

Em suma, o técnico do Flamengo prega mobilidade rápida, alta intensidade e conceitos da bola coberta e descoberta, desenvolvidos por Arrigo Sacchi nas décadas de 1980 e 90. Inteligência acima da técnica, cabeça antes dos pés. É assim que, 519 anos depois, o Brasil descobre Portugal. (Gerson Barbosa)

River Plate

Torcida do River Plate acompanha saída do ônibus do time para o aeroporto de Buenos Aires
Torcida do River Plate acompanha saída do ônibus do time para o aeroporto de Buenos Aires

Na final entre Flamengo e River Plate, o duelo Brasil x Argentina, porém, ficará somente dentro de campo. Na borda dele, será um português recém chegado contra um argentino com muitos anos de residência fixa. Ex-ídolo quando jogador, Marcelo Gallardo comanda os Milionários desde junho de 2014.

Chegando ao clube argentino em fase de reconstituição do time, Gallardo driblou a descrença e com sua filosofia de futebol, fez a equipe ressurgir no cenário continental. Cinco anos depois, foram 11 títulos e 14 finais. Muitos jogadores passaram, mas o "chefe" reinventar o time com as peças que teve em mãos.

Na atual Libertadores, desde o jogo de volta das oitavas de final, contra o Cruzeiro — no qual avançou após disputas de pênaltis —, o River tem investido no 4-1-3-2. Isso, porém, não quer dizer que trata-se de equipe previsível.

Embora tenha time titular bem definido (Armani; Montiel, Quarta, Pinola e Casco; Pérez; Fernández, Palacios e De la Cruz; Borré e Matías Suárez), a equipe é flexível e trabalha juntando peças em torno da bola. Tenta se adaptar ao adversário, mas sem perder a qualidade.

Que reflete essa técnica é o lateral Milton Casco, que embora prioritariamente pelo lado esquerdo, já apareceu como meio-campista, ajudando na saída de bola e na recomposição defensiva.

Outro retrato disso é a distribuição dos gols marcados pelos argentinos. É tanta que os artilheiros platenses na competição são o meia De La Cruz e volante Ignácio Fernandez, com três tentos cada.

Por conta dessas variações, o River consegue fazer mudanças táticas sem mexer na formação. Assim, pode surpreender mais os rivais e impor o ritmo das partidas.

Gallardo conta ainda com boas peças de reposição. Enzo Pérez, que retorna após lesão no ombro, tem como substituto Ponzio; atacante Matías Suárez, que sentiu desconforto no tornozelo, tem Lucas Pratto como sombra. Outras opções qualificadas são o meia Juan Quintero e o atacante Ignácio Scocco.

Se há um ponto fraco no River Plate, ele é a bola aérea defensiva. A fragilidade ficou evidente foi na derrota diante do Boca Juniors na semifinal e o empate contra o Cerro Porteño pelas quartas de final da Liberta.

Equipe que se defende a partir de encaixes, com necessária intensidade a cada duelo individual, o River pode ficar vulnerável à fluidez do ataque rival. Pode ser o caminho para o Rubro-Negro carioca quebrar a hegemonia que a equipe argentina tenta criar na Libertadores. O River está na terceira final em cinco anos. O Fla chegou à primeira em 38 anos. (Iara Costa / Especial para O POVO)


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