Vida & Arte

"Semana Clarice": dançarina Andréa Bardawil relaciona sua trajetória com Clarice Lispector

Há 20 anos, Andréa Bardawil, diretora da Companhia da Arte Andanças, apresentava pela primeira vez o espetáculo "A Dança de Clarice" em homenagem à escritora que completa seu centenário nesta semana
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Foto: Tibico Brasil Espetáculo "A Dança de Clarice" completa 20 anos

"Aprender de si, como se aprende uma dança. Lançando-se no espaço, o corpo esculpindo o ar. Aprender com o outro, como se aprende uma dança: lançando-se no espaço. Os corpos esculpindo o ar, o mar. Aprendendo os espaços como quem aprende uma dança. Aprendendo uma dança como quando se aprende a amar". (Trabalho livremente inspirado na obra "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", de Clarice Lispector).

Assim apresentei o espetáculo "A Dança de Clarice", em 2000, na mostra realizada pelo Colégio de Dança do Ceará, como aluna-coreógrafa, e depois na Bienal Internacional de Dança do Ceará. Em 2001, incluímos o espetáculo na mostra de 10 anos da Companhia da Arte Andanças.

Na cena: uma mulher, um homem e seus duplos. (Janahina Cavalcante, Isabel Botelho, Milton Paulo e Acleilton Vicente; posteriormente, Márcio Slam e Possidônio Montenegro). Compondo com o silêncio, "Little Girl Blue" em duas vozes, Nina Simone e Chet Baker; texturas distintas de movimento marcavam a composição coreográfica. A respiração entrecortada, os gestos fragmentados e ansiosos de Lori, alternando-se com a continuidade lenta e contemplativa de Ulisses. Que equilíbrio é possível, a partir do encontro? Como encontrar uma possibilidade de sustentação mútua, em movimento? Foi assim que escolhi mergulhar na história de amor de Lori e Ulisses, traduzindo-a em dança.

Na história de Lori e Ulisses, o miúdo de cada rotina, os pequenos gestos, as epifanias cotidianas. Um mundo imagético de intensidades e delicadezas: a maçonaria do silêncio, o cavalo lustroso, o mar, a folha que cai, o tigre ferido...figuras que se alternam num processo autopoiético de reinvenção, de si e do mundo. Cada susto é prenúncio de um espaço interno alargado. Ainda que com alguma dor, porque "a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isso pela primeira vez". Mas experimentando também a alegria de um estado de graça. Afinal, "que ela não esquecesse que a subida mais escarpada e à mercê dos ventos, era sempre sorrir de alegria".

Costumo dizer que não lemos Clarice, somos possuídos por ela. Nossa respiração perde qualquer autonomia; de repente, respiramos por ela, do jeito que determina o texto-carne. A racionalidade é incapaz de sustentar uma leitura larga. Ou a leitura é sensorial, fenomenológica, quase psicográfica, ou não é. De corpo inteiro, pressentimos o assombro. Arquejamos e seguimos. O ritmo não é linear, mas tem um ritmo, tem um ritmo...isso é dança.

Foi com Clarice que me constituí mulher. Li tudo. Chorei, morri, matei, nasci. Com ela aprendi muito sobre movimento e respiração, sobre texturas, sobre pausas, sobre silêncios, e minha dança se faz com tudo isso. Aprendi sobre o que não se pode dizer, o imanifestado. Sobre fantasmagorias. Aprendi que "a vida é sobrenatural". Aprendi que "viver ultrapassa qualquer entendimento". Aprendi que "pensar é um ato, sentir é um fato". E aprendi que "em matéria de viver, nunca se pode chegar antes".

