Reportagem Seriada

Clarice Lispector: a singularidade de uma poética

A escritora Clarice Lispector, nascida no leste europeu e naturalizada brasileira, completaria 100 anos em 10 de dezembro de 2020. Para comemorar a data, O POVO dá início nesta segunda-feira a uma série de atividades que festejam o legado literário da escritora e agregam múltiplos leitores em torno da sua obra
Episódio 1

Clarice Lispector: a singularidade de uma poética

A escritora Clarice Lispector, nascida no leste europeu e naturalizada brasileira, completaria 100 anos em 10 de dezembro de 2020. Para comemorar a data, O POVO dá início nesta segunda-feira a uma série de atividades que festejam o legado literário da escritora e agregam múltiplos leitores em torno da sua obra Episódio 1
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De tão pequena, a aldeia ucraniana Tchechelnik não figurava nos mapas. Enrijecida pelas temperaturas que atingiam trinta graus abaixo de zero, entretanto, fez-se berço: encaminhando-se para o Brasil ou os Estados Unidos — ainda não haviam decidido —, Mania e Pinkhas Lispector se quedaram no lugarejo para o nascimento da filha.

Chaya Pinkhasovna Lispector rebentou ao mundo em 10 de dezembro de 1920. Na urgência de existir, nasceu em trânsito e de estrada viveu até 9 de dezembro de 1977. Aos dois meses de idade, Chaya nasceu novamente; agora Clarice; agora no Brasil. "Eu, enfim, sou brasileira", declarou. "Pronto e pronto".

"Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito", partilhou Clarice nos idos de 1968. "Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança".

Clarice Lispector não curou a enfermidade da mãe, decerto — sua escrita profundamente imersiva e transgressora, contudo, é também curativa. O centenário da autora brasileira mais solicitada por editoras estrangeiras é celebrado por uma legião de pesquisadores, leitores e até por quem conhece tão somente frases ou trechos multiplicados em redes sociais. Chaya — ou Haia — significa "vida"; e o nome evocado mantém Clarice Lispector viva, muito viva.

"A gente sente até uma espécie de vertigem quando se lembra dos 100 anos de nascimento e dos 43 anos de falecimento de Clarice Lispector, essa numerologia que já está tomando uma dimensão grande. A presença da Clarice é um contraponto atordoante, porque ela parece uma escritora do século XXI no sentido de nos acompanhar, de estar de mãos dadas seus leitores", pontua a pesquisadora Fernanda Coutinho, associada ao Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do grupo Ateliê de Literatura e Arte.

São múltiplas as possibilidades de entrada na vasta e rizomática obra de Clarice Lispector. "A escritora traz questões muito profundas, muito atuais, muito contemporâneas a serem trabalhadas", continua Fernanda, professora de Teoria da Literatura.

"Destaco, por exemplo, a questão da ecocrítica — a crítica literária voltada para as relações entre o homem e a natureza, essa discussão sobre o que é vivo. Os estudos animais vão se deter sobre a relação de animais humanos com animais ditos não humanos. Tais estudos críticos foram sistematizados no começo do século XXI, quando a Clarice já tinha desaparecido, mas nas crônicas dela a gente encontra essa preocupação ecológica. Clarice escreveu sobre a matança de indígenas na Amazônia, sobre práticas nefastas que o homem utiliza e que levam à destruição do meio ambiente", relembra Fernanda.

A densidade dos escritos clariceanos, pondera Fernanda, atravessam problemáticas do presente. "Clarice escreveu sobre o lugar do homem na Terra. Nós temos propensão a achar que somos donos únicos deste planeta — e Clarice conseguiu usar o espaço reduzido da crônica para chamar atenção sobre a condição da nossa própria humanidade. Clarice é profunda até nos livros infantis: só o título 'A vida íntima de Laura' já questiona todo o pensamento estereotipado que existe acerca da literatura infantil; já nos causa um impacto muito grande", analisa a pesquisadora.

"Ela diz, ao longo do texto", complementa Fernanda, "que a galinha é o bicho mais sem graça que existe no mundo; e a galinha é um dos grandes assuntos da Clarice. O lugar que ela concebeu à galinha transcende a ideia de que é um bicho à toa. A escritora se questiona sobre a existência da galinha e sobre a existência de Deus na mesma crônica, ela coloca todos no mesmo nível. Nesse sentido, Clarice é transgressora no melhor sentido da palavra. Ela leva a noção do mistério a todos os seres".

