Ser atendido por um médico mal formado corre-se mais risco do que não ser atendido. Essa afirmação, dura, resume o momento crítico que atravessa a formação médica no Brasil. Não se trata de debate acadêmico nem de disputa ideológica. Estamos falando de vidas humanas, de saúde pública e do futuro do sistema de atenção à saúde no Brasil.
Os dados recentes do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina são um alerta inequívoco. Cerca de 32% das faculdades avaliadas apresentaram desempenho catastrófico. Na prática, mais de 100 instituições com desempenho abaixo do mínimo aceitável, sujeitas a sanções e até à suspensão de vagas, ainda que a maioria tenha alcançado proficiência. É um contingente elevado demais para ser tratado com indiferença.
Há um risco direto à sua pública. Cada médico mal formado representa um risco concreto a cada um de nós. Não é apenas um dado estatístico, mas alguém exposto a erros de diagnóstico, condutas inseguras e equivocadas. Durante a pandemia, isso ficou evidente quando profissionais recém-formados demonstraram dificuldades em procedimentos básicos, como a correta intubação de pacientes graves. Falhas como essa se transformam em tragédia. Elas custam vidas.
Minha crítica não é de agora. Desde o ano passado, venho alertando, na Assembleia Legislativa, para a proliferação irresponsável de cursos de medicina sem estrutura adequada. Formar médicos exige mais do que autorização administrativa. Exige professores qualificados, hospitais de ensino, leitos disponíveis, preceptores experientes e uma rede pública preparada para receber estudantes com supervisão rigorosa.
No Ceará, diante da quantidade de cursos autorizados, pergunta-se: onde estão os hospitais de ensino? Onde estão os campos de prática? Onde estão os mestres?
Ao se permitir faculdades sem condições reais de formação, estamos comprometendo a formação médica e quem pagará essa conta será o cidadão.
A expansão sem critérios transforma a medicina em laboratório político, como a atual política do MEC, dirigido pelo ex-governador Camilo Santana insiste em fazer. A formação médica exige planejamento, responsabilidade e compromisso com a qualidade. Reduzi-la ao aumento do números de vagas é erro grave. Vidas estão em jogo.