Andréa Bardawil é coreógrafa, diretora da Cia. da Arte Andanças e arteterapeuta

Raisa Christina  participa do projeto Leituras de Clarice
Raisa Christina participa do projeto Leituras de Clarice

Nas palavras de Clarice

Quando Clarice Lispector ainda era uma criança, submetia textos à coluna infantil do Diário de Pernambuco. Falhava nas tentativas porque, segundo ela afirmaria anos depois, escrevia sobre sensações. Suas histórias não abordavam fatos. Aquela menina que insistia em focar nas emoções cresceria para virar uma das mais importantes escritoras brasileiras. Seus sentimentos estão por toda parte, em qualquer livro, crônica, conto ou carta que já redigiu. Em comemoração ao centenário da escritora, celebrado nesta quinta-feira, 10, O POVO convidou artistas e profissionais da cultura para gravarem trechos de suas obras preferidas.

O compilado de vídeos chega hoje, 9, à plataforma de assinantes O POVO+. Os conteúdos individuais dos participantes estarão disponíveis nas redes sociais do O POVO Online e do Vida&Arte. A iniciativa, denominada "Leituras de Clarice", acontece em parceria com o projeto Cidade Portátil, da jornalista e cronista do V&A, Izabel Gurgel. O que nos acontece em estado de leitura? E quando lemos Clarice? Estamos à escuta, à flor da pele, 'vivinhas da silva'. Clarice nos leva a migrar por nossas paisagens interiores, a percorrer estados e modos de ser que dizem melhor da nossa condição humana, da condição de existir", diz.

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Izabel é leitora de Clarice Lispector há anos e realiza encontros de iniciação à obra da autora desde 2016, intitulados "Felicidade Clandestina". Depois de passar por cidades como Recife, Salvador e Fortaleza, o roteiro ganha estrutura e se diferencia a cada nova edição. Nesses momentos de formação e de conhecimento sobre a escritora, percebe: "É sempre um contentamento vivenciar a força da escrita Clarice na formação de criaturas leitoras ou na afirmação da leitura como uma alegria possível".

Para compartilhar a felicidade desse contato, várias pessoas participam do "Leituras para Clarice". Fabiano Piúba, secretário da Cultura do Ceará; Talles Azigon, poeta, mediador de leituras e idealizador da biblioteca comunitária Livro Livre Curió; João Paulo Lima, artista-educador e performer, são alguns dos nomes que gravaram vídeos lendo trechos da obra da autora.

A ação integra a "Semana Clarice", que tem o objetivo de celebrar os 100 anos de nascimento de uma das mais importantes autoras brasileiras. Até sexta, 11, várias atividades estão sendo promovidas em diversas plataformas. Amanhã,  10, dia do aniversário, acontecerá uma transmissão ao vivo com a professora Fernanda Coutinho, da Universidade Federal do Ceará, uma das organizadoras do livro "Visões de Clarice; com o coordenador da pós-graduação em Letras da UFC, Yuri Brunello; e com Gabriel Cavalcante, aluno de Medicina e apreciador da obra da escritora. A live terá mediação da jornalista e repórter do Vida&Arte Bruna Forte. O evento será exibido nas redes sociais do O POVO e no Canal FDR, às 18 horas.

Para finalizar, haverá o lançamento do e-book "Cartas para Clarice" na sexta-feira, 11. A publicação digital, organizada pela editora-chefe do Núcleo de Cultura e Entretenimento do O POVO, Cinthia Medeiros, trará doze textos assinados por nomes como a jornalista Izabel Gurgel; o artista visual Bitu Cassundé; a escritora juazeirense Alana Morais - idealizadora do evento Chá com Clarice; o médico Álvaro Madeiro Leite; e a mediadora de leituras Nara Barreto.

Leituras de Clarice

Quando: hoje, quarta-feira, 9 de dezembro
Onde: vídeo na íntegra em OP+; trechos nas redes sociais do O POVO

Semana Clarice

 

Quinta-feira, 10
Live "Visões de Clarice", às 18 horas, com Fernanda Coutinho, professora do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC); Yuri Brunello, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC; e Gabriel Marques Cavalcante, estudante de Medicina da UFC. Mediação da jornalista e repórter do V&A, Bruna Forte
Onde: nas redes sociais do O POVO e no canal FDR

Sexta-feira, 11
Lançamento do e-book "Cartas para Clarice"
Onde: O POVO+ (mais.opovo.com.br)

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