Mestre em Letras pela UFC, editor e organizador da coletânea "Visões de Clarice Lispector" (2020) ao lado de Fernanda Coutinho, o pesquisador Sávio Alencar corrobora: "Clarice é, sim, uma escritora contemporânea. Aliás, essa atenção ao tempo presente perpassa toda sua obra. Clarice escreveu seu tempo, atenta aos fatos do mundo, num grau de abertura realmente sem par. Agora, claro, essa atenção ao fora passa pelo filtro de sua subjetividade, de sua vida interior. É preciso saber ler as entrelinhas, como ela própria disse", pondera Sávio.

"Não é por acaso que, em uma de suas crônicas, ela se coloca como mãe da Terra, da humanidade, de todas as coisas que estão vivas no planeta. Aí também está seu poder de atração: uma escrita verdadeiramente empática. Mas a atração também está na sua biografia, hoje amplamente difundida. A fuga de sua família para o Brasil, a infância difícil, o casamento com um diplomata, a aura de bruxa, de escritora reclusa e misteriosa, todos esses ingredientes ajudaram a compor o mito Clarice — por outro lado, fácil de ser desfeito. Soma-se a isso as traduções de sua obra para várias línguas. Clarice virou escritora de exportação, no melhor sentido, para o nosso orgulho", elucida.

Sávio Alencar é Mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará e editor.
Foto: Divulgação
Sávio Alencar é Mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará e editor.

Como quem mordeu a vida e encheu a boca, Clarice Lispector explorou com a língua cada sabor, cartografando passado, presente, futuro. "Ser leitor de Clarice é ser fisgado quando menos se espera. A gente fica se perguntando: o que ela quis dizer com isso? Para a nossa sorte, na literatura de Clarice, não entender também é bom", adiciona Sávio.

O uso muito particular da língua e as singularidades dos sintagmas criados em suas obras, ficcionais ou não, enfeitiçam. Os escritos de Clarice são densos, por certo — mas a delicadeza em suas palavras os tornam alcançáveis, palpáveis, compartilháveis. Fernanda Coutinho exemplifica: "Numa passagem, a escritora diz que o personagem estava 'todo sozinho, à míngua de mãe'. Eu acho isso lindo! Você, leitor, sente vontade de se lançar àquela pessoa, abraçar e acolher. Ela não precisa usar palavras ásperas para sentirmos a hipérbole dessa solidão".

Jornalista, escritora e criadora da Editora Nós, Simone Paulino acompanha com interesse e curiosidade os desdobramentos da produção da Clarice no mercado literário brasileiro e internacional. "Ela é o tipo de autora que penetra na alma da gente — e no mundo editorial — por sucessivos movimentos de aproximação e recuo. Houve um primeiro momento de interesse internacional pela obra dela, sobretudo na França, quando por lá foram publicados seus livros pelas Éditions des Femmes, uma tradicional e importante editora feminista que fica em Paris", conta Simone.

Simone Paulino é jornalista, escritora, editora. Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), é criadora da Nós.
Foto: Divulgação
Simone Paulino é jornalista, escritora, editora. Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), é criadora da Nós.

"Agora mais recentemente, assistimos a uma outra onda com a publicação da biografia escrita por Benjamin Moser, bem como os 'Contos Completos', em inglês. E mais recentemente ainda, ela chegou causando furor em países como a Grécia, onde figurou na lista de mais vendidos superando o fenômeno mundial Elena Ferrante", enumera a editora.

"Por conta do centenário, a Editora Rocco, que detém os direitos da obra de Clarice no Brasil, reeditou todos os livros numa edição belíssima, cujas capas foram compostas com fragmentos de quadros pintados pela própria Clarice. Além de edições importantíssimas como as edições comemorativas de A Hora da Estrela e Água Viva e o último, um volume com Todas as Cartas da autora. Clarice é infinita. Creio que a edição e reedição de seus livros vão atravessar muitas gerações ainda", defende Simone.

