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Daniel Pinheiro: Os anos de chumbo e a intolerância do presente
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Daniel Pinheiro: Os anos de chumbo e a intolerância do presente

.Estamos iniciando um ano eleitoral. Não tenho dúvidas de que os ânimos tendem a se acirrar ainda mais. Resta-nos esperar que o bom senso vença o contrassenso
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Daniel Pinheiro

Médico otorrinolaringologista com especialização na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Autor do livro "D...

Por conta de sucessos cinematográficos recentes, como Ainda Estou Aqui e, mais recentemente, O Agente Secreto, vem sendo resgatada na memória dos brasileiros a lembrança dos chamados "anos de chumbo", período em que o Brasil foi governado pelos militares. Como não poderia deixar de ser, a polarização política brasileira passou a dominar o debate em torno do tema, chegando inclusive a influenciar a torcida pela consagração - ou pelo fracasso - dessas obras e, quiçá, pela expectativa de um eventual Oscar para o mais recente êxito internacional brasileiro, O Agente Secreto.

A esquerda vibra com o sucesso e abraça a campanha, enquanto a direita execra o filme e torce por seu insucesso. Toda essa celeuma fez-me recordar a memória de um personagem ainda pouco conhecido de nossa história recente: Dower Cavalcante.

Ex-aluno do Colégio Militar de Fortaleza, Dower passou de líder estudantil a militante comunista, abraçando a extrema esquerda como ideologia. Lutou em um dos episódios pouco explorados da história brasileira, a Guerrilha do Araguaia (1967-1974), na qual os comunistas foram derrotados pelo Exército Brasileiro, no auge do regime militar. Ao contrário do que muitos poderiam supor, Dower jamais foi intolerante em relação a pensamentos ideológicos diferentes dos seus. Muito pelo contrário: buscava sempre defender suas ideias por meio do diálogo e da argumentação, ainda que fundamentadas em leituras consideradas subversivas.

Costumava dizer: "existem bons e maus em ambos os lados das trincheiras". Eu era, segundo ele, um desses "bons". Liberal e avesso às ideias comunistas, conversava e debatia com Dower. Eu me apoiava nas ideias de Friedman e Hayek; ele, nas de Marx e Engels. Nunca chegávamos a um consenso, tampouco conseguíamos convencer um ao outro, mas jamais perdíamos o respeito ou o afeto que, como tio e sobrinho, naturalmente nos unia.

Sinto falta desse respeito. Vivemos hoje um tempo em que familiares e amigos se perdem em discussões estéreis. Amizades são desfeitas, famílias são rachadas por diferenças ideológicas. A lucidez vem cedendo espaço à intolerância e à mediocridade do pensamento.

Estamos iniciando um ano eleitoral. Não tenho dúvidas de que os ânimos tendem a se acirrar ainda mais. Resta-nos esperar que o bom senso vença o contrassenso.

 

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