A história latino-americana é ciclicamente marcada por dois fantasmas: o caudilhismo interno, que afronta as instituições democráticas, e o intervencionismo externo, que sob o pretexto da salvação, viola a soberania das nações. Ao olharmos para a Venezuela, não assistimos ao triunfo da liberdade, mas à colisão trágica desses dois erros históricos. Se, por um lado, Nicolás Maduro falhou com seu povo, por outro, a ação dos Estados Unidos não é justiça; é pilhagem geopolítica.
Ao longo da última década, assistimos ao desmantelamento sistemático da independência dos poderes na Venezuela, à perseguição de opositores e à gestão econômica que empurrou muitos venezuelanos para a emigração e empobrecimento. A legitimidade do governo de Maduro encontrou dificuldades não apenas pelas sanções externas, mas porque rompeu o contrato social básico com seus cidadãos. A democracia exige alternância, transparência e respeito aos direitos humanos.
Contudo, reconhecer a falência do regime de Maduro não nos dá o direito - e muito menos dá aos Estados Unidos - de legitimar uma intervenção militar que visa, explicitamente, o controle de recursos estratégicos. A recente declaração de Washington de que é necessário "reter o petróleo" para "garantir a estabilidade" é um eufemismo perigoso para a violação flagrante da autodeterminação dos povos.
Quando uma potência estrangeira condiciona a "libertação" de um país à posse de suas riquezas naturais, a operação deixa de ser uma ajuda humanitária e passa a ser neocolonialismo. O petróleo da Venezuela pertence ao povo venezuelano. Este recurso deve servir para reconstruir hospitais em Maracaibo, escolas em Caracas e infraestrutura em Valência, e nunca para abater os custos operacionais de uma ocupação militar estrangeira ou para garantir a segurança energética do Hemisfério Norte.
Aceitar a premissa de que os fins justificam os meios é abrir uma Caixa de Pandora nas relações internacionais. Caso haja aplausos pela intervenção em nome da democracia, que argumento teremos amanhã se outra potência decidir "proteger" a Amazônia brasileira ou o lítio boliviano sob pretextos semelhantes? A soberania não é um conceito seletivo.
O erro de Maduro foi acreditar que o poder emanava da força e não do consentimento popular. O erro dos Estados Unidos é acreditar que a democracia pode ser exportada na ponta de um fuzil, com uma fatura cobrada em barris de petróleo.
O melhor caminho para a Venezuela passa pela política, pela diplomacia regional robusta e pelo respeito à vontade das urnas, não pela força bruta. O povo venezuelano merece ser dono do seu próprio destino e, fundamentalmente, ter controle do seu próprio território e recursos, bem como ter sua soberania e autonomia garantidas pelos direitos fundamentais.