 

 

Outras traduções da obra clariceana são um farol na compreensão da magnitude da autora: na Espanha, a professora Elena Losada já traduziu 12 livros de Clarice Lispector, incluindo obras infantis da escritora. A tradução iídiche, nesse ínterim, também se destaca no resgate às origens judaicas da autora brasileira. Simone Paulino é também autora da obra Como Clarice Lispector pode mudar sua vida (2020).

"Conheci Clarice como a maioria dos brasileiros da minha geração, na lista de leitura obrigatória do vestibular. Foi com a leitura do primeiro romance de Clarice, Perto do Coração Selvagem, quando eu já estava na faculdade, que senti pela primeira vez a potência literária e o poder transformador. Talvez, pensando agora, porque Joana, a personagem do livro é uma orfã — como eu fui menina, por parte de pai; ela, por parte de mãe — que tinha que se haver com a fragilidade de existir sem muito chão", afirma.

 

"Acho que essa identificação foi essencial para todo o processo de entrega à Clarice que se deu depois. Eu tenho brincado que, se antes eu dizia que Clarice Lispector mudou minha vida porque me ajudou a viver,  me ajudou a me autoconhecer, a partir do espelhamento com suas personagens e me ajudou a me humanizar com o tratamento absolutamente existencial que eu encontrei nos seus escritos, hoje Clarice segue mudando minha vida do ponto de vista do real. Mas um real epifânico, pois jamais imaginei que um dia seria convidada para falar dela na Grécia, por exemplo. No entanto, como dizia a própria Clarice 'em matéria de viver, nunca se pode chegar antes'. Tudo tem uma hora exata para ser".

"A hora exata para ser" chegou ao escritor e professor Chico Araújo — conhecido nas salas de aula como Sérgio Araújo — ainda na adolescência, quando encontrou Clarice fortuitamente. O gosto pela literatura se amadureceu cedo na vida de Chico, estimulado pelos pais Mário e Estela, mas foi entre as páginas do romance de estreia de Clarice Lispector que a paixão pelas palavras tomou conta da vida do cearense. "O primeiro livro que eu li dela, Perto do Coração Selvagem, foi comprado pelos Correios, pela extinta editora Círculo do Livro. Foi uma experiência fantástica, a maneira dela escrever me chamou muito atenção. Depois, vieram muitos outros livros", recorda.

Hoje, aos 60 anos, Chico é colecionador da obra de Clarice e dança com as palavras da escritora em sala de aula. "Eu comecei a me deparar ainda mais forte com a Clarice quando comecei a ensinar literatura, do fundamental I ao terceiro ano do ensino médio. Clarice faz parte das minhas aulas, das leituras que partilho com meus alunos. Eu vejo muito o uso do termo 'hermética' para falar de Clarice; e a expressão, como muitas palavras na nossa língua, tem vários significados — inclusive o perigoso sentido de "fechada, inacessível". Clarice não é hermética, ela é densa, é sofisticada", argumenta.

 

Sabrina Ximenes é psicanalista e mestre em Comunicação.
Foto: Divulgação
Sabrina Ximenes é psicanalista e mestre em Comunicação.

 

No desejo da partilha de impressões sobre obras clariceanas e com o objetivo de desfazer o estereótipo de "escrita hermética", a psicanalista e mestre em Comunicação pela UFC Sabrina Ximenes criou o Projeto Clarice 100, uma série de leituras coletivas realizadas ao longo deste ano no Instagram @de_literatura.

"A ideia do projeto era que houvesse uma troca dessas leituras de Clarice, mas devido ao ano atípico que nos tomou completamente de surpresa, a proposta ficou ainda mais participativa com as leituras conjuntas e discussões on-line — além do sopro de vida que foi ter Clarice ao meu lado e de tanta gente o ano inteiro.  Fiz um grupo para trocas e compartilhamos nossa relação com a leitura, depois uma das participantes nos instigou a fazer as chamadas de vídeo e assim ficamos".

Entre os livros lidos pelos quase 50 participantes que envolveram-se nas leituras ao longo do ano, estão os renomados Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969); A Paixão Segundo G.H. (1964); Perto do Coração Selvagem (1943); Água Viva (1973); A Maçã no Escuro (1974) e A Hora da Estrela (1977). "O texto da Clarice nos convoca a um tempo outro com a narrativa, a escrita, a leitura, um tempo outro diante de si mesmo e o que se encontra ali ao ler o texto. 'Ou toca ou não toca', como ela mesma disse naquela entrevista icônica à TV Cultura".

