A Mega da Virada é vendida quase como um ritual de esperança coletiva. Todo fim de ano, milhões de brasileiros fazem a "fezinha" evocando números, mas também sonhos: quitar dívidas, ajudar a família, mudar de vida…
O valor histórico de R$ 1,09 bilhão - e a corrida às lotéricas e aos canais de apostas que se verificou em todo País - dão essa dimensão. Mas, por isso mesmo, o atraso e depois o adiamento inédito do sorteio do concurso de 2025 não podem ser tratados como "um detalhe técnico".
A Caixa Econômica Federal alegou que o problema ocorreu devido ao volume recorde de apostas. Foram mais de 112 milhões de apostas realizadas, com picos de 125 mil transações por segundo nos canais físico e digital.
Mas esse argumento revela mais fragilidade do que justificativa. Um evento que mexe com tanto dinheiro e ocupa lugar fixo no calendário nacional não pode ser refém do próprio sucesso. Se o sistema trava justamente no momento de maior procura, a falha é de planejamento, não do apostador.
Não que isso seja uma exclusividade da Caixa ou de um banco público. Aliás, a instabilidade nos sistemas bancários nos momentos de alta demanda tem sido recorrente, mesmo entre as instituições privadas.
Contudo, a demora em dar uma explicação e as notas genéricas apresentadas só serviram para alimentar as teorias da conspiração, em um país onde a confiança nas instituições já é frágil. Mais preocupante ainda foram os relatos de apostas pagas e não efetivadas, sem prazo claro de reembolso.
Não se trata apenas de dinheiro. Em tempos de transações financeiras a um clique, é preciso vender não apenas facilidade, mas suporte, credibilidade e transparência.