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Festival de Toronto acontece em formato híbrido em ano de incertezas

A abertura do festival foi com "American Utopia, filme de Spike Lee que acompanha David Byrne numa residência na Broadway
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American Utopia, filme de Spike Lee sobre uma residência artística de David Byrne, foi o escolhido pra abertura do Festival de Toronto (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação American Utopia, filme de Spike Lee sobre uma residência artística de David Byrne, foi o escolhido pra abertura do Festival de Toronto

Em março, como todos os outros eventos do tipo, o Festival de Cinema de Toronto deparou com a dúvida se deveria ou não cancelar a edição deste ano, como acabaram fazendo Cannes e Telluride, entre outros. Ao decidir ir adiante, em que formato? Virtual? Híbrido (digital com algumas sessões ao vivo)? Ou presencial, como o 77º Festival de Veneza, que terminou sábado, 12?

Toronto decidiu pela alternativa do meio: algumas exibições em cinemas, outras ao ar livre, somente para moradores do Canadá, que também podem ver filmes no streaming pela primeira vez. Visitantes estrangeiros foram proibidos de ir ao festival - educadamente, lógico, em se tratando de um evento canadense. A imprensa, incluindo a local, foi convidada a assistir tudo pelo computador. Por questões de segurança, houve uma redução no número de credenciados, o que gerou protestos. O festival começou na quinta-feira, 10, e segue até o próximo sábado, 19.

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A experiência de cobrir um festival de cinema de casa não é a mesma de acompanhar in loco, obviamente. Um festival de cinema do tamanho de Toronto, com muitas estreias mundiais de filmes e burburinho para o Oscar, tem uma vibração própria. Não é possível esquecer o frenesi causado por "Moonlight: Sob a Luz do Luar", de Barry Jenkins, que lotou a exibição para jornalistas, teve várias sessões extras e saiu dali para ganhar o Oscar. Ou das filas dando volta no quarteirão para os longas da "Midnight Madness", acompanhados de gritos e muita animação.

Fora isso, por questão de direitos e segurança, alguns dos cerca de 60 filmes - uma redução de mais de 70% no número de títulos - não vão ser exibidos para a imprensa, como "Ammonite", com Kate Winslet e Saoirse Ronan, "Bruised", estreia na direção da atriz Halle Berry.

O longa de abertura, "American Utopia", um registro de uma residência de David Byrne na Broadway, dirigido por Spike Lee, só estava disponível para baseados no Canadá. O filme, que estreia na HBO americana em outubro, teve boa recepção da crítica, com muitos dizendo que é tão bom ou melhor que "Stop Making Sense", sobre uma performance da banda de Byrne, Talking Heads, dirigido por Jonathan Demme e considerado um marco nesse tipo de filme. "O sutil formato da narrativa, que mistura meditações filosóficas intermitentes e uma mensagem motivacional, oferece uma prova dos valores de sinceridade, otimismo e fé no nosso semelhante, mesmo num tempo de inescapável ansiedade. Byrne empresta a definição de James Baldwin de nós como uma obra em construção, defendendo a crença de que ainda somos capazes de mudança", publicou o The Hollywood Reporter.

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Quando Byrne e banda tocam e cantam cover de "Hell You Talmbout", de Janelle Monáe, Spike Lee faz uma série de tomadas em direção a fotos gigantes de Eric Garner, Emmett Till, George Floyd e Breonna Taylor, todos vítimas de brutalidade policial ou racismo.

A ausência do burburinho do festival também afeta uma parte importante de Toronto: o mercado. A ICM, por exemplo, não esperou os festivais para promover "One Night in Miami...", estreia na direção de Regina King, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante ano passado por "Se a Rua Beale Falasse", de Barry Jenkins. Vendeu para a Amazon depois de mandar uma parte do filme para potenciais compradores com um prazo apertado - uma espécie de simulação do ambiente de um festival.

A falta de definição em relação à reabertura das salas de cinema faz com que qualquer investimento seja arriscado para os distribuidores que dependem desse tipo de exibição. Em teoria, isso beneficiaria os serviços de streaming, como Netflix, Amazon, Apple e os novos HBO Max e Peacock. Até porque a paralisação da produção periga resultar num deserto de filmes em alguns meses. Se eles vão se interessar por uma maioria de produções sem grandes nomes no elenco, como é o caso da seleção em Toronto e em outros festivais do outono no hemisfério norte, é outra indefinição de um ano cheio delas. (Mariane Morisawa/ Ag. Estado)

Veneza termina com elogios e candidato a Oscar

Mesmo com sua edição mais enxuta, o Festival de Veneza só confirmou sua tendência de dar o Leão de Ouro a filmes que certamente vão parar na lista de indicados ao Oscar com a premiação de "Nomadland", da chinesa radicada nos Estados Unidos Chloé Zhao. A vitória de longas como o filipino "A Mulher que se Foi", de Lav Diaz, em 2016, e o venezuelano "De Longe te Observo", de Lorenzo Vigas, em 2015, parece cada vez mais coisa do passado.

"Nomadland" deve se juntar a ganhadores mais recentes, como "A Forma da Água", de Guillermo del Toro, que saiu com o Leão de Ouro em 2017 para levar quatro Oscar, inclusive direção e filme; "Roma" (2018), de Alfonso Cuarón, que, após o prêmio principal em Veneza, teve dez indicações a estatuetas douradas, ganhando direção, filme em língua estrangeira e fotografia; e "Coringa" (2019), que venceu o festival italiano e concorreu em 11 categorias na premiação da Academia, levando duas. Zhao é a quinta mulher a ganhar o Leão de Ouro em 77 edições.

O 77º Festival de Veneza foi o primeiro de grande porte a ser realizado durante a pandemia. A edição foi menor: cerca de 65 filmes em vez de centenas, 5 mil credenciados no lugar dos 12 mil do ano passado, 20 mil ingressos vendidos na primeira semana - em 2019, foram 42 mil no mesmo período. Também houve menos produções de Hollywood de olho no Oscar e menos estrelas no tapete vermelho. A principal atração foi a presidente do júri, a australiana Cate Blanchett.

Uma série de medidas de segurança, incluindo um muro separando o tapete vermelho da rua, checagem de temperatura, obrigatoriedade de máscaras o tempo todo, foi tomada.

"Só foi estranho porque não se viam italianos se abraçando e beijando. Eu gosto de gente, então, foi um pouco duro para mim", disse a jornalista Alessandra De Tommasi. (Agência Estado)

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