 

 

A pulsão de vida atrai Sabrina às palavras de Clarice Lispector. "Com a Clarice é possível ter um mergulho profundo em si mesmo durante a leitura do texto. O fluxo de consciência — que é muito específico no texto da Clarice — permite uma relação outra do leitor com essa escrita. É interesse ouvir sobre essa relação de leitores iniciantes com esse texto e também de quem já topa caminhar junto há um bom tempo. Clarice causa um certo espanto, um desconforto e isso não é algo que atraia um grande público, mas isso não significa que a escrita é inacessível, pelo contrário: as personagens de Clarice são normalmente mulheres comuns que estão vivendo um dia comum, até que algo surge. É nesse mergulho que entramos e isso foge de um certo automatismo com o texto", complementa.

Clarice morreu na véspera do aniversário de 57 anos. "Veio de um mistério, partiu para outro", como versou o poeta Carlos Drummond de Andrade. Do enigma da esfinge muito ouvimos, muito lemos — a escritora manteve-se afastada de entrevistas, pouco falava à imprensa, vida e obra confundidas. Nos seus últimos anos, foi questionada sobre uma crítica mordaz publicada em um jornal: "Fiquei meio aborrecida, mas depois passou. Se eu me encontrasse com ele a única coisa que eu diria é: Olha, quando você escrever sobre mim, Clarice, não é com dois esses, é com c, viu?".

Aconselhou ainda Drummond, o gauche mineiro: "Deixamos para compreendê-la mais tarde/ Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice". Nas últimas páginas de Água Viva, sua obra mais autobiográfica, Clarice Lispector recusou-se: "Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu?". Deus ouviu. Clarice vive.

 

 

 

Vídeo-performance inspira-se na escritura da autora 

 Atriz Maria Vitória grava, especialmente para o projeto "Semana Clarice", vídeo-performance a partir do espetáculo Clarices, construído a partir de fragmentos de textos da escritora Clarice Lispector. 

 

  

 

"Clarice nos confronta"

Yudith Rosenbaum trabalha na interface da literatura com a psicanálise
Foto: Arquivo Pessoal
Yudith Rosenbaum trabalha na interface da literatura com a psicanálise

 

Yudith Rosenbaum é professora de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP). Produziu a tese de Doutorado Metamorfoses do Mal: uma leitura de Clarice Lispector e também publicou o livro Clarice Lispector, que integra a coleção Folha Explica. Em entrevista ao O POVO, reflete sobre as sensações que a escritora desperta e a popularidade que a autora ganhou nas redes sociais.

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O POVO: Que sensações Clarice provoca durante a experiência de ler seus textos?
Yudith Rosenbaum: “Sensação” é uma boa palavra porque é disso que se trata. É uma questão como ela mesma dizia: a literatura é entrar em contato. Esse entrar em contrato implica um envolvimento, uma sensação de leitura. Varia de leitor para leitor, então não vou generalizar.

Nas obras de Clarice, a gente se vê em território um pouco desconhecido. Ela abre um território não familiar, ela quebra os padrões. Mostra uma certa anestesia para determinadas coisas do nosso cotidiano, do nosso dia a dia, do âmbito mais doméstico. Qualquer situação, em princípio prosaica, até insignificante, pode disparar sensações. Primeiro causa um estranhamento, uma sensação de ser transportado para um mundo novo, de indagações, surpresas, descobertas a partir de situações que são repetitivas. Mas, em um momento, alguma coisa acontece. Não é um fato.

 

Tem leitores que ficam arrebatados por aquela proposição como se não tivesse mediação nenhuma, porque existe uma espécie de fusão com a escrita. Tem outros leitores que se sentem ameaçados por uma escrita um pouco violenta. É interessante que a gente possa se entrever através da literatura.

 

Ela dizia que não escrevia sobre fatos. São pequenos acontecimentos que levam as personagens e, portanto, os leitores a se enfrentarem, a se olharem. O leitor se espelha naquilo que está lendo, e os personagens devolvem espelhos. Isso dá uma sensação de mal estar, provoca perplexidade. Em dado momento, o leitor questiona em que momento ele perdeu o pé. O que acontece nesses momentos? Ela quer flagrar que, nesses instantes, há uma virada, e o sistema é quebrado, e o mundo desmorona. Ela entra em uma viagem em um mergulho religioso, antropológico e metafísico.

