Por conta de sucessos cinematográficos recentes, como Ainda Estou Aqui e, mais recentemente, O Agente Secreto, vem sendo resgatada na memória dos brasileiros a lembrança dos chamados "anos de chumbo", período em que o Brasil foi governado pelos militares. Como não poderia deixar de ser, a polarização política brasileira passou a dominar o debate em torno do tema, chegando inclusive a influenciar a torcida pela consagração - ou pelo fracasso - dessas obras e, quiçá, pela expectativa de um eventual Oscar para o mais recente êxito internacional brasileiro, O Agente Secreto.
A esquerda vibra com o sucesso e abraça a campanha, enquanto a direita execra o filme e torce por seu insucesso. Toda essa celeuma fez-me recordar a memória de um personagem ainda pouco conhecido de nossa história recente: Dower Cavalcante.
Ex-aluno do Colégio Militar de Fortaleza, Dower passou de líder estudantil a militante comunista, abraçando a extrema esquerda como ideologia. Lutou em um dos episódios pouco explorados da história brasileira, a Guerrilha do Araguaia (1967-1974), na qual os comunistas foram derrotados pelo Exército Brasileiro, no auge do regime militar. Ao contrário do que muitos poderiam supor, Dower jamais foi intolerante em relação a pensamentos ideológicos diferentes dos seus. Muito pelo contrário: buscava sempre defender suas ideias por meio do diálogo e da argumentação, ainda que fundamentadas em leituras consideradas subversivas.
Costumava dizer: "existem bons e maus em ambos os lados das trincheiras". Eu era, segundo ele, um desses "bons". Liberal e avesso às ideias comunistas, conversava e debatia com Dower. Eu me apoiava nas ideias de Friedman e Hayek; ele, nas de Marx e Engels. Nunca chegávamos a um consenso, tampouco conseguíamos convencer um ao outro, mas jamais perdíamos o respeito ou o afeto que, como tio e sobrinho, naturalmente nos unia.
Sinto falta desse respeito. Vivemos hoje um tempo em que familiares e amigos se perdem em discussões estéreis. Amizades são desfeitas, famílias são rachadas por diferenças ideológicas. A lucidez vem cedendo espaço à intolerância e à mediocridade do pensamento.
Estamos iniciando um ano eleitoral. Não tenho dúvidas de que os ânimos tendem a se acirrar ainda mais. Resta-nos esperar que o bom senso vença o contrassenso.