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Bolsonaro e os filhos aumentam tensão política; militares rejeitam ruptura

Em dia de fortes tensões em Brasília, o presidente voltou a desafiar ordens do STF, o que provocou reação "pacificadora" da ala militar
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Jair Bolsonaro  (Foto: GABRIELA BILO/AE)
Foto: GABRIELA BILO/AE Jair Bolsonaro

Em momento em que a crise institucional entre o governo Jair Bolsonaro e o Judiciário chega a novo ápice, Brasília teve ontem mais um dia de tensão agravada nos Três Poderes. Logo pela manhã, o presidente e seus filhos ampliaram pressão sobre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o que acabou levando Legislativo e ala militar a tentarem "acalmar os ânimos" ao longo do dia.

"Mais um dia triste da nossa história, mas foi o último", disse Bolsonaro, se referindo a operação deflagrada pela Polícia Federal na quarta-feira, que apura ataques contra ministros do STF e teve como alvo empresários, políticos e blogueiros aliados do governo. "Invadir casa de pessoas inocentes e submetê-las a humilhações é inadmissível (...) acabou, porra!", disse o presidente.

Mais tarde, Bolsonaro voltou a subir o tom contra a Corte, atacando decisão do ministro Alexandre de Moraes que determinou a operação. "Nunca tive a intenção de controlar a PF (...) mas ordens absurdas não se cumprem e nós temos que botar um limite nessas questões", disse. A ação cumpriu 29 mandados de busca e apreensão em vários estados.

Fala de Bolsonaro teve forte repercussão em Brasília, com líderes do Judiciário e Legislativo a classificando como "ameaça" e até possível sinalização de ruptura democrática. "As declarações do presidente são muito ruins. Vão no caminho contrário de tudo o que a gente começou a construir, todos os poderes juntos, na última semana", disse o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Para o deputado, o presidente tem, assim como qualquer cidadão, direito de recorrer da decisão do STF, mas deve fazer isso "pelos caminhos legais, e não pela intimidação". Na tarde de ontem, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) foi ao Palácio do Planalto atuar como "bombeiro" na crise entre Executivo e Judiciário, pedindo "calma" a Bolsonaro.

Diante do tensionamento provocado por Bolsonaro, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, acabou atuando como "pacificador" na crise. Em entrevista à jornalista Andréia Sadi, do G1, Mourão disse que um golpe militar estaria "fora de cogitação" e que "não existe espaço no mundo para ações dessa natureza".

"Quem é que vai dar golpe? As Forças Armadas? Que que é isso, estamos no século 19? A turma não entendeu. O que existe hoje é um estresse permanente entre os poderes. Eu não falo pelas Forças Armadas, mas sou general da reserva, conheço as Forças Armadas: não vejo motivo algum para golpe".

Já o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, negou ter feito qualquer ameaça à ordem institucional em nota em que condenou possível apreensão do celular de Bolsonaro. "Foi uma nota completamente neutra colocando o problema em si, sem citar nomes", disse, cobrando "equilíbrio, harmonia e bom senso" na relação entre os Poderes.

Interlocutores militares observam que Heleno não manda em nenhum soldado do Exército. Mas, embora seja general da reserva, tem respeito da caserna e consolidou-se como um nome político influente, atingindo 922 mil seguidores só no Twitter. Ou seja: na cúpula militar, especialmente no Alto Comando das Forças Armadas, a hipótese de ruptura democrática é limitada à guerra política.

As falas dos militares reagem principalmente a ataques do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que declarou, durante transmissão ao vivo nas redes sociais, que o País está próximo de uma "ruptura". ""Quando chegar ao ponto em que o presidente não tiver mais saída e for necessária uma medida enérgica, ele é que será taxado como ditador (...) não é mais uma questão de se, mas, sim, de quando isso vai ocorrer", disse.

Líder da oposição na Câmara, André Figueiredo (PDT-CE) classificou fala do presidente como "um desrespeito à Constituição, às normas vigentes e quase uma incitação à desobediência civil". "Isso é um absurdo, não podemos aceitar isso, enquanto sociedade. A Constituição preconiza que decisões emanadas de um Poder têm de ser respeitadas pelo outro".

Já sobre Eduardo Bolsonaro, Figueiredo afirma que líderes da oposição deverão, nos próximos dias, apresentar representações contra o deputado no Conselho de Ética da Casa. "Não podemos fazer que declarações como essas virem rotina sem ser coibidas", diz.

Na tarde de ontem, o advogado cearense Antonio Carlos Fernandes - que conseguiu barrar decreto de Michel Temer que permitia garimpo e exploração em áreas da Amazônia - entrou no STF com um pedido de abertura de inquérito contar Eduardo Bolsonaro. Ele cobra que o deputado "explique e se responsabilize" pelas afirmações envolvendo uma possível ruptura democrática. (com Agência Estado)

 

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