Tem leitores que ficam arrebatados por aquela proposição como se não tivesse mediação nenhuma, porque existe uma espécie de fusão com a escrita. Tem outros leitores que se sentem ameaçados por uma escrita um pouco violenta. É interessante que a gente possa se entrever através da literatura. A Clarice é uma escritora poderosa, tem uma potência de nos desconcertar com frases brilhantes. Ela traz elementos antiestéticos, o mal estar e a felicidade. É esse jogo que ela faz. Ela tem uma pontuação esquisita.

Ela nos confronta, causa um estranhamento, até repulsa. Deixa a carne viva, nas entranhas das situações. Às vezes, a gente não está preparado para essa entrega que ela quer nos dá. Ela tem uma visão muito penetrante, intensa. Ela fala de extremos. A gente fica bem arrebatado com essas estranhezas. Em termos de sensação, não dá para ficar no morno com a Clarice. Você tem que enfrentar, aceitar aquele convite que ela faz para entrar na linguagem. A literatura é para isso. Ela cria outra realidade para a gente entender melhor a vida.

 

 

OP: Reler Clarice nunca provoca a mesma sensação. Por quê?
Yudith:  Também sinto isso. A primeira vez que tentei ler A Paixão Segundo G.H., não consegui. Mais tarde, eu fui mais enlaçada na literatura da Clarice. Acho que é uma questão de experiência de vida: o tanto que seu repertório mudou, o quanto você já não é a mesma pessoa. Clarice nos dá espelhos, espelhos que nem sempre são agradáveis, porque não olhamos que nem narciso. Ela fornece um espelho de um sujeito contraditório, que se estranha, que se desconhece. Então depende da sua abertura, do momento de vida em que está. Ela também trabalha situações mais ideológicas, como o preconceito, a reificação.

Estudei esses territórios da negatividade: pulsões de morte, agressividade, violência, maldade. Clarice é intensa para a pulsão de vida como é intensa para a pulsão de morte. Elas estão sempre juntas. E esses espelhos refletem nossas mudanças. Por isso, é uma obra em aberto. Ela não fecha questões, não é autoajuda. Ela provoca reflexão, indagação e transformação a partir de uma relação com a obra. Ela me desconcerta e me faz rever os esquemas de percepção do eu e do outro. Esses pares levam a descobertas infinitas. A gente tem que ter uma loucura para ler Clarice.

 

Eu acredito que o texto dela tem escritos embaixo de escritos, como as camadas da barata dela. Às vezes, as significações não estão no que ela diz. Ela dizia “ouça o que eu não disse”. No silêncio do texto dela, nas lacunas, nas entrelinhas, também quer que a gente escute os silêncios.

 

Com certeza há diferenças na releitura em momentos diferentes de vida, porque o texto não é o mesmo, é móvel. O livro é recebido de outra maneira em função das condições sociais de cada época e dos valores. Uma coisa que eu acho importante da Clarice é que ela não cria só seus personagens, ela cria e constrói seus leitores. Talvez a cada momento surjam leitores mais afinados com ela. Ela foi aceita pela crítica desde a primeira resenha. Eles aceitaram e louvaram a Clarice. Mas cada época vai desenvolvendo outros instrumentos de leitura. Isso vai revelando mais camadas.

Eu acredito que o texto dela tem escritos embaixo de escritos, como as camadas da barata dela. Às vezes, as significações não estão no que ela diz. Ela dizia “ouça o que eu não disse”. No silêncio do texto dela, nas lacunas, nas entrelinhas, também quer que a gente escute os silêncios. Nem sempre a gente está preparado para captar essas ressonâncias. Tem vezes que estamos mais abertos, mais sentidos. E defesa era uma coisa que a clarice gostava de derrubar: nossas barreiras, aquilo que a gente sempre acredita ser sempre binário. Ela bagunça todas as categorias.

