As novas ondas de protestos no Irã expõem o esgotamento de um modelo que combina teocracia, aparato securitário e economia de cerco, sob sanções e guerras por procuração, para sustentar um regime cada vez mais desconectado de sua sociedade.
A crise atual resulta da combinação de três tensões. De um lado, uma economia sufocada por sanções e má gestão, que empurra amplos setores para a precariedade e alimenta revoltas recorrentes. Não devemos esquecer também a participação de atores externos no incentivo a revoltas. De outro, um sistema político que responde a qualquer contestação com repressão, prisões em massa e controle informacional.
Soma-se a isso a disputa geopolítica: o Irã projeta poder por meio de aliados armados na região, mas vê seu próprio território convertido em campo de batalha, alvo de ataques israelenses e da pressão direta dos Estados Unidos sobre seu programa nuclear.
Nesse tabuleiro, a determinação de Donald Trump em promover regime change em Teerã não pode ser dissociada da dimensão energética. Ao tentar derrubar um governo hostil e substituí-lo por uma elite mais previsível, a Casa Branca mira controlar, de forma mais direta, o petróleo iraniano e outros recursos estratégicos, reordenando contratos e fluxos de exportação em benefício de grandes companhias norte-americanas.
Do ponto de vista regional, o que se passa no Irã é teste para o futuro da ordem no Oriente Médio. Se Teerã contiver novamente as mobilizações pela força, sem reformas significativas, seguirá financiando e coordenando seus aliados de Bagdá a Beirute, preservando um arco de influência que inquieta Washington, Tel Aviv e monarquias do Golfo.
Se, ao contrário, a combinação de pressão social interna e constrangimentos externos reduzir sua capacidade de projetar poder, abrir-se-á espaço para uma reconfiguração menos centrada na lógica das milícias e mais na disputa institucional entre Estados.
No curto prazo, porém, o cenário mais provável é o da continuidade da espiral repressão-protesto: o regime concede gestos limitados de diálogo e recuos pontuais, mas preserva intacto o núcleo duro de seu poder teocrático-militar. A sociedade iraniana, por sua vez, aprende a testar limites, reinventar formas de contestação e articular demandas que combinam dignidade econômica, direitos civis e rejeição à intervenção estrangeira - inclusive à agenda de mudança de regime ditada a partir de Washington.
É essa tensão, entre uma ordem pós-revolucionária incapaz de se renovar e uma população que se recusa a voltar para casa, que definirá o próximo capítulo da crise iraniana e o destino de suas vastas reservas energéticas.