É de um cinismo quase poético observar mulheres que utilizam a própria voz, um direito conquistado a duras penas, para pregar o silenciamento das pautas de gênero. O fenômeno da mulher que rechaça o feminismo enquanto usufrui de cada centímetro de liberdade por ele pavimentado não é apenas uma contradição intelectual, é uma patologia da conveniência e da falta de caráter histórico.
Tais críticas, que hoje destilam veneno em palanques digitais, parecem sofrer de uma amnésia histórica seletiva, ou talvez seja a própria ignorância em sua forma mais bruta e orgulhosa. Bradam com arrogância que o movimento "não trouxe nada de bom", enquanto gerem a própria condição financeira, assinam contratos sem tutela marital e exercem direitos fundamentais. É a personificação grotesca da herdeira mimada que cospe no testamento enquanto gasta cada centavo da herança recebida.
Esse discurso costuma ser revestido de uma suposta "elevação moral" ou de um saudosismo estéril por um tempo que elas mesmas não suportariam por 24 horas. Vendem a ideia de que a libertação feminina é um fardo pesado, uma "desordem" moderna que estragou a família e a essência da feminilidade. No fundo, o que buscam é o aplauso efêmero da estrutura que as oprime, acreditando piamente que, ao serem "as boas meninas" do patriarcado, serão poupadas da fogueira ou do chicote. Alerta de spoiler: jamais serão. No máximo, serão as últimas a serem descartadas.
O feminismo nunca pediu gratidão, mas o mínimo que a capacidade intelectual exige é o reconhecimento dos fatos. Criticar o movimento que lhe permitiu ter uma opinião pública é uma rebeldia de fachada, sustentada por privilégios que foram comprados com o sangue e o suor de mulheres que outras, em sua miopia arrogante e egocêntrica, desprezam abertamente.
Não há nada de "tradicional" ou "autêntico" em ser um joguete retórico contra os próprios direitos. Há apenas a mediocridade de quem prefere o conforto das correntes conhecidas ao desafio ético de manter-se de pé por conta própria. Enquanto elas se ocupam em ser o "Cavalo de Troia" do machismo, o feminismo continua a fazer por elas o que elas jamais fariam por si mesmas: garantir que continuem tendo o pleno direito de falar bobagens em público.