 


OP: O que justifica a popularidade de Clarice na internet, mesmo que ela tenha textos tão difíceis?
Yudith: Eu acho que os tempos que a gente vive devoram tudo pela frente. E Clarice não passaria despercebida. Mas acho que essas capturas da internet nem sempre são boas. Transformam em autoajuda, o que acho anti-clariceano. Ela odiaria se ver como um modelo de alguma coisa, como conselheira. Isso não quer dizer que ela não cause uma transformação nos textos divulgados. O que acontece nessa captura da rede fica descaracterizada, com algumas fórmulas e alguns clichês. Não estou dizendo que não seja interessante que ela tenha esse alcance. Mas temos que ter cuidado para ela não ser mitificada.

Ela não é brilhante em todos os textos. É preciso dar espaço para o próprio autor se ver com falhas. Não gostaria que a Clarice fosse idolatrada. Seria totalmente contrário ao que ela propunha como escrita. O que me encanta nela é o espaço do erro, o espaço do não entender. Mas ela conseguiu trazer um silêncio que a gente precisa nesse momento para sair do nosso narcisismo. A Clarice me ajuda nisso pela complexidade, mas não porque ela dê receitas.

 

A Clarice é necessária porque nos confronta, nos tira de uma certa acomodação. Estamos sempre precisando de uma alienação, de uma segurança. Nós trocamos nós mesmos, nosso eu, pela segurança.

 

Por que será que ela foi idolatrada? Acho que hoje padecemos de uma época política e social de tantas desigualdade e injustiças, com todo esse avanço da direita, que é um processo sofrido não só no nosso país, mas fora dele também. Em um momento como esse que estamos mediocrizados, ela traz o alento da profundidade. É muito curioso porque o apelo dela é muito forte. Ela nos propõe um outro olhar para o mundo e nos coloca vivos de novo. Mas é claro que a internet tem um paradoxo. Às vezes a balança pode cair para tornar Clarice aquilo que ela veio combater: o simplismo e a mediocrização.

A Clarice é necessária porque nos confronta, nos tira de uma certa acomodação. Estamos sempre precisando de uma alienação, de uma segurança. Nós trocamos nós mesmos, nosso eu, pela segurança. Quando lemos um texto como “Mineirinho”, sobre um homem morto com treze tiros, ela diz que uma bala matava, o resto era vontade matar. Ela expõe uma realidade com crueza e verdade. Ela fala do eu, do outro, das injustiças, do desamparo, da nossa necessidade de amar. Ela fala da gente. A gente se sente olhado pela Clarice.

 

A Clarice fala muito para nossos tempos, está na contramão do que nosso tempo quer consolidar. Esse tempo nos bestializa, nos desumaniza, mas somos humanos. Temos formas de viver mais intensas, mais verdadeiras.

 

Por isso, acho que ela é recebida de uma forma tão intensa e vasta. Ela tem muita humanidade. E a gente vê nossas carências, nossas contradições. Ela traz pra nós esse alento de alguém que está nos vendo, não só como queremos ser, como na vitrine da modernidade. Na modernidade, a gente expõe vaidades atrás de vaidades.

E Clarice nos traz experiências mais amplas, mais ricas, mais vivas, isso é muito estimulante. O viver pode nos angustiar, mas é a vida. Ela nos propõe formas de vidas amplas e vastas. Ela mostra que a gente vive a vida com “v” minúsculo, mas existe uma vida com “v” maiúsculo e que pode se dar a qualquer momento. Essa perspectiva de outra vida possível, em que a gente mergulha na existência, cativa as pessoas em um momento tão desumano. A Clarice fala muito para nossos tempos, está na contramão do que nosso tempo quer consolidar. Esse tempo nos bestializa, nos desumaniza, mas somos humanos. Temos formas de viver mais intensas, mais verdadeiras. (Colaborou Clara Menezes/ Especial para O POVO)

 

 

 

 

 

Que estou eu a dizer?

 

“Para que escrevo? E eu sei? Sei não”. Rodrigo S.M. é o narrador da história da alagoana Macabéa em A Hora da Estrela (1977). A partir desse personagem onipresente, compreende-se não apenas as desventuras da pobre datilógrafa em busca de uma vida melhor no Rio de Janeiro, mas também as próprias reflexões de Clarice Lispector enquanto escritora.

“Só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato”. Nem mesmo a autora, com dezenas de contos, crônicas, romances e obras infantis, podia afirmar com certeza os motivos de sua escrita. Redigia porque tinha perguntas sem respostas. Destruía e reorganizava palavras em um processo tão íntimo que pouco se importava com que os outros pensariam de seus textos.

Ela criou um universo denso, em que o vocabulário incomoda, machuca e transforma. Nestes espaços que separam a letra do papel ou o autor do leitor, concebeu uma linguagem própria. Tornou-se única e, mesmo após um século de seu nascimento e mais de quatro décadas de sua morte, continua um dos principais nomes da literatura brasileira.

Mas Clarice percorreu um caminho inverso ao de seus companheiros literatos. Enquanto a maioria dos conteúdos dos clássicos brasileiros permanecem sendo consumidos por uma pequena parcela da população, Lispector se popularizou. A Internet converteu a contista em um fenômeno. Frases de sua autoria são disseminadas em abundância pelas redes sociais. Já era de se esperar: sua palavra inquieta não se contentaria em permanecer nas folhas dos livros.

Entretanto, esse leitor que conhece a escritora por meio de trechos divulgados no meio virtual percebe somente uma parcela finita do mundo de Clarice. É necessário mergulhar nesta terra tantas vezes explorada, mas que continua desconhecida, para ouvir sua voz. O próprio questionamento, “que estou eu a dizer?”, feito em uma passagem da coletânea Onde estivestes de noite (1977), talvez nunca tenha uma conclusão definitiva. Mas é possível tentar.

Pedro Vasquez, editor da obra de Clarice Lispector na editora Rocco.
Foto: Divulgação
Pedro Vasquez, editor da obra de Clarice Lispector na editora Rocco.

Nessa literatura complexa, existem múltiplos caminhos que podem ser seguidos para imergir na palavra da autora. Mas Bruno Cosentino, da equipe de literatura do Instituto Moreira Salles, e Pedro Karp Vasquez, editor da obra da autora na Rocco, convergem em uma opinião: os contos e as crônicas. “Os romances são mais desafiadores, porque, nos primeiros tempos, exploravam muito o recurso do fluxo de consciência, fazendo com que a ação interna na mente dos personagens fosse, com frequência, mais importante do que os acontecimentos externos. E, na fase final, foram se tornando cada vez mais abstratos, enveredando pelo campo da prosa poética”, explica Pedro Karp Vasquez.

Por causa da imersão que a escrita sensorial de Clarice Lispector, por vezes, exige, os dois acreditam nesses estilos narrativos como um início de percurso. “As crônicas são uma boa entrada. São inteligentes, divertidas, transparentes”, comenta Cosentino. Ele cita o recente volume que a Rocco lançou, “Todas as crônicas”, em que reúne a obra da cronista na íntegra. Os contos também são uma maneira de adentrar em seu universo.

“No caso dos contos, que representam uma das vias mais acessíveis à sua obra, duas boas opções seriam as coletâneas ‘Felicidade clandestina’, na qual figura o paradigmático ‘O ovo e a galinha’, e ‘Laços de família’, que ganhou o Prêmio Jabuti nessa categoria”, recomenda Pedro Vasquez.

Mas começar por seus romances também é uma opção. “Seria interessante comparar os dois extremos, começando com seu primeiro livro, ‘Perto do coração selvagem’, e saltando para o último que ela publicou em vida, ‘A hora da estrela’, pois as duas protagonistas, Joana e Macabéa, são diametralmente opostas entre si. Porém, anseiam pela mesma coisa: a afirmação da própria feminilidade e um espaço pessoal em um mundo machista e opressor”, afirma o editor.

 

 

Em comemoração ao centenário, sua obra está sendo reeditada pela editora Rocco desde o início do ano. As capas, realizadas pelo designer Victor Burton, revelam uma parte de Clarice Lispector pouco conhecida pelos leitores: suas pinturas.

“Todos os livros receberam posfácios inéditos especialmente encomendados para a ocasião e assinados por estudiosos de renome, como os biógrafos Nádia Battella Gotlib e Benjamin Moser; por cineastas que adaptaram obras dela, como Luiz Fernando Carvalho e Marcela Lordy; por escritoras de renome que foram grandes amigas dela, como Marina Colasanti e Nélida Piñon”, indica Pedro Vasquez. O livro que finaliza o ano de celebrações será “A hora da estrela”, seu último romance publicado em vida. A publicação contará com prefácio do filho e curador de seu legado, Paulo Gurgel Valente.

É possível, ainda, extrapolar seus textos para imergir na trajetória da autora. O Instituto Moreira Salles (IMS), por exemplo, divulgará um novo site bilíngue sobre a Clarice Lispector nesta quinta-feira, 10 de dezembro. Diferente do antigo portal, este contará com dois ambientes de navegação: um para pesquisadores e estudantes, outro para o público geral. Cadernos pessoais na íntegra, fotos de família, áudios, entrevistas, além de trabalhos acadêmicos realizados, são alguns dos conteúdos que serão disponibilizados. “É, sobretudo, um site que passou por um processo rigoroso. Tem muitas coisas atribuídas à Clarice na internet, mas não são delas. Temos um grande rigor editorial”, comenta Bruno Cosentino.

“O grande legado que ela deixou foram os livros. A obra dela que cada vez mais interessa a mais gente no mundo inteiro. Embora tenha tido muito sucesso no primeiro livro, ela não foi escritora de muitíssimos leitores. Isso foi mudando somente na década de 1960. Sem dúvida, ela tem uma obra inquietante, que é um reflexo de seu gênero artístico”, diz Cosentino. Para Pedro Vasquez, o legado de Lispector também é a própria obra rica e multifacetada. “É uma obra que a levou a ser considerada uma das mais importantes escritoras de língua portuguesa em todos os tempos, além de ter sido traduzida em cerca de quarenta idiomas, sendo, portanto, lida em mais de uma centena de países”, demonstra. (Colaborou Clara Menezes/ Especial para O POVO)

 

 

 

 
 
 

Semana Clarice Lispector

Na semana em que se comemora o primeiro centenário da autora, celebrado no dia 10 de dezembro, O POVO realiza a "Semana Clarice" para homenagear uma das mais importantes personalidades da literatura brasileira. Entre segunda-feira, 7, e sexta-feira, 11, o grupo de comunicação promove atividades em diversas plataformas.

Um dos destaques da semana é o “Leituras de Clarice”, que acontece em parceria com o projeto Cidade Portátil, da jornalista e cronista do V&A, Izabel Gurgel. Com vídeos curtos para as redes sociais, convidados lerão trechos de livros da autora. Alguns dos nomes confirmados são Fabiano Piúba, secretário da cultura do Estado; Talles Azigon, idealizador da biblioteca comunitária Livro Livre Curió; João Paulo Lima, artista educador e performer; Paula Yemanjá, atriz e contadora de histórias; a artista visual Raisa Christina, entre outros. O convite se estende, no entanto, a todos os apreciadores da obra da escritora, que também enviaram as próprias gravações para O POVO divulgar em suas plataformas. O conteúdo será divulgado na quarta-feira, 9, nas redes sociais do jornal.

Maria Vitória, atriz, durante gravação do vídeo-performance Clarices, inspirado em textos de escritora Clarice Lispector
Foto: JULIO CAESAR
Maria Vitória, atriz, durante gravação do vídeo-performance Clarices, inspirado em textos de escritora Clarice Lispector

Outras ações acontecerão durante a semana. Na terça-feira, 8, a atriz Maria Vitória apresenta uma performance audiovisual inspirada em textos de Clarice. A adaptação, feita com exclusividade para a Semana Clarice do O POVO, será divulgada na plataforma de assinantes OP+. No dia do aniversário da escritora, 10, acontecerá uma transmissão ao vivo com a professora Fernanda Coutinho, da Universidade Federal do Ceará, uma das organizadoras do livro “Visões de Clarice”, e convidados. A live terá mediação da jornalista e repórter do Vida&Arte Bruna Forte. O evento será exibido nas redes sociais do O POVO e no Canal FDR, às 18 horas.

Para finalizar, haverá o lançamento do e-book “Cartas para Clarice” na sexta-feira, 11. A publicação digital trará doze textos assinados por nomes como a jornalista Izabel Gurgel; o artista visual Bitu Cassundé; a escritora juazeirense Alana Morais - idealizadora do evento Chá com Clarice; o médico Álvaro Madeiro Leite; a mediadora de leituras Nara Barreto, entre outros. A coletânea de cartas, organizada por Cinthia Medeiros, homenageia a escritora que tanto recorreu à escrita de correspondências para se comunicar com amigos e parentes. (Colaborou Clara Menezes/ Especial para O POVO)

 

 

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